Caso da pistola flagrada com o segurança do ex soma-se às várias histórias de transgressão protagonizadas pelo clã Bolsonaro
Por Mary Zaidan, Para o MEtrópoles
Nenhum país admite que um condenado tenha uma arma em sua cela. Muito menos equipe de segurança pessoal paga pelo Estado. Mas por aqui, terra habituada a normalizar absurdos, o ex Jair Bolsonaro não só tinha uma pistola 9mm no ambiente prisional como destacou um sargento do Exército para mandar consertá-la – sabe-se lá para que. Tudo no caso da arma flagrada com o segurança do ex é inverossímil e só ganha materialidade por envolver os Bolsonaro, protagonistas reincidentes de histórias surreais.
Além de planejar um fracassado golpe de Estado, Bolsonaro e o seus enveredaram-se por dezenas de estranhezas que vão desde falsificação de atestados de vacina a joias das arábias, presentes que tentaram desbloquear na alfândega e vender em Miami. Desde o ano passado, o deputado Eduardo, cassado e autoexilado nos Estados Unidos, abriu campanha contra o Brasil junto ao grupo de Donald Trump visando a suspender a condenação do pai, o que resultou em sanções a autoridades e tarifas ao país. Ação repetida pelo irmão e pré-candidato Flávio, defensor da classificação do PCC e CV como organizações terroristas, que, no passado recente, condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em uma emboscada na Bahia.
Na conta do Zero Um estão também a prática de rachadinhas, rolos com imóveis comprados em dinheiro vivo e a captação de milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme sobre o papai, sem qualquer exigência de retorno, nem mesmo rubrica de patrocínio. Nesse contexto, a pistola de Bolsonaro é quase um detalhe, mas que corrobora no desvario de transgressões do clã.
A arma foi apreendida na segunda-feira, 15, tarde da noite, durante uma blitz em Taguatinga, no Distrito Federal. A pistola estava no chão do Honda Civic do sargento Estácio Leite e Silva que, inicialmente, disse ser de sua propriedade. Já na delegacia, admitiu que ela pertencia ao ex-presidente preso, que o encarregara pelo conserto.
De imediato, o ministro do STF Alexandre de Moraes exigiu explicações, boa parte delas confusa ou simplesmente risível. Os advogados de Bolsonaro admitiram que a arma era dele, e que fora desativada sem o conhecimento do ex para protegê-lo diante de distúrbios cognitivos causados por medicamentos. Afirmaram ainda que não havia no despacho da prisão domiciliar qualquer proibição sobre manter armas em casa. Ora, mesmo não existindo uma determinação expressa sobre a questão, não é possível alegar ignorância quanto ao fato de a detenção domiciliar ser, juridicamente, uma prisão, sujeita a todas as regras penitenciárias. Como um condenado encarcerado em regime fechado não pode ter armas, logo…
Não conseguiram explicar também como o sargento saiu da casa de Bolsonaro carregando uma arma sem ser vistoriado. De acordo com os policiais responsáveis pela revista de quem entra e sai da casa-prisão, os veículos do pessoal da segurança ficam parados na rua, e, por isso, não são alvo de inspeções. Por essa lógica, os seguranças do ex podem entrar e sair com qualquer coisa – celulares ou até uma granada. O sonho dourado de qualquer presidiário.
Mais: quais as justificativas para manter segurança pessoal de um detido? Pela lei de 1986, complementada por decreto de 2008, os ex-presidentes da República têm direito a quatro servidores para segurança e apoio pessoal, dois veículos e respectivos motoristas e mais dois assessores. Todos pagos pela União. As regalias, questionadas por muitos, tornam-se um disparate quando aplicadas a ex-presidentes presos.
Somados os tempos de Papudinha e de prisão em sua residência, Bolsonaro já custou R$ 500 mil aos cofres públicos. Fernando Collor de Mello, também preso em regime domiciliar desde maio de 2025, teve R$ 2 milhões de custeio para a sua equipe só neste um ano e meio de cumprimento de pena. Nos 19 meses em que Lula esteve preso, a União desembolsou um pouco menos: R$ 850 mil em salários de servidores ao seu dispor.
Todas as tentativas na Justiça para reverter a barbaridade de manter uma equipe funcional mesmo nos casos de detenção do beneficiário esbarraram na vitaliciedade conferida pela lei, algo que, pelo histórico de prisões recentes de ex-presidentes, mereceria revisão, fosse o Brasil um país sério. O mais provável é que o dinheiro do contribuinte continue jorrando para bancar assessores, carros, motoristas e seguranças a esses presos de luxo sem que legislador algum mexa com isso.
Na próxima quinta-feira, 25, vence o prazo da domiciliar concedida por Moraes a Bolsonaro por questões de saúde. É pouco provável que o ministro reverta o status da prisão, embora o ex seja reincidente na burla às condições de presidiário. Já arrebentou uma tornozeleira eletrônica e agora quer manter ativa a sua pistola. Defensor obstinado do amplo porte de armas, Bolsonaro dizia, em palanques de 2022, que armas em casa eram úteis não só para proteger o cidadão e sua família, mas “quem sabe, garantir sua liberdade no futuro”. No limite, cabe imaginar que esse é o motivo para que ele, preso, queira consertar a sua 9mm.