O Nordeste continua decisivo. Mas já não vota da mesma forma
Por Tiago Medeiros, Sociólogo
Toda eleição produz uma fotografia do momento político. As melhores pesquisas, porém, conseguem revelar algo mais profundo: as mudanças silenciosas da sociedade. É exatamente isso que aparece na mais recente rodada da pesquisa Nexus/BTG. Mais do que medir intenções de voto, ela mostra que o comportamento eleitoral brasileiro e especialmente o nordestino, está passando por uma lenta, porém importante, transformação.
O Nordeste continua sendo a principal fortaleza eleitoral de Lula. Na pesquisa estimulada, o presidente aparece com 48% das intenções de voto na região, enquanto Flávio Bolsonaro registra 29%, uma vantagem de 19 pontos percentuais. Ainda assim, trata-se de um cenário mais competitivo do que aquele observado nos últimos ciclos eleitorais, indicando que a hegemonia lulista permanece, mas já não apresenta a mesma impermeabilidade de outros momentos.
Essa mudança ajuda a explicar um fenômeno nacional. Lula lidera a corrida presidencial com 41%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 37%, reduzindo a diferença para apenas quatro pontos. No segundo turno, o cenário torna-se praticamente um empate técnico: 46% contra 45%. Ao mesmo tempo, ambos atingem exatamente o mesmo índice de rejeição, 49%, revelando um país dividido não apenas eleitoralmente, mas também emocionalmente.
Do ponto de vista da sociologia política, esse movimento é significativo. Durante décadas, o voto nordestino foi explicado principalmente pela identidade política construída em torno da inclusão social promovida pelos governos petistas. Essa memória continua presente, mas passa a conviver com novos fatores. A pesquisa mostra que 59% dos brasileiros avaliam que os preços de alimentos e bebidas pioraram em relação ao governo anterior, sendo que 43% responsabilizam diretamente o governo Lula por esse cenário. Isso evidencia que questões econômicas concretas passam a disputar espaço com a identidade partidária na formação das escolhas eleitorais.
Outro dado ajuda a compreender essa reorganização. A Nexus identifica que apenas 25% dos brasileiros podem ser classificados como lulistas convictos, enquanto 29% são bolsonaristas convictos. Há ainda 20% de eleitores não polarizados e outros 15% distribuídos entre grupos que rejeitam simultaneamente Lula e Bolsonaro ou enxergam um dos dois apenas como alternativa circunstancial. A velha narrativa de um Brasil dividido em dois blocos já não explica toda a complexidade do eleitorado.
O Nordeste acompanha essa transformação. A identidade regional continua sendo um ativo político relevante, mas já não determina sozinha o voto. O eleitor nordestino permanece valorizando políticas sociais, porém cobra resultados concretos em temas como inflação, renda, emprego e custo de vida. Em outras palavras, o voto deixa de ser apenas identitário para incorporar, cada vez mais, uma lógica retrospectiva de avaliação de desempenho.
As eleições de 2026 talvez sejam lembradas não como a disputa em que o Nordeste mudou de lado, mas como a eleição em que o Nordeste começou a mudar a forma de decidir. E compreender essa diferença pode ser muito mais importante do que acompanhar as oscilações semanais das pesquisas.
Thiago Medeiros
Sociólogo