15 de abril de 2026

Sobre enganosos favoritismos no período eleitoral

Autor: Daniel Menezes

Para o AGORA RN

Por Alan Lacerda, Cientista Político e Professor da UFRN

É assim em todo período eleitoral. O pleito começa a se aproximar e emissores de opinião desandam a declarar que tal ou qual candidato é o “favorito” na disputa. Se o juízo fosse probabilístico, como intelectualmente é próprio, não haveria problema nenhum no uso do termo para analisar eleições. O candidato favorito seria simplesmente aquele com mais chances de ganhar, dados estes e aqueles fatores; outro aspirante com chances mais baixas pode ainda sagrar-se vitorioso, por conta desta ou daquela característica.

Todavia, quando falam em favorito, os comentadores no mais das vezes não estão realmente tecendo juízos de probabilidade. Pensam simplesmente no indicador da intenção de voto nas pesquisas, e no que ocorreria se a eleição fosse hoje. O problema desse raciocínio é que a eleição nunca é nesse famoso “hoje”; ela se dá em outubro no calendário eleitoral brasileiro. Não faz sentido, se se quer predizer o resultado de uma eleição, operar apenas com a intenção de voto. Os exemplos são inumeráveis de como o indicador é enganoso, a começar por 2024 em Natal, quando o suposto favorito, líder nas pesquisas até o início do segundo semestre, terminou no terceiro lugar da competição.

O voto pelo medo: a falência do debate político no Brasil - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sobre enganosos favoritismos - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Essa crítica vem a propósito quando examinamos a atual peleja potiguar pelo cargo de governador. Nenhum dos três aspirantes principais ao posto, Allyson Bezerra (União), Álvaro Dias (PL) e Cadu Xavier (PT), competiu alguma vez como titular em uma disputa majoritária estadual. Nenhum deles foi governador ou senador. É muito difícil aferir com alguma precisão o tamanho potencial de seus eleitorados no nível do Estado. Sabemos, entretanto, que Xavier é o candidato de um governo mal avaliado, com cerca de 1/3 de aprovação. Suas chances de vencer são muito baixas, até por ser mais custoso para qualquer grupo situacionista apresentar um novo nome que o personifique. O nome da governadora reeleita em 2022, por óbvio, não está disponível.

Seria o líder nas pesquisas, o ex-prefeito Bezerra, o “favorito”? Em várias sondagens estimuladas, a quantidade de eleitores ainda sem candidato passa de 25% dos entrevistados. Isso sugere que o grande eleitorado ainda não está pensando no pleito e que há espaço para movimentações expressivas nas curvas da intenção de voto até outubro. Não existe evidência de que há um eleitorado estadual cristalizado em torno do ex-gestor de Mossoró – o mesmo se aplica a Dias, o ex-prefeito de Natal. O que temos evidenciada é a má avaliação do governo Fátima e que é pouco provável uma mudança acentuada para cima na sua popularidade em poucos meses. O “favoritismo” existente é, portanto, da oposição estadual, como um todo, com a implicação que um dos dois, Bezerra ou Dias, tende a ser o próximo governador.

Alan Lacerda é professor titular do Instituto de Políticas Públicas da UFRN

[0] Comentários | Deixe seu comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.