• Redação
  • 18/08/2026

Sem polarização: banimento das bets une eleitores de esquerda e direita, revela pesquisa

Amado Mundo - O avanço das apostas online no Brasil, conhecidas como bets, deixou de ser apenas um debate de ordem econômica e passou a ser tratado como uma crise social e familiar. O estudo “Mulheres & Bets: O impacto da epidemia de apostas online para as brasileiras e suas famílias”, realizado pelo estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa Ideia, divulgado nesta segunda-feira (17/8), revela que as plataformas de apostas online já foram utilizadas por 49% dos brasileiros. Na população feminina, o índice aponta que 42% já apostaram ou jogam atualmente, enquanto 12% são impactadas por um familiar que aposta.

“Quando o Brasil pensa em bets, a imagem que sempre aparece é masculina, mas as mulheres têm um papel fundamental diante desse fenômeno, que as atinge mesmo quando elas não jogam. Onde tem aposta tem uma mulher pagando a conta”, argumenta a cofundadora e codiretora da Clarice, Mariana Ribeiro.

Barreiras políticas superadas por maioria antibets

De acordo com a análise, em um cenário de divergências ideológicas, a necessidade de conter as bets surge como um raro caso de maioria praticamente independente de ideologia: 62% dos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022 e 56% dos eleitores de Jair Bolsonaro do mesmo período se declaram favoráveis ao banimento das bets no Brasil.

Para a cientista social e cofundadora do estúdio Clarice, Beatriz Della Costa, essa convergência ocorre porque o tema ainda não foi capturado pela polarização partidária. “Nesse período não teve ainda também nenhum dos campos políticos exercendo um direcionamento muito claro sobre proibição ou se apropriando desse tema de uma maneira mais enfática”, explica.

Para a especialista, a ausência de um direcionamento claro faz com que a pauta “não tenha dono” no mundo político hoje. Além disso, a rejeição é impulsionada pela própria experiência da população. “As pessoas estão sentindo o impacto negativo; apesar de jogar, elas também sentem o impacto negativo das apostas nas suas vidas”, destaca Beatriz.

Essa demanda por intervenção governamental é liderada de forma ainda mais expressiva pelas mulheres. Ao todo, 62% das brasileiras defendem a proibição total desses jogos no território nacional, em comparação com 50% dos homens. Além disso, 56% de toda a população concorda especificamente que as operadoras de apostas deveriam ser proibidas de funcionar no país. Outras medidas restritivas também contam com apoio popular, como o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais, aprovado por 45% dos entrevistados.

O custo social: destruição familiar e o elo com a violência doméstica

A pesquisa afirma que o endividamento financeiro representa apenas a camada visível de uma crise que corrói os laços de afeto e a estabilidade dentro das casas, atingindo as relações cotidianas e a saúde mental. Uma parcela de 67% das mulheres alerta de forma direta que os jogos online estão destruindo as famílias brasileiras, percepção compartilhada por 59% dos homens.

“Quem cuida dos lares, quem cuida da gestão familiar, normalmente, na maioria dos casos no Brasil, é uma mulher. Por isso que quem sofre as consequências das apostas online tem cara. E essa cara é a cara de uma mulher”, afirma a cientista social. Na visão dela, é isso que o “pagar a conta” retratado no estudo representa.

De acordo com o levantamento, 23% dos brasileiros afirmam que conhecem ou presenciaram pessoalmente situações em que as apostas online funcionaram como um fator de contribuição para casos de violência dentro da família. Esse impacto se mostra ainda mais severo nas classes D e E, onde o superendividamento financeiro e o desvio de recursos antes destinados à sobrevivência básica podem gerar vulnerabilidade.

Beatriz pondera que o jogo funciona como um catalisador de vulnerabilidades pré-existentes na sociedade. “A violência doméstica existe na sociedade brasileira. As bets são mais um fator que gera mais possibilidade para que essa situação ocorra”, aponta. Ela alerta que o impacto não se restringe a uma perda financeira imediata, mas gera danos de difícil reparação na saúde mental das famílias a longo prazo, como ao lidar com o vício e o adoecimento dos filhos.

Apesar da gravidade do cenário, as ferramentas públicas de proteção existentes continuam desconhecidas pela maioria de quem precisa de socorro. Cerca de 70% dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de autoexclusão criado pelo governo federal. Essa desinformação é ainda mais acentuada entre as mulheres que pertencem justamente às classes D e E. Como alternativa de saída, 33% de todos os entrevistados demonstraram interesse em acessar canais anônimos de apoio para lidar com o problema das apostas, demanda que salta para 57% quando analisado exclusivamente o grupo de quem joga com frequência.

A cofundadora da Clarice acredita que desenhar soluções eficazes exige trazer as brasileiras para o centro do debate, transformando-as em aliadas ativas na contenção da crise e não apenas em vítimas.

“As mulheres podem ser aliadas na contenção dessa crise. Olhar não só depois que o leite está derramado, mas como você instrumentaliza mulheres dentro de suas casas a não deixar que o jogo nem chegue”, conclui.

A pesquisa “Mulheres & Bets” combinou abordagens qualitativas e quantitativas. A etapa qualitativa consistiu na realização de entrevistas com 60 pessoas, majoritariamente mulheres de 18 a 58 anos pertencentes às classes C, D e E, residentes nas regiões Sudeste e Nordeste, realizadas nos meses de junho e agosto. Já a fase quantitativa foi composta por uma enquete nacional que ouviu 2.008 pessoas (entre homens e mulheres) de todo o Brasil, entre os dias 8 e 9 de julho.

A amostra seguiu a distribuição proporcional da população brasileira com base nos dados do Censo 2022 e da PNAD 2025. A margem de erro estimada do estudo varia entre 2 e 2,2 pontos percentuais.