PF não identifica nada de concreto em relação a ameaças aos postos diplomáticos, contrariando discurso dos EUA
Por Cleber Lourenço e Jamil Chade
A Polícia Federal (PF) não constatou nada de concreto em relação às ameaças de segurança mencionadas pelos EUA e Austrália para justificar o fechamento de embaixadas e consulados, mas decidiu agir preventivamente. Fontes do mais alto escalão do governo indicaram que a orientação era abrir investigações e dar sinais aos estrangeiros de que sua proteção seria prioridade. Mas, sem encontrar nenhum sinal de risco, cresceu a suspeita dentro do governo de que a manobra faz parte de uma tentativa de desestabilizar o processo democrático.
Brasília, de fato, considerou um “factoide” as medidas anunciadas por Estados Unidos e Austrália a dois dias do primeiro turno das eleições. Segundo apuração do ICL Notícias, autoridades nacionais afirmam não haver sinais de violência ou ameaças no país que justifiquem as providências adotadas pelos dois governos estrangeiros.
Uma fonte do alto escalão brasileiro descreveu o cenário como de “normalidade” às vésperas da eleição. Outra classificou a movimentação como uma tentativa de “fazer marola do nada”.
A avaliação ouvida pela reportagem é de que a adoção de precauções por representações diplomáticas em períodos eleitorais não é incomum na América Latina. O estranhamento, neste caso, está na dimensão pública dada às medidas sem que tenha sido apresentada uma ameaça concreta que as justifique.
Brasil foi informado antes do fechamento e abriu investigação
Oficialmente, o governo brasileiro ficou sabendo da suposta ameaça contra a embaixada dos EUA antes do anúncio público do fechamento dos postos diplomáticos norte-americanos. Ao ser procurado, o governo tomou a decisão de levar à sério o alerta.
Ainda que haja uma suspeita de que a operação possa ser uma manipulação do medo diante da eleição, a decisão do governo foi a de não correr risco e atuar sem fazer qualquer ilação sobre os motivos.
Fontes em Brasília confirmaram que as investigações sobre os indícios começaram antes mesmo da notícia vir à público.
O governo considera que, em um primeiro momento, não cabe discutir se os indícios são verdadeiros ou não. O Brasil tem a responsabilidade de garantir a proteção do corpo diplomático e, diante da situação, a opção foi por “errar pelo excesso”.
A decisão de fechar a embaixada, porém, coube aos americanos. Não há, neste momento, qualquer prazo para a volta do funcionamento dos serviços consulares.
Turbulência
Mas as suspeitas internas começaram a crescer quando foi constatado de que não havia nada de substancial.
Entre interlocutores do governo, há também a avaliação de que a repercussão dos alertas pode produzir efeito político na reta final da eleição. Não há, porém, elementos públicos que permitam afirmar que essa seja a intenção dos governos americano e australiano.
O que aconteceu
Os Estados Unidos suspenderam nesta sexta-feira (2) os serviços consulares na Embaixada em Brasília e nos consulados espalhados pelo país sob a justificativa de “preocupações com a segurança”. Americanos que necessitem de assistência emergencial também foram orientados a não procurar as instalações diplomáticas. O Departamento de Estado não detalhou publicamente a natureza da ameaça nem relacionou a medida à eleição de domingo.
Na sequência, a Austrália fechou sua Embaixada em Brasília, também alegando “preocupações com a segurança”.
O governo brasileiro, porém, confirmou que não existem indícios sobre a situação da representação australiana. A decisão pode ter sido tomada por conta da proximidade entre a embaixada dos EUA e da Austrália, em Brasília.
Embaixadora da Austrália no Brasil, Sophie Davies. – (crédito: Edla Lula/CB/DA.Press)
De fato, a embaixadora australiana no Brasil, Sophie Davies, vinculou a orientação adotada pelo país ao alerta americano. “Em 2 de outubro, EUA emitiram um alerta de segurança para evitar instalações diplomáticas dos EUA devido a preocupações com a segurança”, escreveu.
“Também recomendamos evitar a embaixada dos EUA, os consulados e outras instalações diplomáticas dos EUA no Brasil e nas áreas adjacentes”, acrescentou Davies.
Apesar das medidas, Estados Unidos e Austrália mantiveram o Brasil no nível 2 de cautela para seus cidadãos, sem elevar a classificação geral de risco para viagens ao país. No caso australiano, a orientação continua sendo exercer “alto grau de cautela” devido à ameaça de crimes violentos.
Mesmo classificando as medidas como “factoides”, integrantes do governo brasileiro ouvidos pela reportagem afirmam que o episódio também despertou preocupação. A avaliação é de que o gesto dos Estados Unidos, principalmente, pode ser um sinal de possível ingerência no processo eleitoral ao contribuir para criar uma percepção de violência e instabilidade no país a dois dias da votação.
O momento do anúncio americano também chamou a atenção. A medida ocorreu horas depois de a Advocacia-Geral da União (AGU) pedir a investigação do destino de recursos dos Estados Unidos destinados a financiar uma iniciativa no Brasil relacionada a ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Para integrantes do governo, a sequência reforça a necessidade de acompanhar os movimentos de Washington na reta final da eleição. As fontes não apontam uma ligação comprovada entre o pedido da AGU e o alerta de segurança, mas avaliam que a alegação de uma ameaça não detalhada, em um cenário que descrevem como de “normalidade”, aumenta a preocupação com uma possível tentativa de produzir uma narrativa de instabilidade no processo eleitoral brasileiro.
Em comunicado no último dia 30, a Polícia Federal reforçou sua atuação em todo o país para o período eleitoral e informou que trabalhará no domingo em articulação com a Justiça Eleitoral e demais órgãos envolvidos na segurança do pleito. No comunicado sobre a operação, divulgado na quinta-feira (1º), a corporação não apontou cenário excepcional de ameaça ou violência.
Até agora, os governos americano e australiano também não apresentaram publicamente uma ameaça concreta no Brasil que explique a adoção das medidas extraordinárias.