• Redação
  • 09/08/2026

SAIBA QUEM: Privatização da Clara Camarão: políticos prometeram empregos, investimentos e combustível mais barato; RN ganhou demissões em massa e gasolina mais cara

A venda do Polo Potiguar da Petrobras, que incluiu a Refinaria Clara Camarão, em Guamaré, foi apresentada pelos defensores da política de desinvestimentos como parte de um novo modelo para o setor de petróleo no Rio Grande do Norte. O argumento econômico era conhecido: retirar ativos considerados maduros das mãos da Petrobras, ampliar a participação de empresas privadas, aumentar investimentos e produção, gerar empregos e estimular a concorrência. Dentro dessa lógica, uma das consequências esperadas da abertura do mercado seria justamente beneficiar o consumidor. O que aconteceu depois, porém, foi bem diferente.

A transferência do Polo Potiguar para a 3R Petroleum foi contratada durante o governo Jair Bolsonaro e concluída em junho de 2023. Entre os políticos potiguares identificados por reportagens da época como defensores ou entusiastas do processo estavam o atual senador Rogério Marinho, os então deputados federais Beto Rosado e João Maia, o ex-ministro Fábio Faria e o deputado federal General Girão. Na Assembleia Legislativa, José Dias também fez uma defesa explícita da liberdade de mercado diante das críticas aos preços praticados pela nova proprietária. Há ainda registros políticos de apoio ao modelo de desinvestimentos por deputados estaduais como Gustavo Carvalho e Getúlio Rêgo, embora, nesses dois casos, as fontes localizadas não tragam uma declaração individual tão precisa sobre a venda da Clara Camarão quanto as encontradas para Girão, José Dias e Beto Rosado.

Beto Rosado defendia empresas privadas para recuperar produção e gerar milhares de empregos

Beto Rosado foi um dos mais ativos defensores da substituição da Petrobras por empresas privadas na exploração dos chamados campos maduros do Rio Grande do Norte. Em discurso registrado oficialmente pela Câmara dos Deputados, comemorou a chegada da iniciativa privada à exploração de campos potiguares e afirmou que uma nova empresa poderia gerar mais de 5 mil empregos. Beto disse ainda que vinha trabalhando desde 2015 pela abertura desse espaço para empresas privadas e classificou o processo como “novos tempos”.

Em outra reportagem de 2019, Beto aparece defendendo reiteradamente a venda dos campos maduros. Sua justificativa era que empresas privadas teriam custo de exploração menor que o da Petrobras e, por isso, maior capacidade de investir nesses ativos. É importante fazer a distinção: essas declarações tratavam da política de venda dos campos maduros e da entrada de empresas privadas no setor, e não constituem uma promessa textual de Beto de que a privatização específica da Clara Camarão reduziria a gasolina. Mas representam claramente o modelo econômico que posteriormente resultou na saída da Petrobras do Polo Potiguar.

General Girão: “É a força de uma economia não estatal”

General Girão fez uma das defesas mais explícitas mesmo depois que os primeiros efeitos da privatização já eram questionados. Em junho de 2023, diante das críticas à venda e do aumento dos combustíveis, afirmou que atividades de produção e prospecção poderiam ficar nas mãos da iniciativa privada e resumiu sua posição dizendo: “É a força de uma economia não estatal. Isso é o que queremos para o RN.” Na ocasião, Girão atribuiu a alta dos combustíveis ao ICMS, e não à privatização.

Meses depois, quando a 3R já acumulava reajustes, Girão voltou a defender a lógica privada. Ao comentar os preços, argumentou que uma empresa responsável não poderia ser levada à quebra e criticou aquilo que classificou como manipulação política dos preços da Petrobras. Ou seja, mesmo diante da gasolina mais cara, sustentou a tese de que o preço deveria obedecer à lógica empresarial e de mercado.

Sargento Gonçalves também defendeu a venda dos ativos

O deputado federal Sargento Gonçalves também assumiu posição favorável à transação. Em agosto de 2023, questionado pelo AGORA RN sobre os problemas que sucederam à venda, declarou-se favorável ao negócio entre Petrobras e 3R Petroleum e atacou o modelo estatal, afirmando que estatais serviriam como “cabide de emprego e fonte de corrupção”. Sua posição foi registrada quando os reajustes da nova operadora já eram uma controvérsia pública no Estado.

Rogério Marinho, João Maia e Fábio Faria aparecem entre os entusiastas do processo

Reportagens publicadas após a conclusão da privatização identificaram Rogério Marinho, João Maia, Beto Rosado e Fábio Faria entre os políticos potiguares que apoiaram ou elogiaram o processo de saída da Petrobras. Rogério e Fábio integravam o governo Bolsonaro, respectivamente como ministro do Desenvolvimento Regional e ministro das Comunicações, durante a fase decisiva da política de desinvestimentos. O Diário do RN registrou nominalmente Rogério Marinho, João Maia, Beto Rosado e Fábio Faria como defensores do processo.

José Dias defendeu a liberdade de mercado mesmo com gasolina mais cara

Na Assembleia Legislativa, José Dias ofereceu uma defesa bastante clara da lógica que sustentava o novo modelo. Em agosto de 2023, quando a oposição questionava os sucessivos reajustes da 3R, Dias afirmou: “Não estou defendendo a empresa privada [...] mas estou defendendo a liberdade de mercado.” Ele argumentou ainda que uma empresa privada não poderia praticar a mesma política da Petrobras porque, em sua avaliação, iria à falência.

A declaração é particularmente reveladora porque ocorreu quando os preços da Clara Camarão já estavam muito superiores aos da Petrobras. Na mesma discussão, a deputada Isolda Dantas apontou que a gasolina da refinaria potiguar estava sendo vendida por R$ 3,20, 27% acima do valor praticado pela estatal, e que a diferença em relação à gasolina comercializada pela Petrobras em Cabedelo chegava a R$ 0,89 por litro.

A tese do preço: concorrência deveria baratear; ocorreu o contrário

Um dos argumentos econômicos para a abertura do refino era que a concentração da Petrobras seria substituída pela concorrência entre agentes privados. Em tese, mais empresas disputando mercado deveriam aumentar a eficiência e criar pressão por preços menores. O próprio acordo firmado entre Petrobras e Cade para a venda de refinarias buscava incentivar a entrada de novos agentes e fomentar a competitividade. Anos depois, porém, o Cade reviu parte desse processo e registrou que não havia evidências dos ganhos competitivos esperados, inclusive porque as refinarias vendidas não haviam produzido redução dos preços ao consumidor final.

No caso potiguar, existe ainda uma particularidade fundamental. Depois da privatização, a Clara Camarão deixou de integrar o sistema de preços e a estrutura operacional da Petrobras. Isso não significa tecnicamente que a Petrobras pratique um “preço nacionalizado” único em todo o país. O mais correto é dizer que suas refinarias fazem parte de uma empresa integrada nacionalmente, com uma estratégia comercial própria e capacidade de combinar produção, refino, logística e importação. Já a 3R informou oficialmente que seus preços seguiam parâmetros de mercado, como dólar, referência internacional do petróleo e custos logísticos para trazer derivados ao Nordeste.

Essa diferença acabou produzindo justamente o contrário do que a tese da concorrência prometia. Em agosto de 2023, levantamento citado pela Tribuna do Norte mostrava a gasolina da Clara Camarão como a mais cara entre as refinarias analisadas. Um economista do Observatório Social do Petróleo destacou que, depois da privatização, os preços potiguares ficaram menos influenciados pela política da Petrobras e chegou a observar que a gasolina da Clara Camarão estava acima até mesmo do preço de paridade de importação.

O primeiro choque veio em menos de 24 horas

O contraste começou praticamente no momento em que a 3R assumiu o ativo. Menos de 24 horas após a transferência, o diesel S500 passou de R$ 2,85 para R$ 3,36 — aumento de R$ 0,51 por litro — enquanto a gasolina passou de R$ 2,68 para R$ 2,91, alta de R$ 0,23.

Nos meses seguintes, o quadro ficou ainda mais evidente. A Tribuna do Norte registrou que a gasolina da 3R saiu de R$ 2,60 em 29 de junho para R$ 3,20 em 27 de julho de 2023. Na comparação apresentada durante debate na Assembleia, a gasolina comercializada pela Petrobras em Cabedelo custava R$ 2,404, contra cerca de R$ 3,20 em Guamaré.

E a promessa de emprego também encontrou uma realidade bem diferente

O contraste não ficou restrito aos combustíveis. Enquanto Beto Rosado havia comemorado a entrada de empresas privadas nos campos maduros projetando milhares de empregos, entidades sindicais registraram uma forte redução de postos de trabalho no processo de saída da Petrobras. Na conclusão da venda do Polo Potiguar, o Sindipetro-RN apontava cerca de 1.250 desligamentos ou demissões relacionados à transição. A CUT também registrou aproximadamente 300 demissões e outros 950 trabalhadores com aviso prévio naquele período. Esses números são de entidades sindicais e devem ser apresentados como tal, mas mostram a distância entre a expectativa de expansão do emprego e o impacto imediato denunciado pelos trabalhadores.

O balanço político é, portanto, incontornável. Uma parcela importante da direita potiguar vendeu ao Estado a tese de que retirar a Petrobras e ampliar a presença privada significaria mais investimentos, produção, empregos, eficiência e concorrência. Alguns parlamentares continuaram defendendo essa lógica mesmo depois dos reajustes. O consumidor, porém, viu a refinaria recém-privatizada praticar preços superiores aos da Petrobras. 

Ironia histórica

E a ironia histórica ficou ainda maior: aquilo que foi retirado das mãos de uma estatal brasileira sob o argumento da superioridade do mercado privado caminha agora para ficar sob o controle da Ecopetrol, estatal colombiana.

Referências

Diário do RN — Natália Bonavides critica privatização; Girão defende venda
https://diariodorn.com.br/natalia-bonavides-critica-privatizacao-de-refinaria-no-rn-girao-defende-venda/

Diário do RN — Isolda cobra explicações da 3R; Girão defende empresa
https://diariodorn.com.br/isolda-quer-que-3r-explique-aumentos-sucessivos-de-precos-dos-combustiveis/

Tribuna do Norte — Deputados debatem preço da gasolina; José Dias defende liberdade de mercado
https://tribunadonorte.com.br/politica/deputados-debatem-preco-da-gasolina-em-plenario/

Tribuna do Norte — Clara Camarão teve a gasolina mais cara do País
https://tribunadonorte.com.br/economia/refinaria-clara-camarao-no-rn-tem-a-gasolina-mais-cara-do-pais/

Câmara dos Deputados — discurso de Beto Rosado sobre iniciativa privada e geração de empregos
https://escriba.camara.leg.br/escriba-servicosweb/html/55355

De Fato — Beto Rosado defendia venda de campos maduros à iniciativa privada
https://defato.com/estado/84138/empresas-privadas-compram-novos-blocos-na-bacia-potiguar

AGORA RN — Parlamentares discutem consequências da venda dos ativos
https://agorarn.com.br/ultimas/natalia-venda-petrobras-rn-bolsonaristas/

CUT — aumento de gasolina e diesel logo após a privatização
https://www.cut.org.br/noticias/refinaria-clara-camarao-aumenta-preco-da-gasolina-e-diesel-24h-apos-privatizacao-d703

Sindipetro-RN — conclusão da venda, demissões e aumento dos combustíveis
https://www.sindipetrorn.org.br/noticia/petrobras-venda-de-polo-potiguar-e-concluida-com-1-250-demissoes-e-aumento-no-diesel-e-gasolina/