Procuradoria quer impugnar candidatura de aliado de Tarcísio por acusação de elo com PCC
A Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) de São Paulo protocolou nesta quinta-feira (13) uma ação de impugnação de registro da candidatura a deputado federal de Ney Santos (Republicanos), aliado político do governador Tarcísio de Freitas. Ex-prefeito de Embu das Artes, na Grande São Paulo, ele coleciona um longo histórico de passagens pela polícia e é suspeito de ser integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
Ney Santos não é um mero colega de partido de Tarcísio de Freitas. Os dois aparecem juntos em fotos, vídeos e já participaram de eventos públicos lado a lado. Tarcísio costuma dizer que Ney Santos foi seu “embaixador da Região Metropolitana” para ajudá-lo a se eleger no estado quatro anos atrás.
O pedido de impugnação é assinado pelo Procurador Regional Eleitoral Paulo Taubemblatt. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), a manutenção da candidatura representa um risco à “soberania popular e à integridade das instituições democráticas”.
O procurador destaca ainda que o combate à infiltração de organizações criminosas no processo político é uma prioridade institucional, baseando-se em jurisprudência recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O caso está sob análise do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP).
Por sua vez, Ney Santos disse que “não integra, não representa e não mantém qualquer vínculo com facção, grupo ou organização criminosa (leia resposta completa abaixo).”
Ex-prefeito tem condenação em primeira instância
O ex-prefeito foi condenado pela Justiça de São Paulo a três anos e nove meses de prisão em regime semiaberto. A decisão se deu em primeira instância, no mês de novembro do ano passado. A defesa recorreu.
Em fevereiro de 2019, durante uma blitz de rotina da Polícia Militar, Santos estava em um carro oficial da prefeitura, acompanhado de um motorista (um agente penitenciário afastado), quando foi encontrada uma pistola Taurus calibre .380 com mira laser e numeração raspada para impedir a identificação. Além disso, no veículo ainda havia 45 munições, colete a prova de balas, algemas e uma faca.
As acusações não param por aí. Para a polícia e o Ministério Público de São Paulo, Ney Santos mantém relações profundas com o PCC (Primeiro Comando da Capital), usando uma rede de postos de combustíveis, do qual é sócio, para lavar dinheiro para a facção criminosa. Procurado, o político negou qualquer relação com o crime organizado.
Ney Santos diz que “não integra, não representa e não mantém qualquer vínculo com facção, grupo ou organização criminosa”. E que, ao longo dos anos, sobretudo em períodos eleitorais, as “acusações dessa natureza voltam a circular, muitas vezes apresentadas de forma a transformar alegações e narrativas antigas em verdades estabelecidas” (Veja nota completa abaixo).
Ainda de acordo com o MP-SP, a relação entre os dois teria nascido quando o ex-prefeito passou dois anos na prisão, entre 2003 a 2005, suspeito de roubo a uma transportadora de valores, com uma metralhadora de 9mm. Ele acabou absolvido deste crime, em segunda instância, por falta de provas. Santos já havia sido preso antes, em 1999, quando tinha 19 anos, e condenado por receptação e formação de quadrilha.
Em 2016, quando disputou a prefeitura de Embu das Artes pela primeira vez, ele declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 2,1 milhões de patrimônio, sendo que R$ 1,6 milhões em dinheiro vivo. Na declaração da candidatura para deputado federal esse ano, ele agora afirma ter R$ 2,2 milhões em patrimônio– sendo R$ 1,8 milhões em espécie.
Naquela eleição, concorrendo pelo PRB (atualmente Republicanos, partido ligado à Igreja Universal), seu nome chegou a ser impugnado pela Justiça Eleitoral, baseado na Lei da Ficha Limpa. Entretanto, ele conseguiu uma liminar que possibilitou sua candidatura. Ney Santos venceu com 79% dos votos, mas teve a posse barrada em janeiro do ano seguinte pela Justiça, que decretou sua prisão por lavagem de dinheiro e associação ao tráfico de drogas.
O prefeito eleito, então, sumiu da cidade e ficou foragido por 40 dias. Até que o então ministro do STF, Marco Aurélio Mello, concedesse uma liminar suspendendo a ordem de prisão e garantindo a posse de Ney Santos.
Na primeira incursão na política, em 2010, quando concorreu a deputado federal pelo PSC, Ney Santos foi preso faltando 18 dias para a eleição. A acusação foi por lavagem de dinheiro, estelionato, adulteração de combustível, sonegação fiscal e formação de quadrilha.
A polícia apreendeu máquinas de contar dinheiro e uma Ferrari, avaliada em R$1,5 milhão. Além de 34 quilos de maconha encontrados em um dos carros da campanha do candidato. Santos foi solto para responder ao processo em liberdade, mas acabou não sendo eleito.
Fotos e vídeos com Tarcísio
No primeiro debate eleitoral de 2026, na TV Bandeirantes, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tentou associar o adversário Fernando Haddad (PT) ao tráfico de drogas.
“Tivemos a coragem de desmobilizar [a favela do] Moinho. Ninguém queria entrar no Moinho. E nós fomos lá e prendemos o traficante. Por sinal, nós temos uma cena ruim, que é a cena de membros do poder, inclusive o doutor Fernando Haddad, no palco com a traficante que comandava o tráfico na favela do Moinho”, disse durante o embate direto com adversário petista.
A citação do governador de São Paulo foi a uma foto, em setembro do ano passado, em que o presidente Lula e Haddad, então Ministro da Fazenda, aparecem próximos de Alessandra Moja, irmã do traficante Leonardo Moja, que comandava a venda de drogas na favela do Moinho.
Haddad respondeu no debate que não conhecia a mulher e, caso conhecesse a atividade dela, teria “dado voz de prisão”.
Embora tenha levantado a provação sobre ter correligionários ligados ao tráfico de drogas, é Tarcísio quem aparece em fotos com um acusado de ter elo com o PCC.
Em 2022, quando tinha acabado de deixar o Ministério da Infraestrutura do governo Bolsonaro e era pré-candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio foi se encontrar com Ney Santos para costurar uma aliança política. O encontro foi fotografado e repercutiu na campanha do então candidato ao governo do Palácio dos Bandeirantes.
Na eleição deste ano, Tarcísio gravou um vídeo agradecendo a Ney Santos por ajudá-lo a se eleger em 2022. “É uma pessoa que me abraçou desde o primeiro momento quando cheguei aqui em São Paulo. Eu era um desconhecido e não tinha entrada nenhuma na Região Metropolitana. Então, ele foi um embaixador levando meu nome na Região Metropolitana. Ele me tirou do zero. Devo muito a ele”.
Além de Ney Santos, a irmã dele também é candidata. Ely Santos concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo, pelo Republicanos e com o apoio de Tarcísio de Freitas.
O ICL Notícias procurou Tarcísio de Freitas, mas não houve resposta até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
Leia nota completa de Ney Santos:
“Diante da circulação de informações que buscam associar o candidato a Deputado Federal Claudinei Alves dos Santos, Ney Santos, do Republicanos, a organizações criminosas, sua assessoria vem a público prestar os seguintes esclarecimentos.
Ney Santos não integra, não representa e não mantém qualquer vínculo com facção, grupo ou organização criminosa.
Ao longo dos anos, especialmente em períodos eleitorais, acusações dessa natureza voltam a circular, muitas vezes apresentadas de forma a transformar alegações e narrativas antigas em verdades estabelecidas. A repetição de uma acusação, no entanto, não a transforma em fato.
Ney Santos sempre se colocou à disposição das instituições competentes e reafirma seu respeito à Justiça e ao devido processo legal. Sua equipe jurídica acompanha regularmente todas as questões relacionadas à sua vida pública e ao seu registro de candidatura, apresentando os esclarecimentos e documentos necessários às autoridades competentes.
Em relação às eleições de 2026, o candidato reafirma sua confiança na Justiça Eleitoral e na análise técnica e jurídica de seu pedido de registro de candidatura, sustentando que reúne as condições legais para disputar o pleito e que serão prestados todos os esclarecimentos necessários no processo competente.
É importante que qualquer informação envolvendo tema de tamanha gravidade seja tratada com responsabilidade, observância dos fatos e respeito ao contraditório, evitando que acusações sejam reproduzidas como conclusões definitivas sem a devida contextualização.
Ney Santos seguirá tratando o assunto com serenidade, transparência e respeito às instituições, concentrado em apresentar suas propostas à população.
A verdade deve prevalecer sobre qualquer tentativa de transformar acusações em condenações antecipadas”.