• Redação
  • 28/09/2026

Boa-Fé com Má-Fé Política: Quando a Guerra Religiosa e os Escândalos Sufocam o Nosso Futuro

Professor Titular da UFRN e cofundador do LAIS

O Brasil parece ter consolidado uma incômoda vocação para o curto prazo. À medida que o calendário eleitoral avança, a sensação de que estamos navegando sem bússola só aumenta. O debate público, que deveria servir para gestar um projeto de nação estruturado, acabou sequestrado por uma armadilha dupla. De um lado, acompanhamos o choque institucional e as denúncias que abalam os pilares do Judiciário. De outro, vemos uma perigosa instrumentalização da fé que flerta abertamente com a intolerância. Enquanto o país se desgasta nessas trincheiras, a pergunta que fica ecoando no vácuo é bem simples. E os projetos?

O exemplo mais recente dessa paralisia está no terremoto político provocado pelas investigações envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o banqueiro Daniel Vorcaro. Em um ambiente saudável, denúncias dessa magnitude exigiriam apuração rigorosa e reformas transparentes. No Brasil de hoje, viram apenas munição de marketing eleitoral. A oposição usa o caso para carimbar o governo, enquanto o governo tenta diluir o desgaste lembrando que o espectro político adversário também orbitava os mesmos personagens. O que se extrai disso não é um plano para fortalecer a segurança jurídica ou a independência dos poderes, mas sim um espetáculo de conveniências onde o objetivo final é puramente destruir a reputação do rival.

Essa cortina de fumaça ganha contornos ainda mais dramáticos quando migra dos tribunais para os altares. A transformação da disputa política em uma guerra religiosa é, sem exagero, um dos maiores riscos contemporâneos à nossa democracia. O que testemunhamos hoje é a engrenagem perversa de usar a boa-fé das pessoas com profunda má-fé política.

Ao cooptar o púlpito e o sentimento sagrado do eleitor para angariar votos, certas lideranças e candidatos promovem um verdadeiro estelionato espiritual. Explora-se a devoção genuína do cidadão comum, sua busca por esperança, ética e valores, para transformá-la em curral eleitoral e moeda de troca pelo poder. Quando a fé é rebaixada a uma estratégia de captação de sufrágio, o debate de ideias morre. Não se discute mais o saneamento básico, a saúde ou o desemprego. Passa-se a julgar quem merece a salvação ou a danação eterna com base no número digitado na urna.

Transformar o adversário em um inimigo de Deus anula qualquer possibilidade de diálogo. Templos religiosos, que deveriam ser espaços de acolhimento e espiritualidade, são transformados em palanques virtuais e físicos. O resultado é a erosão do tecido social, o acirramento da violência política e o enfraquecimento do Estado Laico, princípio fundamental para que cidadãos de todas as crenças ou de nenhuma possam coexistir sob as mesmas leis.

O preço dessa polarização histriônica é cobrado diretamente no futuro dos brasileiros. Enquanto gastamos energia debatendo escândalos e dogmas nas redes sociais, as urgências estruturais do país continuam sem resposta. Cadê o plano de transição ecológica para enfrentar as crises climáticas que devastam nossas colheitas e cidades? Onde está a reforma educacional profunda para preparar nossos jovens para a era da inteligência artificial? Como pretendemos reindustrializar o país ou garantir a sustentabilidade da previdência diante do envelhecimento acelerado da população?

Nenhum desses problemas será resolvido com um tuíte espirituoso, uma decisão monocrática controversa ou um sermão inflamado. Um país que não debate propostas está condenado a ser o eterno figurante do cenário global, reagindo a crises em vez de antecipá-las.

A democracia não se resume ao ato de votar, pois ela exige a existência de alternativas reais de futuro. Se permitirmos que as eleições continuem sendo apenas um tribunal de exceção pública e uma cruzada moralista, continuaremos elegendo salvadores da pátria que, ao assumirem o poder, descobrem que não sabem o que fazer com ele. O maior risco do Brasil atual não é a vitória da esquerda ou da direita, mas sim a vitória definitiva do vazio de ideias. É hora de exigir que os candidatos parem de olhar para os lados para atacar, olhem para a frente e nos digam, afinal, qual é o projeto de país que pretendem construir.