• Redação
  • 28/09/2026

ZEZO, DE “REI DAS EMPREGADAS” À IDEOLOGIA DO NOVO-RICO: ATACA LULA, MORAES E GILMAR, MAS SILENCIA SOBRE FLÁVIO, CERCADO POR MASTER, INSS, EMENDAS E MILÍCIAS, E NUNES MARQUES

Zezo Potiguar resolveu falar de corrupção. Atacou Lula, Gilmar Mendes, que sequer está relacionado a nada neste momento, e Alexandre de Moraes e lançou uma frase correta: não é porque é nordestino que precisa apoiar corrupção. Evidentemente que não. O problema começa quando a indignação tem endereço ideológico. Ao atacar o Judiciário, Zezo escolheu justamente Gilmar e Moraes, mas poupou Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro e hoje cercado por revelações relacionadas ao caso Master. Mensagens apreendidas pela PF mostram um contrato que poderia chegar a R$ 427 milhões entre o Master e um escritório ligado à chamada “Turma do KN”, referência que, segundo as reportagens, remeteria ao círculo de Nunes Marques. Há ainda registros sobre hospedagens e uma mansão de luxo providenciada por Vorcaro para um ministro identificado como “KN”, além de reportagem sobre um suposto encontro com uma garota de programa pago por Vorcaro. Nunes Marques nega ter pedido benefícios, negociado com Vorcaro ou autorizado terceiros a falar em seu nome. Se Zezo quer discutir suspeitas envolvendo o Judiciário, por que algumas entram no discurso e outras desaparecem?

A mesma seletividade aparece quando o assunto chega a Flávio Bolsonaro. Enquanto Zezo fala em escândalos e manifesta reiteradamente sua simpatia pela família Bolsonaro, Flávio aparece em investigações e reportagens sobre suas relações com Daniel Vorcaro e pessoas de seu círculo. O ex-banqueiro prometeu cerca de R$ 130 milhões para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, dos quais aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido pagos, e Flávio é investigado no inquérito que apura possível lavagem de dinheiro e corrupção nesse financiamento. Mensagens mostram proximidade entre Flávio e Vorcaro. O "01" ainda estrela em sociedade com um dos alvos dos escândalo do INSS, Willer Tomaz; e tem empresa constituída na mesma sala do que o Careca do INSS. Para terminar de gabaritar os escândalos que Zezo tanta reclama, o filme Dark Horse que Flávio confessa ser operador também está no centro da farra dos desvios das emendas parlamentares. O senador citado ainda foi pego em envio de emenda para um miliciano, um dos responsáveis pelo assassinato da vereadora Marielle Franco. A questão, no entanto, não é condenar o candidato antecipadamente. É muito mais simples: por que um discurso público tão preocupado com corrupção se torna tão menos enfático justamente quando as suspeitas alcançam o campo político que Zezo apoia?

E aqui aparece uma questão de classe que vai além de Zezo. O cantor construiu sua carreira como o “rei das empregadas”, sustentado por um público profundamente popular. Hoje, rico e ostentando nas redes os símbolos materiais dessa ascensão, adota um discurso político que pode ser interpretado sociologicamente como identificação com um novo grupo de referência. É o mecanismo clássico da mobilidade acompanhada de distanciamento simbólico: não basta ascender economicamente; busca-se demonstrar pertencimento ao andar de cima e afastamento do mundo social de origem. No caso de Zezo, o contraste é particularmente curioso: sua fortuna foi construída cantando justamente para setores populares, inclusive empregadas domésticas, cuja condição trabalhista foi profundamente alterada pela ampliação de direitos das trabalhadoras domésticas justamente nos governos da esquerda.

Zezo está certo quando diz que ser nordestino não significa apoiar corrupção. A consequência lógica dessa frase, porém, é que a régua deveria ser a mesma para todos: Lula, Moraes e Gilmar, mas também Nunes Marques e Flávio Bolsonaro quando surgem suspeitas que merecem esclarecimento. Caso contrário, o tema deixa de ser simplesmente corrupção e passa a ser a seleção política de quais escândalos merecem indignação. E há algo que nenhuma ascensão econômica apaga: a própria trajetória. Zezo pode ostentar ouro, dinheiro e os símbolos que quiser do novo lugar social que conquistou. Pode adotar as ideias políticas que desejar. Mas não consegue reescrever de onde veio: sua história continua ligada ao Nordeste popular e às empregadas e trabalhadores que fizeram dele um artista rico. O dinheiro pode mudar a classe econômica e até o grupo com o qual alguém deseja se identificar. Não apaga a origem. Zezo continuará sendo, como nós, um cabeça-chata.