• Redação
  • 21/08/2026

O Parafuso Que Esfola o Cidadão

O letreiro luminoso na fachada da loja de departamentos pisca para uma calçada vazia. Houve um tempo em que o carnê da Casas Bahia era o passaporte do trabalhador para o amanhã: a geladeira nova, a TV parcelada, o celular que cabia no bolso. Hoje, o pedido de recuperação judicial da gigante do varejo, sufocada por um passivo de R$ 17,3 bilhões, não é apenas uma notícia fria de jornal. É o raio X de um país que engasgou. Quando o comércio popular quebra, é porque o bolso do mais pobre secou. Esse cenário de famílias endividadas e portas fechando não acontece por acaso; ele nasce direto de uma engrenagem pesada, onde o Banco Central, o Governo e o Congresso Nacional giram, juntos, o parafuso que esmaga o cidadão.

Essa pressão sufocante começa na própria moeda. Para tentar conter a inflação, o Banco Central manteve os juros nas alturas por tempo demais e perdeu o momento exato de aliviar o mercado. Se a taxa Selic tivesse caído de forma mais rápida e decisiva lá atrás — chegando a 13,75% em agosto daquele período crítico para fechar o ano em 12,75% —, o comércio teria respirado. Esse atraso funcionou como um freio de mão puxado com o carro no meio da subida. O crédito corporativo ficou caro demais, estrangulando a loja que precisa de empréstimo para girar os estoques. Na outra ponta, o consumidor viu os juros do cartão estourarem, transformando o sonho da compra parcelada na armadilha do superendividamento.

Só que o Banco Central não tomou essa decisão no vácuo; ele apenas reagiu ao comportamento do Governo Federal. Afinal, os juros só caem de verdade quando o país gasta com responsabilidade. Ao fugir de uma austeridade fiscal profunda e urgente, o Governo mina a confiança de quem produz e investe. Sem cortar na própria carne e sem arrumar a casa, o Executivo alimenta a incerteza. Quando o governo gasta mais do que arrecada, o risco da inflação voltar continua vivo, forçando os juros a ficarem trancados no topo. É um ciclo destrutivo que pune justamente quem está na base da pirâmide, tirando o poder de compra de quem já quase não tem nada.

Para piorar o que já está difícil, o Congresso Nacional entra em cena fechando o cerco contra o contribuinte. Em vez de ajudar a equilibrar o país, o Poder Legislativo se transformou em um ralo de dinheiro público. As emendas parlamentares devoram bilhões de reais do Orçamento para atender a interesses políticos locais. Com isso, os impostos pagos com tanto sacrifício pelo cidadão acabam mal direcionados, deixando o Estado sem capacidade para investir em obras estruturantes que geram empregos reais, como estradas, portos, aeroportos, além de hospitais e escolas.

Essa inversão cruel de prioridades fica ainda mais escancarada quando deputados e senadores aprovam o uso de bilhões em dinheiro público para o financiamento de campanhas eleitorais. Como um povo já tão sacrificado pode ser obrigado a sustentar partidos políticos com o dinheiro dos seus próprios impostos? Em uma democracia saudável, a política deveria se pagar. Um partido só deveria existir se tivesse filiados — cidadãos e empresas, representados por seus CPFs e CNPJs — dispostos a contribuir voluntariamente por acreditarem naquelas ideias.

A derrocada da Casas Bahia e o sufoco das famílias são o efeito prático dessa trindade: um BC que demorou a agir, um Governo que foge da austeridade e um Congresso que prioriza o próprio bolso. Conforme dados oficiais do processo reportados pelo G1, a empresa enfrentava o peso de juros elevados e a escassez de crédito que engessam o varejo de eletrodomésticos. O ano de 2027 bate à porta com previsões sombrias, mas esse cenário político e estratégico ainda oferece tempo para que as lideranças assumam a responsabilidade com a saúde financeira do país. Até que Brasília faça a sua parte e segure os gastos, o brasileiro continuará limpando as gavetas atrás de moedas, pagando uma conta pesada que começou bem longe da sua casa.