• Redação
  • 23/09/2026

‘Grave’: Brasil vê guerra aos cartéis como início de militarização da região por Trump

Jamil Chade - ICL - O governo brasileiro considerou como “muito grave” a decisão de Donald Trump de impôr para a região latino-americana a classificação de terrorismo para o PCC e Comando Vermelho. O temor em Brasília é de que a manobra seja um prenúncio da transformação da aliança continental – originalmente criada para combater o crime organizado – para servir de base para defender os interesses de segurança nacional dos EUA.

Isso incluiria garantir o monopólio sobre terras raras, barrar investimentos da China e garantir acesso à infraestrutura.

Na terça-feira, conforme o ICL Notícias antecipou, o governo Trump pressionou seus aliados no Escudo das Américas para classificar 24 entidades do crime organizado como grupos terroristas. Entre eles estão o PCC e o Comando Vermelho.

O problema, para o Brasil, não são os vizinhos, que dificilmente vão adotar sanções ou atacar as fronteiras do país.

A decisão é vista como uma sinalização da operação dos EUA de promover uma crescente militarização da região. Termos como “perigoso” e “preocupante” foram usados para descrever o ato em Brasília.

O documento que fala dos cartéis, porém, sinaliza que a operação não pararia no combate ao crime organizado. O texto cita a necessidade de se defender o abastecimento de minerais críticos, menciona o comércio e questões de “democracia”.

O temor é de que a tendência seja a construção de uma narrativa para frear o envolvimento da China na região e apresentar os investimentos de Pequim como ameaças à segurança nacional dos EUA.

Um dos grandes objetivos da política externa americana é negar o acesso da América Latina para a China, numa operação que tem como estratégia a construção de uma zona vital de abastecimento de recursos naturais e energia para a economia americana.

O argumento dos cartéis, portanto, seria apenas uma manobra para “camuflar” inicialmente os verdadeiros interesses dos EUA, usando um tema que é caro em toda a região.

Para o governo brasileiro, não existem ameaças à segurança nacional dos EUA a partir da América Latina. Selecionar o crime organizado, portanto, teria sido o caminho para militarizar a região.

Fontes do governo consideram que o ato é uma sinalização do realinhamento geopolítico da América Latina e que precisa ser lido no contexto das ameaças feitas por Trump contra a região. No discurso na ONU, o americano alertou que poderia usar a força militar na região, caso fosse necessário.

Para o Brasil, isso tudo aponta para grau preocupante de ingerência. A tese é de que os EUA estão implementando sua doutrina de segurança nacional usando a desculpa da luta contra o crime organizado.

O governo, ainda assim, acredita que conseguiu se antecipar aos movimentos, incluindo no discurso de Lula referências ao fato de que o Brasil não aceitaria terceirizar a responsabilidade de defender suas fronteiras e frases como a de que o país “não precisa de porta-aviões” em suas águas.

Redefinindo a OEA

A redefinição da relação entre a América Latina e os EUA ainda passa por uma transformação do papel da OEA. Trump, na declaração do Escudo das Américas, indicou que usará um tratado ainda dos anos 40 e que tinha certo sentido durante a Guerra Fria.

O Brasil promete acompanhar de perto essa instrumentalização e avaliar até que ponto os mecanismos regionais ameaçam ser sequestrados para justificar uma nova ação americana no continente.