• Redação
  • 15/08/2026

Frente de Evangélicos alerta Congresso dos EUA contra interferência nas eleições

Por Marcelo Santos*

As eleições de outubro no Brasil são uma decisão que cabe aos brasileiros, sem pressões externas que possam colocar sob suspeita o sistema eleitoral. Esse foi o posicionamento apresentado pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em carta entregue ao Congresso dos Estados Unidos, em Washington.

Na segunda-feira, 3 de agosto, representantes da organização entregaram o documento aos gabinetes dos senadores Raphael Warnock, da Geórgia, e Adam Schiff, da Califórnia, e da deputada Hillary Scholten, de Michigan.

Os parlamentares têm trajetórias relacionadas à fé. Warnock é pastor titular da histórica Ebenezer Baptist Church, em Atlanta, igreja de Martin Luther King Jr. Schiff é judeu e presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes. Scholten já atuou como diaconisa na LaGrave Avenue Christian Reformed Church, em Grand Rapids.

Nilza Valeria, jornalista e coordenadora nacional da Frente, relaciona a iniciativa à trajetória do movimento, criado em 2016. “A atuação da Frente, desde 2016, é a defesa total da democracia e dos direitos legais. Não aceitamos interferência no processo eleitoral, pois somos um país soberano. A soberania faz parte da democracia, então, quando um líder de um país ousa nos ameaçar, reagimos com articulação”, afirma.

Segundo Nilza, a articulação também busca ampliar o diálogo com setores da política norte-americana. “O resultado de nossa ação foram parlamentares estadunidenses, que não tinham conhecimento real sobre o Brasil, votando a favor do Brasil na questão das tarifas, por exemplo. A nossa fé nos move na construção de um Brasil forte”, acrescenta.

Carta aponta três preocupações

A carta apresenta três preocupações sobre as eleições de 2026. A primeira é a política tarifária dos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras. Segundo o documento, as relações comerciais entre os países devem ser orientadas por critérios econômicos e técnicos, e não por acontecimentos políticos internos do Brasil.

A segunda diz respeito a notícias sobre uma planejada viagem de funcionários norte-americanos ao país antes das eleições para tratar, entre outros temas, da integridade do sistema eleitoral. A Frente solicita ao Congresso que desencoraje iniciativas que possam ser percebidas como tentativas de influenciar ou deslegitimar o processo. “As eleições no Brasil são uma responsabilidade exclusiva dos brasileiros, conduzidas e julgadas por suas próprias instituições”, afirma a carta.

O terceiro ponto envolve a atuação política de lideranças evangélicas. Segundo a carta, alguns líderes religiosos têm utilizado púlpitos e plataformas para apoiar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, mas não representam a diversidade política dos evangélicos brasileiros. O documento afirma que direcionar fiéis a uma candidatura por meio da autoridade religiosa “instrumentaliza a fé para fins partidários”.

Articulação começou há cerca de dois anos

A passagem por Washington integra uma articulação iniciada há cerca de dois anos, segundo Lucas de Souza Martins, consultor internacional da Frente, historiador, especialista em História Americana e Estudos Globais e professor e pesquisador da Temple University.

“Esta é uma articulação programática que já tem cerca de dois anos, uma aproximação que nasceu da nossa fé evangélica e da luta por democracia, em diálogo com parlamentares americanos que também têm uma trajetória de fé ativa e valores em comum conosco. Essa carta é mais um capítulo de uma série de conexões contínuas que mantemos com alguns desses gabinetes”, afirma Martins.

A carta informa que, desde 2022, a Frente trabalha para conectar lideranças brasileiras a parceiros nos Estados Unidos. Entre as iniciativas citadas está a colaboração com a equipe de Missões Globais da Ebenezer Baptist Church durante uma viagem missionária ao Rio de Janeiro. O documento também apresenta a Frente como uma corrente do evangelicalismo brasileiro inspirada nos ensinamentos de Martin Luther King Jr. e comprometida com dignidade humana e democracia.

Evangélicos e democracia

A diversidade política dos evangélicos brasileiros também é destacada na carta. O documento reconhece que o apoio evangélico tem sido associado a agendas antidemocráticas, mas apresenta a Frente como uma corrente distinta, vinculada à justiça social, aos direitos humanos e à defesa das instituições democráticas.

A carta propõe ainda a criação de um canal contínuo de diálogo com os parlamentares para compartilhar perspectivas da sociedade civil brasileira durante o processo eleitoral e desenvolver iniciativas voltadas à integridade das instituições democráticas.

Ao mesmo tempo que afirma valorizar a “histórica amizade” entre Brasil e Estados Unidos, o documento pede aos parlamentares que encorajem o Executivo norte-americano a evitar ações que possam ser interpretadas como interferência nas eleições brasileiras.

*Especial para o ICL Notícias