• Redação
  • 14/08/2026

FAKE NEWS - Em sabatina, Alvaro Dias mente ao dizer que “Muitas das coisas que nós defendemos estão sendo agora reconhecidas, como a eficácia da ivermectina”

DO CORREIO DE HOJE / AGORA RN

A Covid-19 deixou no Brasil um rastro de pelo menos 716.626 mortes, hospitais superlotados, famílias separadas e pacientes que morreram sem a possibilidade de se despedir dos parentes. Nos momentos mais dramáticos, profissionais de saúde trabalharam até a exaustão, doentes enfrentaram filas por leitos de UTI e Manaus viveu um colapso hospitalar marcado pela falta de oxigênio. No Rio Grande do Norte, mais de 9,3 mil vidas foram perdidas.

Seis anos depois do início da emergência sanitária, o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Álvaro Dias (PL) trouxe essas feridas novamente ao debate ao voltar a defender a eficácia da ivermectina contra a doença. A declaração recupera uma das principais bandeiras do chamado “tratamento precoce”, propagado durante a pandemia pelo então presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores, apesar da ausência de comprovação científica.

Vítimas da Covid-19 são sepultadas no Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo — Foto: Reprodução

Durante sabatina promovida pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern) e pelo Sindicato das Empresas de Rádio, Televisão, Jornais, Portais e Revistas (Midiacom-RN), Álvaro afirmou que posições defendidas por ele estariam sendo confirmadas atualmente.

“Muitas das coisas que nós defendemos estão sendo agora reconhecidas, como a eficácia da ivermectina”, declarou. O ex-prefeito acrescentou que havia sido condenado e criticado por defender o medicamento e sustentou que sua eficácia no tratamento ou na prevenção do coronavírus estaria sendo reconhecida.


Álvaro Dias durante a sabatina do Fórum Caminhos do RN, quando voltou a defender a ivermectina — Foto: Reprodução/98 FM

A declaração, porém, não encontra respaldo nas evidências científicas disponíveis. A Organização Mundial da Saúde orientou que a ivermectina não fosse utilizada contra a Covid-19 fora de ensaios clínicos. Uma revisão da Cochrane, referência internacional em análise de evidências médicas, concluiu não haver comprovação que sustente o medicamento para tratar a doença ou prevenir a infecção.

O ensaio clínico TOGETHER, realizado no Brasil e publicado no New England Journal of Medicine, também constatou que a ivermectina não reduziu hospitalizações nem atendimentos prolongados de emergência. Outro estudo randomizado, com 1.591 participantes e publicado pela revista científica JAMA, não identificou melhora significativa no tempo de recuperação.

A afirmação de Álvaro ocorreu depois que voltou a circular nas redes sociais uma alegação segundo a qual uma revisão de 106 estudos, envolvendo mais de 200 mil pacientes, teria comprovado eficácia de 70% da ivermectina. A porcentagem foi retirada de uma plataforma anônima que reúne trabalhos com metodologias e níveis de qualidade diferentes, incluindo pesquisas limitadas, estudos observacionais e artigos questionados.

O conteúdo não representa mudança na posição das principais instituições científicas e sanitárias. Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Anvisa e OMS não reconhecem a ivermectina como medicamento para prevenção ou tratamento da Covid-19. A própria fabricante Merck declarou não ter encontrado base científica para um possível efeito terapêutico.

Negacionismo marcou governo Bolsonaro

A defesa do vermífugo aproxima Álvaro de uma das bandeiras políticas adotadas pelo bolsonarismo durante a maior crise sanitária da história recente do País. A condução da pandemia pelo governo Jair Bolsonaro ficou marcada pela minimização da gravidade do vírus, pelo confronto com medidas de distanciamento e pelo incentivo a medicamentos sem eficácia comprovada.

Bolsonaro chamou a doença de “gripezinha”, participou de aglomerações, apareceu repetidamente sem máscara e questionou medidas destinadas a reduzir a circulação do vírus. Diante do crescimento das mortes, respondeu com frases como “não sou coveiro” e “E daí?”. Em março de 2021, durante o colapso hospitalar, declarou que era preciso deixar de “frescura” e “mimimi”. Posteriormente, reconheceu ter perdido a linha ao fazer parte dessas declarações.

O então presidente também promoveu cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina como componentes do “tratamento precoce”. As divergências em torno dessa política estiveram entre os elementos de desgaste com os ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que deixaram o governo em 2020.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro questionou publicamente a segurança das vacinas e afirmou que não receberia o imunizante. Ao comentar as condições contratuais da Pfizer, declarou: “Se você virar um jacaré, é problema de você”, conforme registro mantido no acervo oficial da Presidência.

A demora na aquisição das vacinas tornou-se um dos principais pontos da CPI da Pandemia. Em depoimento ao Senado, o presidente da Pfizer na América Latina informou que ofertas apresentadas ao governo brasileiro em agosto de 2020 ficaram sem resposta. O primeiro contrato com a empresa só seria firmado em março de 2021.

O relatório final da CPI atribuiu nove possíveis crimes a Bolsonaro e recomendou seu indiciamento, inclusive por infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo e crimes contra a humanidade. A conclusão parlamentar não equivale a uma condenação judicial, mas consolidou documentalmente as acusações de ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia.

Álvaro recomendou ivermectina a cada 15 dias

Na condição de prefeito de Natal e médico, Álvaro tornou-se um dos principais defensores locais da ivermectina. A Prefeitura distribuiu o medicamento nas unidades de saúde, autorizou sua inclusão entre as opções oferecidas aos pacientes e defendeu o uso profilático, destinado supostamente à prevenção da doença.

A iniciativa foi contestada por infectologistas e investigada pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte. Em janeiro de 2021, justamente quando a vacinação começava no País, Álvaro afirmou que poderia esperar para ser imunizado porque tomava ivermectina.

“Não tenho essa pressa para tomar a vacina porque estou tomando a ivermectina. Estou protegido”, declarou na época. O então prefeito também recomendou que pessoas ainda não incluídas nos primeiros grupos da vacinação tomassem o medicamento a cada 15 dias. Não havia evidência de que esse procedimento prevenisse a infecção.

Álvaro chegou inicialmente a anunciar que seria o primeiro a receber a vacina em Natal, alegando ser médico e integrante de grupo de risco. Após críticas de que poderia furar a fila dos profissionais que atuavam diretamente no atendimento, desistiu e voltou a dizer que estava protegido pela ivermectina.

Estrutura municipal de atendimento

Apesar das posições de Álvaro sobre o medicamento, sua administração organizou uma ampla estrutura municipal de vacinação. A campanha começou em 20 de janeiro de 2021 com pontos de drive-thru no Ginásio Nélio Dias, Via Direta, Palácio dos Esportes e Arena das Dunas, sendo posteriormente ampliada para unidades básicas de saúde.

A Prefeitura também abriu o Hospital de Campanha de Natal no antigo Hotel Parque da Costeira, criou centros de enfrentamento, aumentou a oferta de leitos no Hospital Municipal e instalou um Hospital Dia. A unidade de campanha recebeu pacientes de diferentes municípios e pessoas transferidas de Manaus durante o colapso hospitalar no Amazonas.

Na sabatina, Álvaro afirmou que o hospital foi preparado em 40 dias e declarou que a estrutura salvou milhares de vidas. Também recordou que perdeu a própria mãe durante a pandemia e apresentou sua atuação naquele período como demonstração de coragem e capacidade administrativa.

Essas ações assistenciais, entretanto, não alteram o estado das evidências sobre a ivermectina. Ao voltar a defender o medicamento como eficaz contra a Covid-19, Álvaro não apenas recupera uma antiga posição pessoal: recoloca no debate eleitoral uma narrativa associada aos anos em que o negacionismo, a desinformação e a politização dos tratamentos dividiram o País enquanto milhares de brasileiros morriam diariamente.