ESTADÃO: boatos sobre falências usam notícias do exterior para desinformar no Brasil
Estadão - Somente no mês de agosto, postagens nas redes sociais lamentaram o fechamento de fábricas de quatro grandes marcas no Brasil: Nestlé, Brastemp, Consul e Volkswagen. Os posts culpavam a política econômica nacional e alegavam que as empresas teriam quebrado. Mas nenhuma delas faliu, e as fábricas fechadas nem sequer ficavam em solo brasileiro. Por aqui, ao contrário, as operações seguem ativas e com previsão de novos investimentos.
Volkswagen anunciou fechamento de fábricas na Alemanha, não no Brasil.
Foto: Clayton de Souza/Estadão / Estadão
Boatos parecidos têm circulado com frequência. O que explica a proliferação desse tipo de narrativa?
Para a consultoria RGF Bizdoc, especializada na reestruturação de empresas, esses conteúdos ganham espaço em meio a um ambiente econômico desafiador. E têm adesão porque a maior parte das pessoas tem desconhecimento técnico sobre economia e não procura detalhes sobre o que está lendo. Além disso, aponta a consultoria, esses posts quase nunca são uma invenção completa: eles partem de um fato real e retiram de contexto onde e quando aquilo aconteceu.
O professor e pesquisador Everton Santana, do Núcleo de Estudos de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia (Njor/UFBA), acrescenta que essa "âncora factual" se conecta com crenças prévias do público. "Se a pessoa já acredita que a economia está em colapso ou que o governo está escondendo alguma coisa, ela vai acreditar naquela desinformação porque isso confirma uma percepção já existente", disse.
Para o professor Everton Santana, a repetição desse tipo de conteúdo leva a população a crer que há uma tendência de fechamento de fábricas no Brasil. Ele chama a atenção para o impacto disso em ano eleitoral: "Uma publicação isolada dificilmente vai definir o voto. O problema está nessa sucessiva disseminação de histórias, que pode alimentar uma imagem de crise econômica e acabar influenciando a avaliação do desempenho de candidatos."
Fatores psicológicos e desconhecimento ajudam impulsionamento de boatos
O Estadão Verifica consultou a RGF Bizdoc sobre o que faz a circulação desses conteúdos se desenvolver, e a empresa destacou que isso envolve fatores psicológicos. O boato se utiliza da familiaridade dos consumidores com as marcas citadas e "pega carona" na ansiedade da população, que teme falências e demissões em massa. Ou seja, aquele boato se espalha porque a pessoa que tem contato com ele não está checando um fato, e sim reconhecendo nele um sentimento que ela já tem.
Outro fator que impulsiona o compartilhamento desses tipos de conteúdo é o desconhecimento sobre termos técnicos de economia. Um exemplo disso é a confusão entre os pedidos recuperação judicial e as declarações de falência. Nas redes, postagens afirmam que empresas como as Casas Bahia, as Lojas Marabraz e a Braskem faliram, mas elas entraram com pedido de recuperação.
Uma empresa fale quando fecha as portas e encerra juridicamente suas atividades. Já a recuperação judicial é o pedido que uma empresa em dificuldades faz para a Justiça a autorizar a renegociar dívidas e, assim, tentar evitar a falência. Foi o que fez no dia 16 de agosto a varejista Casas Bahia, que acumula R$ 17,3 bilhões em dívidas.
A empresa atribuiu a situação à alta dos juros, à inflação, à perda de poder de compra das famílias e ao aumento da inadimplência, além dos investimentos realizados em tecnologia, logística e comércio eletrônico.
Desde 2023, a consultoria RGF mantém um painel que monitora o número de empresas em recuperação judicial no Brasil. De lá para cá, os números vêm aumentando. De acordo com os dados, 6.341 empresas estavam em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026. Na comparação com o mesmo período de 2025, houve aumento de 17,5%.
Mas nem todo pedido de recuperação judicial ou falência decorre unicamente da conjuntura econômica do País. A RGF ressalta que avaliar a saúde de um negócio exige olhar para suas particularidades corporativas.
Em nota ao Verifica, a consultoria explicou que, no caso das Casas Bahia, existe uma combinação de endividamento, questões societárias acumuladas ao longo de muitos anos, transformação profunda do varejo e mudança tecnológica, além do cenário macroeconômico. Olhar para esse cenário e dizer que as empresas estão fechando por causa da economia brasileira é uma narrativa comumente compartilhada, mas a consultoria alerta que essa não é uma análise econômica.
Para Santana, do NJor, é preciso haver mais ações de educação midiática para que as pessoas não se enganem diante de termos técnicos. "Se o jornalismo não traduz esses termos, o público vai entender tudo como sinônimo e, nesse consumo rápido de informações, a gente é levado a acreditar que se trata tudo de uma coisa só", disse.