Engorda de Ponta Negra é destaque negativo em matéria do Estado de São Paulo
Do Estadão - Como resposta à erosão costeira, obras de engorda de faixa de areia são cada vez mais comuns nas praias do Brasil por causa do agravamento das mudanças climáticas. Especialistas dizem que a medida pode ser necessária, mas é paliativa e exige cuidados técnicos. Eles defendem estratégias mais sistêmicas, como preservar ecossistemas marinhos, remover imóveis de áreas costeiras e evitar o transporte de sedimentos dos rios para o mar, já que as intervenções podem ameaçar a biodiversidade e atividades econômicas, como pesca e turismo, e até elevar o risco de afogamentos.
Balneário Piçarras, em Santa Catarina, passou por quatro engordas em menos de 30 anos • Flávio Tin/Estadão
A lista de cidades que adotaram esse tipo de engenharia inclui Balneário Camboriú (SC) e Natal (RN), entre outras. O custo das engordas já realizadas no País tem variado entre cerca de R$ 20 milhões e R$ 60 milhões, em valores corrigidos pela inflação. Veja, abaixo, alguns exemplos de reposição artificial de areia no litoral brasileiro.
Piçarras (SC)
● Piçarras, no litoral de Santa Catarina, já fez quatro alargamentos da faixa de areia desde 1998. O último, de R$ 53 milhões, foi concluído em abril e, menos de dois meses depois, o mar formou um barranco de quase dois metros no local.
Após obra de engorda de R$ 53 milhões, mar cria barranco de areia em praia de SC
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram a formação de um grande paredão de areia em Balneário Piçarras.
A prefeitura de Piçarras diz que a erosão de junho é uma escarpa erosiva, fenômeno comum no inverno e ligado a ressacas, frentes frias e marés fortes. Diz ainda que a área seguirá monitorada, com atividades programadas até o início de 2027. O prefeito de Piçarras, Tiago Baltt (MDB), chegou a ser preso em maio por suspeita de corrupção e fraude em obras, mas a engorda não está entre os projetos investigados pelo Ministério Público catarinense. A defesa de Baltt nega irregularidades.
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Ponta Negra (Natal)
● A engorda foi feita em 2025 e, no ano seguinte, foi necessário corrigir a drenagem para evitar alagamentos. Turistas, surfistas e comerciantes reclamaram que a intervenção mudou a dinâmica das ondas e piorou a praia. Após ação movida pelo Ministério Público Federal (MPF), a Justiça obrigou a prefeitura a informar mensalmente dados do volume de areia.
A prefeitura afirma que 94% da areia usada na engorda segue preservada e o deslocamento já era previsto nos estudos ambientais. Diz ainda tomar medidas, como o complemento da drenagem e a garantia do acesso a banhistas.
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Florianópolis (SC)
● Foram feitas obras de engorda nas praias de Canasvieiras, Ingleses e Jurerê. Nota técnica de 2025 do projeto Ecoando Sustentabilidade, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta que as praias alargadas, além de Balneário Camboriú, têm piora na balneabilidade (indicação da qualidade das águas) e mais risco de afogamentos. Segundo o estudo, nenhuma das obras atingiu, de fato, os objetivos de proteção da costa, recreação e restauração ambiental.
A prefeitura de Florianópolis afirma que as intervenções integram estratégia estruturada de gestão costeira, fundamentada em estudos técnicos, monitoramento ambiental e na compreensão da dinâmica sedimentar da região. Diz ainda que as recuperações da orla não são paliativas, mas “instrumentos reconhecidos de mitigação e adaptação”.
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Balneário Camboriú (SC)
● O alargamento da faixa de areia da Praia Central de Balneário Camboriú ocorreu em quatro fases ao longo de 2021. Entre março e julho, houve a mobilização da equipe e a montagem da tubulação. De julho a agosto, parte da tubulação foi transportada ao mar para se conectar ao navio-draga Galileo Galilei, responsável por trazer a areia da jazida a 15 km da costa. Entre setembro e novembro, ocorreu o preenchimento e espalhamento da areia na praia. Já de novembro a dezembro, a obra foi finalizada com a desmobilização do canteiro e dos equipamentos.
Com o alargamento, a praia passou dos antigos 25 metros de extensão para uma faixa de areia de até 70 metros atualmente. Logo após a obra, a praia chegou a ter 110 metros em alguns locais, mas houve redução com o movimento das marés e a faixa de areia está em processo de estabilização. No ano passado, a prefeitura iniciou a construção de um muro subterrâneo de 6 mil metros de extensão para conter a erosão marinha e segurar a areia da praia.
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Itapema (SC)
● A engorda será financiada pela outorga onerosa (taxa paga pelo construtor para aumentar em até 30% o tamanho de um prédio). A lei local prevê um cone de sombreamento, que limita a altura dos edifícios na orla para que a sombra não ultrapasse a faixa de areia. Com a praia maior, o tamanho dos prédios também pode aumentar.
De agosto de 2025 a janeiro deste ano, Itapema e mais seis cidades catarinenses decretaram situação de emergência, depois que suas praias foram comidas pela erosão causada pelas fortes ressacas. Procurada, a prefeitura de Itapema não comentou.
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