Cuidado com os números: pesquisas para deputado não podem ser lidas como as de governador e senador
Tenho visto nesta campanha uma confiança exagerada nas pesquisas para deputado federal e estadual. O problema é que esses números exigem uma leitura muito mais cautelosa do que as disputas majoritárias. Em uma eleição proporcional pulverizada entre dezenas ou centenas de candidatos, cada nome costuma registrar percentuais pequenos e, consequentemente, poucos entrevistados dentro da amostra. Além disso, a escolha para deputado tradicionalmente amadurece mais perto da eleição, o que torna as sondagens realizadas nesta fase muito mais uma fotografia provisória do grau de lembrança dos candidatos do que uma antecipação segura do resultado das urnas. Pesquisa eleitoral, afinal, mede o momento em que foi realizada, não constitui previsão do resultado final.
Há ainda uma questão amostral importante. As pesquisas estaduais são planejadas para representar estatisticamente o conjunto do eleitorado, e não para entrevistar eleitores em todos os municípios. Em levantamentos desse tipo, municípios e posteriormente áreas de coleta podem ser selecionados dentro do desenho amostral; o próprio Datafolha, por exemplo, explica que em pesquisas nacionais e estaduais primeiro sorteia municípios e depois bairros e pontos de entrevista. Isso funciona adequadamente para estimar disputas como Governo, Senado e Presidência, nas quais os mesmos candidatos são apresentados a todo o eleitorado. Na proporcional, porém, a distribuição territorial do voto de cada candidato acrescenta uma dificuldade: nomes com bases muito concentradas em determinadas regiões podem aparecer mais ou menos conforme a composição territorial da amostra. Candidatos de segmentos e não com representação regional, costumam ser subestimados. Por isso, não é correto simplesmente pegar a margem de erro geral divulgada pela pesquisa e tratar pequenas diferenças entre candidatos a deputado como um ranking preciso.
Isso não significa que a pergunta para deputado seja inútil. Ela pode fornecer indícios relevantes, especialmente quando determinado candidato aparece repetidamente entre os mais citados em diferentes levantamentos, institutos e amostras. A recorrência passa a ser uma informação mais interessante do que uma posição isolada — primeiro, segundo ou décimo lugar — em uma única pesquisa. O erro é transformar uma sondagem proporcional numa espécie de eleição antecipada. Para governador e senador, uma amostra estadual bem desenhada permite inferências muito mais diretamente relacionadas ao universo pesquisado; para deputado, com voto fragmentado, territorializado e ainda sujeito a escolhas tardias, o mais prudente é observar tendências persistentes, e não tomar cada percentual como retrato definitivo da corrida.