• Redação
  • 21/08/2026

Atraso em bolsas de estagiários expõe problemas na educação infantil de Natal

DO SAIBA MAIS - O atraso no pagamento das bolsas de estagiários da rede municipal de ensino de Natal provocou a suspensão de atividades em unidades de educação infantil nesta quinta-feira (20) e reacendeu críticas sobre a estrutura de funcionamento das escolas e centros municipais de educação infantil (CMEIs). Embora os pagamentos tenham sido regularizados ao longo da tarde e as aulas devam ser retomadas normalmente nesta sexta-feira (21), pais e representantes da comunidade escolar afirmam que o episódio revela problemas mais amplos enfrentados pela rede.

Entre as vozes que denunciam a situação está a nutricionista Fabiana Lacerda, mãe de um aluno matriculado em um CMEI da capital, conselheira escolar e integrante do Conselho de Alimentação Escolar (CAE). Segundo ela, a paralisação dos estagiários evidenciou a dependência das unidades em relação a profissionais que deveriam desempenhar papel complementar no processo pedagógico.

“Quando os estagiários pararam por falta de pagamento, algumas turmas precisaram suspender as atividades porque as professoras não tinham como permanecer sozinhas com todas as crianças. Isso levanta uma discussão importante sobre por que a educação infantil depende tanto dos estagiários para funcionar”, afirma.

De acordo com Fabiana, o atraso nas bolsas não seria um episódio isolado. Ela relata que, desde o início da atual gestão municipal, os estagiários enfrentam atrasos recorrentes nos pagamentos, o que já teria motivado mobilizações anteriores da categoria.

Apesar da regularização do pagamento nesta quinta-feira, a interrupção das aulas afetou famílias e estudantes ao longo do dia. Segundo a representante dos pais, a gestão das unidades ainda avalia se haverá reposição das atividades suspensas.

Dependência de estagiários

Na avaliação da conselheira, a paralisação evidenciou uma fragilidade estrutural da rede municipal, especialmente na educação infantil, onde é comum a presença de apenas uma professora regente acompanhada por um estagiário em sala de aula.

Ela questiona o fato de estagiários assumirem funções que, na prática, seriam exercidas por profissionais permanentes da educação.

“O estagiário deveria estar em processo de formação e supervisionado. Quando a ausência dele impede o funcionamento da turma, isso mostra que existe uma dependência que precisa ser discutida”, argumenta.

As críticas apresentadas por Fabiana não se restringem aos atrasos nas bolsas. Ela relata que, ao longo dos últimos meses, famílias e conselheiros vêm acompanhando uma série de problemas relacionados à infraestrutura escolar, alimentação dos estudantes e funcionamento dos órgãos de fiscalização.

Entre os pontos mencionados estão dificuldades no fornecimento de materiais de limpeza, problemas em equipamentos de cozinhas escolares e questionamentos sobre a gestão da alimentação escolar.

Segundo ela, durante o primeiro semestre deste ano, pais de alunos chegaram a organizar doações de produtos de higiene e limpeza para manter o funcionamento de uma unidade de ensino.

“Foram as famílias que ajudaram a suprir itens básicos como água sanitária, sabão e papel higiênico em determinados momentos”, afirma.

A conselheira também questiona a transparência na prestação de contas dos recursos destinados à alimentação escolar e cobra maior atuação dos órgãos responsáveis pelo acompanhamento da política pública.

Outro episódio citado por Fabiana é um surto de intoxicação alimentar registrado em uma unidade de educação infantil no ano passado.

Segundo ela, o caso gerou preocupação entre as famílias e motivou pedidos de apuração junto aos órgãos competentes. A representante afirma que, na ocasião, questionou procedimentos adotados para investigar as causas do problema e defende o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização da alimentação escolar.

Ela também critica a atuação do Conselho de Alimentação Escolar, que, em sua avaliação, não tem desempenhado plenamente o papel de acompanhamento e fiscalização previsto na legislação.

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Educação (SME) informou, por meio da assessoria de comunicação, que está reunindo informações junto aos setores responsáveis para responder aos questionamentos levantados pelas famílias e conselheiros.

Em mensagem enviada à reportagem, a pasta afirmou que não seria possível encaminhar um posicionamento detalhado ainda nesta quinta-feira devido à necessidade de consultar diferentes departamentos da secretaria.