A nova “mamadeira de piroca”: sem crise econômica para explorar, bolsonarismo tenta fabricar pânico sobre empresas saindo do Brasil
Com os alimentos registrando meses de alívio, o desemprego próximo dos menores níveis da série histórica e a fome em forte retração, tornou-se mais difícil construir uma campanha eleitoral baseada na ideia de colapso econômico. O IBGE registrou desemprego de apenas 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, enquanto dados internacionais mostram que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome e que a insegurança alimentar severa caiu para 0,6% no triênio 2023-2025. Nesse ambiente, Lula chega à reta decisiva da eleição com indicadores sociais e econômicos que dificultam a exploração eleitoral do bolso e da mesa do brasileiro.
É justamente quando faltam fatos capazes de sustentar uma narrativa de desastre que ganha espaço o velho pânico moral. Em 2022, circularam previsões de que uma vitória da esquerda levaria ao fechamento de igrejas, à perseguição aos cristãos ou transformaria o Brasil numa “Venezuela”. Em 2026, a estratégia parece ganhar uma nova embalagem: políticos e influenciadores bolsonaristas passaram a disseminar postagens sobre empresas que estariam fechando “aos montes”, misturando casos reais, números fora de contexto e conclusões sem sustentação para produzir a percepção de uma quebradeira generalizada.
É a nova “mamadeira de piroca” da eleição de 2026. A expressão que simbolizou a desinformação eleitoral em 2018 ajuda a compreender uma estratégia recorrente: quando a realidade não oferece combustível suficiente, fabrica-se medo. Em vez da ameaça sexual e moral de oito anos atrás ou do fechamento de igrejas de 2022, agora o personagem é o empresário supostamente quebrado e um país apresentado como economicamente devastado. O objetivo político é o mesmo: substituir a discussão sobre indicadores verificáveis por uma sensação de catástrofe e fazer o eleitor votar não sobre aquilo que está acontecendo, mas sobre aquilo que foi levado a temer.