• Redação
  • 26/10/2026

A Direita Brasileira É Melhor: Precisa Sentir Vergonha do Bolsonarismo

Por Ricardo Valentim 

Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS

Há uma armadilha perigosa no debate público contemporâneo, marcada pela equiparação deliberada entre o pensamento conservador-liberal e o bolsonarismo. Tratar ambos como expressões da mesma matriz não é apenas um equívoco conceitual, mas uma capitulação moral que apequena a história institucional do país. A direita brasileira possui raízes, substância e tradição intelectual. Por ser muito melhor do que esse simulacro, ela precisa sentir vergonha de permitir que seu nome seja sequestrado.

A política, em sua dimensão civilizatória, nasce da disputa entre visões distintas que convergem na formulação de um projeto de país. O Brasil da redemocratização compreendia esse pacto. Figuras de matrizes políticas opostas como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel e José Serra discordavam profundamente sobre as prioridades nacionais, mas operavam sob as balizas da Constituição, do respeito às instituições e da centralidade do Parlamento.

Naquele cenário, a direita liberal e institucional cumpria uma função fundamental ao qualificar o debate nacional. Formulava teses sobre responsabilidade fiscal, equilíbrio monetário, segurança jurídica e eficiência da máquina pública. Havia programas de governo, quadros técnicos e enfrentamento de ideias. A contraposição à esquerda ocorria no terreno dos projetos para a sociedade, nunca na negação do Estado Democrático de Direito.

O bolsonarismo, ao contrário, é a encarnação da antipolítica. Trata-se de um movimento politicamente estéril, desprovido de formulação doutrinária para os problemas estruturais da produtividade, da educação ou da miséria. Não constrói pontes e não deixa legado institucional, preferindo reduzir o espaço republicano a uma permanente trincheira de ressentimento, culto messiânico à personalidade e compadrio.

A gravidade do quadro torna-se ainda mais nítida no terreno judicial e ético, cercado por um volume expressivo de denúncias, escândalos e inquéritos que transitam por esquemas de desvio de recursos públicos, suspeitas patrimoniais e proximidades perigosas com milícias no Rio de Janeiro. Ao associar-se a esse ecossistema de degradação, a direita abandona sua própria identidade histórica e se transforma em mera linha auxiliar de um projeto personalista de impunidade e poder familiar.

Princípios caros ao conservadorismo e ao liberalismo, a exemplo da prudência, do apreço pela liturgia dos cargos, da moralidade pública e da economia aberta, foram desfigurados para alimentar bravatas nas redes sociais. Não se trata de uma divergência de estilo ou retórica, mas de um abismo moral.

Para reconquistar relevância substantiva e respeito histórico, a direita brasileira precisa romper de forma categórica e constrangida com essa tutela ruidosa. Em vez de contemporizar em busca de cálculo eleitoral imediatista, é hora de reconhecer o estrago deixado por quem vilipendiou a política. A direita é melhor do que isso, e demonstrar essa superioridade começa pela coragem cívica de se envergonhar publicamente dessa associação.