17 de abril de 2026

Gritos, cusparada e euforia: 10 anos da sessão do impeachment de Dilma

Autor: Daniel Menezes

Congresso em Foco - Às 23h07 de 17 de abril de 2016, quando Bruno Araújo (PSDB-PE) deu o 342º voto favorável ao prosseguimento do processo de impeachment, a Câmara explodiu. A barreira constitucional havia sido vencida. O plenário foi tomado por gritos de "Brasil! Brasil! Brasil!", bandeiras erguidas, celulares no alto, abraços, selfies, cartazes de "Tchau, querida" e o coro de "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Do outro lado, em menor intensidade, ouviam-se vaias e palavras como "golpistas" e "canalhas".

Naquele domingo atípico no Congresso, a sessão terminou às 23h50. O placar foi de 367 votos a favor, 137 contra, sete abstenções e duas ausências. Formalmente, Dilma Rousseff ainda não estava fora do cargo. Mas a derrota decisiva já havia ocorrido. A Câmara autorizava a abertura do processo no Senado, que a afastaria temporariamente em 12 de maio, por 55 votos a 22, e definitivamente em 31 de agosto, por 61 votos a 20.

Deputados defensores do impeachment exibem facha contra Dilma e o PT na sessão da Câmara que aprovou a abertura do processo.

Deputados defensores do impeachment exibem facha contra Dilma e o PT na sessão da Câmara que aprovou a abertura do processo.Pedro Ladeira/FolhaPress | Sattu Rodrigues | Arte Congresso em Foco

 

A mais longa sessão da Câmara

O domingo decisivo foi apenas o ápice de uma maratona iniciada na manhã de sexta-feira, 15 de abril. A fase de discussões sobre o impeachment se arrastou por 43 horas e produziu 389 discursos, tornando-se, até então, a sessão mais longa da história da Câmara.

À medida que o cansaço, o cálculo político e o espetáculo televisivo se misturavam, o plenário deixava de ser apenas espaço de deliberação e se convertia em arena. A votação seria constitucional no rito, mas emocional no ambiente.

Câmara sob cerco

A Casa se preparou para aquele fim de semana como quem se prepara para uma batalha. O acesso foi restringido, a visitação suspensa, e todos que entravam no Congresso, inclusive servidores e jornalistas, passavam por detector de metais e raio X. Para circular nas áreas mais sensíveis, como Salão Verde, galerias e plenário, era preciso portar credenciais especiais com selo holográfico, que delimitavam o deslocamento de cada pessoa.

A moldura de segurança reforçava a percepção de que não se tratava de mais uma votação relevante, mas de um momento excepcional. Antes mesmo de começar, a sessão já era tratada como histórica.

Relator do processo de cassação, Jovair Arantes faz a leitura de seu parecer.

Relator do processo de cassação, Jovair Arantes faz a leitura de seu parecer.Renato Costa/Folhapress

 

O mundo de olho em Brasília

A cobertura transformou o Congresso num palco global. Mais de mil jornalistas pediram credenciamento, e a Câmara esperava atender cerca de 400 profissionais, entre equipes de TV, rádio, jornais, sites e correspondentes internacionais. O Congresso em Foco estava lá, registrando de perto a sessão que redefiniria a política brasileira.

E não era só o jornalismo que filmava Brasília. O impeachment já mobilizava documentaristas interessados em registrar não apenas os discursos oficiais, mas também a liturgia informal do poder: os corredores, os bastidores, os rostos cansados, os sorrisos tensos e a hostilidade à flor da pele.

Um muro para um país rachado

Do lado de fora, a divisão política ganhou forma física. A Esplanada dos Ministérios foi cortada por um muro metálico que separava manifestantes pró e contra o impeachment. De um lado, o verde e amarelo, as buzinas, os cantos e os pedidos de afastamento. Do outro, movimentos sociais, carros de som e a palavra "golpe" martelada a cada fala.

Um muro dividiu manifestantes no dia da votação em frente ao Congresso: à esquerda, defensores de Dilma; à direita, apoiadores do impeachment da presidente.

Um muro dividiu manifestantes no dia da votação em frente ao Congresso: à esquerda, defensores de Dilma; à direita, apoiadores do impeachment da presidente.Ricardo Stuckert/PR

 

O país rachado deixava de ser figura de linguagem: estava materializado em aço, no centro de Brasília.

A acusação era fiscal, mas a sessão foi política

No papel, a denúncia contra Dilma era fiscal. O processo se apoiava em dois pilares: os decretos de crédito suplementar editados sem autorização do Congresso, em desacordo com a meta fiscal, e os atrasos de repasses no Plano Safra, classificados pelos acusadores como "pedaladas fiscais", ou seja, operações de crédito vedadas com bancos públicos.

A defesa sustentava que não havia crime de responsabilidade, nem dolo da presidente, e que os decretos não aumentaram despesas de forma ilegal. Mas, no Plenário, prevalecia outra tese. As denúncia falavam de orçamento; os discursos falavam de crise, traição, moralidade, corrupção, fé, família e vingança.

Na presidência da Câmara, Eduardo Cunha foi responsável por dar andamento ao pedido de abertura de impeachment contra Dilma.

Na presidência da Câmara, Eduardo Cunha foi responsável por dar andamento ao pedido de abertura de impeachment contra Dilma.Pedro Ladeira/Folhapress

 

 

Lava Jato e desgaste político

Esse ambiente não surgiu do nada. A Lava Jato não era a base jurídica do impeachment, mas ajudou a envenenar o ar que o tornou politicamente possível. A operação ampliou a percepção de colapso do sistema político, atingiu partidos centrais da base e da oposição e lançou sobre o governo um desgaste que extrapolava as acusações formais contra Dilma.

A acusação contra a presidente era fiscal. O ambiente que empurrava a votação, porém, era de saturação política generalizada.

O Centrão desembarcou

Ao mesmo tempo, o governo se desmanchava no centro do tabuleiro. O PP desembarcou oficialmente em 12 de abril, por 37 votos a 9, e fechou posição a favor do impeachment. O movimento pressionou outras siglas do chamado Centrão e acelerou a debandada de uma base já corroída.

Na prática, Dilma chegava ao domingo decisivo sem o bloco intermediário que, em Brasília, costuma separar sobrevivência de derrota.

Os desertores do governo

A decomposição da base ganhou um símbolo adicional: seis ex-ministros de Dilma votaram a favor da abertura do processo. O caso mais ruidoso foi o de Mauro Lopes (PMDB-MG). Recém-saído da Secretaria de Aviação Civil, reassumiu o mandato de deputado e votou a favor do impeachment. Dilma reagiu publicamente: "Mauro Lopes votou a favor do impeachment e, portanto, já não é ministro".

O episódio condensou a humilhação política de um governo que já via antigos aliados aderirem abertamente à sua queda.

Mauro Lopes deixou o ministério de Dilma para votar a favor do impeachment da presidente.

Mauro Lopes deixou o ministério de Dilma para votar a favor do impeachment da presidente.Reprodução/TV Câmara

 

O áudio de Temer

Quatro dias antes da votação, outro sinal de que a transição de poder já parecia em marcha vazou para o país. Michel Temer enviou a aliados um áudio em que falava como se o desfecho na Câmara fosse fato consumado e defendia um governo de "salvação nacional". Disse depois que o envio havia sido acidental.

No Planalto, a gravação foi lida como prova de conspiração. Em Brasília, reforçou a sensação de que o domingo não seria uma decisão em aberto, mas a consagração de uma troca de poder ensaiada nos bastidores.

Entre o rito constitucional e o espetáculo

Dentro do plenário, a sessão produziu um retrato cru da ruptura. Houve discursos solenes, mas também falas performáticas, surtos patrióticos, dedicatórias religiosas e momentos que lembravam mais um programa de auditório do que uma deliberação constitucional.

Um dos episódios mais folclóricos foi protagonizado por Wladimir Costa (SD-PA), enrolado na bandeira do Pará, ao disparar uma pistola de confetes coloridos da tribuna. O gesto, que assustou parte do plenário, resumiu a mistura improvável de liturgia institucional e espetáculo.

Wladimir Costa protagonizou uma das cenas mais curiosas do domingo: soltou rojão de confetes da tribuna da Câmara.

Wladimir Costa protagonizou uma das cenas mais curiosas do domingo: soltou rojão de confetes da tribuna da Câmara.Antonio Barboza/Ascom/Solidariedade

 

Glauber, Cunha e o cheiro de enxofre

As frases mais duras vieram carregadas de veneno. Glauber Braga (PSOL-RJ), ao votar contra o impeachment, mirou diretamente Eduardo Cunha: "Eduardo Cunha, você é um gângster. E o que dá sustentação à sua cadeira cheira a enxofre".

A fala condensava o principal argumento dos governistas: o de que o processo contra Dilma era conduzido por um presidente da Câmara já afundado em acusações de corrupção e transformado em símbolo da degradação ética do Congresso.

Bolsonaro, Ustra e o instante em que tudo desandou

O ponto de não retorno simbólico veio com Jair Bolsonaro (PP-RJ). Ao votar "sim", o então deputado dedicou a fala ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem chamou de "o pavor de Dilma Rousseff". A homenagem a um nome associado à tortura durante a ditadura empurrou a sessão para um patamar ainda mais grave.

Discussão entre Jean Wyllys e Jair Bolsonaro foi além dos microfones.

Discussão entre Jean Wyllys e Jair Bolsonaro foi além dos microfones.Pedro Ladeira/Folhapress

 

Logo depois, Jean Wyllys (Psol-RJ), que votou contra o impeachment, cuspiu em Bolsonaro. Mais tarde, disse ter reagido a insultos homofóbicos. Em poucos segundos, a sessão deixou de ser apenas um julgamento político e passou a condensar, ao vivo, a memória da ditadura, a violência verbal e a desintegração da convivência democrática.

Empurrões e exaustão

Nem esse foi o único momento de descontrole. A maratona anterior à votação já havia registrado empurrões, xingamentos e ameaças. O plenário oscilava entre a solenidade forçada e a beira da briga.

Era uma Câmara exausta, cercada, televisionada, pressionada pelas ruas e contaminada por uma crise moral que se espalhava muito além do processo contra a presidente.

Euforia de um lado, luto do outro

Quando Bruno Araújo atingiu o voto 342, a catarse pró-impeachment tomou o plenário. O lado vencedor comemorou como quem vence uma guerra. O lado governista respondeu com a palavra que atravessou todo o processo: "golpe".

A imagem final daquele domingo não foi apenas a de uma vitória parlamentar, mas a de dois campos em estados emocionais opostos: um em euforia, outro em luto político. E foi isso que fez da sessão de 17 de abril algo maior do que uma votação. Ela não apenas empurrou Dilma para o julgamento no Senado; expôs, sem filtros, um Brasil em combustão.

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