2 de março de 2026
Irã defende reação a ataques, critica mídia e alerta para risco de guerra regional
Autor: Daniel Menezes
Por Manuela Borges
Do ICL
Ao afirmar que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “acha que é o rei do mundo”, o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, elevou o tom contra Washington e acusou os EUA de atuarem para derrubar governos, e não para negociar acordos, durante coletiva realizada nesta segunda-feira (2), em Brasília.
A coletiva foi convocada após o Itamaraty divulgar duas notas oficiais condenando a escalada militar no Oriente Médio, expressando preocupação com a violação da soberania de países da região e defendendo a proteção de civis, o respeito ao direito internacional e a busca de soluções diplomáticas. O governo brasileiro também alertou para o risco de ampliação do conflito e seus impactos globais.
“Matança não vai atingir seus objetivos”
Logo no início, Nekounam buscou enquadrar a reação iraniana como resposta inevitável.
“Esperamos que quem começou essa guerra cruel saiba que matança e assassinatos não vão atingir seus objetivos”, afirmou.
Segundo ele, o Irã foi alvo de ataques que resultaram na morte de civis, incluindo crianças e estudantes.
“Vocês viram as vidas perdidas das crianças e alunas que voltaram sem vida. O governo do Irã nunca vai deixar de defender os direitos dessas alunas”, declarou.
O embaixador reforçou que a reação de Teerã segue o que chamou de direito soberano.
“Quando um país grande e soberano é atacado, certamente tem que esperar uma resposta firme e sólida da outra parte. Estamos no nosso direito de nos defender”, disse.
“Para a defesa da nossa população, não vamos deixar de exercer esse direito de forma alguma.”
Ataque à mídia e disputa de narrativa
Nekounam também criticou cobertura da imprensa internacional, acusando veículos de distorcerem informações para influenciar a opinião pública.
“As notícias compartilhadas pelas principais empresas não estão certas e adequadas. A mídia dominante tenta influenciar as visões publicadas de acordo com seus interesses”, afirmou.
Segundo ele, a guerra também ocorre no campo informacional. “Fake news trazem visões e opiniões publicadas que podem moldar a visão dos EUA”, disse, ao mencionar episódios de protestos internos no Irã que, segundo o diplomata, foram explorados de forma distorcida.
Bases militares e países vizinhos
Ao ser questionado sobre ataques em territórios de países vizinhos, Nekounam negou que o Irã tenha como alvo outras nações. “Nossas ações são contra bases militares dos EUA e centros sionistas. Não se considera ataque aos países mencionados”, afirmou, citando locais como Dubai e Catar.
Ele acrescentou que, se uma base militar for usada para atacar o Irã, a resposta é automática.
“Quando uma base militar é usada para atacar o nosso país, claramente será atacada e terá respostas”, disse, ressaltando que as relações com “países irmãos e amigos” permanecem inalteradas.
Estreito de Ormuz e alerta de guerra regional
Sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, o embaixador evitou indicar medidas concretas, mas fez um alerta direto.
“Quando uma guerra acontece, muitas questões são envolvidas”, afirmou. Segundo ele, o líder supremo iraniano já havia advertido sobre as consequências de novos ataques. “Se o Irã for atacado, a consequência é uma guerra regional”, disse.
Programa nuclear e acusações aos EUA
No eixo nuclear, Nekounam voltou a afirmar que o programa iraniano tem fins pacíficos e está sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. Questionado sobre a existência de cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, disse que o patamar é resultado direto do acordo nuclear de 2015.
“O acordo nuclear serviu para esclarecer ambiguidades e retirar sanções. Ele foi rasgado em 2018 pelos Estados Unidos”, afirmou.
Segundo o embaixador, Washington não busca negociar. “Os Estados Unidos não querem acordo nuclear com o Irã. Buscam mudança de governo.”
Ele acrescentou que negociações técnicas previstas para ocorrer em Viena hoje foram interrompidas após ataques durante o próprio processo de diálogo.
Brasil como interlocutor
Para completar, Nekounam elogiou a posição do governo brasileiro. “A nota do Itamaraty é valorosa. Dá valor ao ser humano, à integridade territorial, à soberania e à independência dos governos”, afirmou, destacando que o diálogo com o Brasil é institucional e não se confunde com negociações com os EUA.
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