22 de fevereiro de 2026

Déficit no RN exige debate honesto: onde cortar, como cortar e o que preservar

Autor: Daniel Menezes

O Rio Grande do Norte fechou 2025 com déficit. O dado é real e preocupante. Mas o debate público que se instala em torno dele precisa ser menos raso e mais responsável. Comparar números atuais com o passado de forma isolada, sem considerar o aumento do orçamento e a mudança estrutural nas despesas, pode levar a conclusões distorcidas. Nos últimos anos, houve ampliação da receita, melhora relativa na relação entre folha e orçamento e reorganização de passivos. Ainda assim, o Estado permanece acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal e esse é o ponto central que precisa ser enfrentado sem slogans.

O crescimento do custo da máquina não surgiu do nada. Ele está diretamente ligado à expansão de leitos hospitalares durante a pandemia, à incorporação de novos profissionais de saúde, ao aumento do efetivo policial e à ampliação de serviços públicos que não foram revertidos após a emergência sanitária. São estruturas que passaram a integrar o funcionamento permanente do Estado. Defender cortes genéricos ignora que esses gastos sustentam serviços essenciais. Não se trata de gordura supérflua, mas de políticas públicas que impactam diretamente a população.

Nesse contexto, prometer resolver o problema cortando cargos comissionados soa mais como estratégia retórica do que solução concreta. Eles representam cerca de 1% da folha. Mesmo que todos fossem extintos, o que é improvável e administrativamente inviável, o impacto fiscal seria limitado diante do tamanho do desafio. O próximo governador, seja quem for, precisará apresentar respostas claras: onde exatamente cortar? Em quais áreas? Haverá redução de servidores? Reestruturação de carreiras? Revisão de contratos? Ou aumento de receitas?

O eleitor potiguar merece um debate adulto. Não é possível prometer simultaneamente melhorar serviços públicos, ampliar segurança, manter leitos abertos e reduzir drasticamente despesas com pessoal sem explicar como essa equação fechará. Ajuste fiscal não é palavra proibida, mas também não pode ser sinônimo de discurso simplista. O Estado precisa de planejamento, transparência e coragem política para discutir escolhas reais porque, no fim das contas, toda decisão orçamentária carrega consequências concretas para quem depende dos serviços públicos.

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