Vencedor do Nobel: Trump pune Brasil por sucesso do Pix
O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008, fez duras críticas à investigação aberta pelo governo de Donald Trump contra o Pix e afirmou que a ofensiva dos Estados Unidos representa uma tentativa de punir o Brasil tanto pelo sucesso do sistema de pagamentos instantâneos quanto por ser uma democracia.
Em artigo publicado nesta segunda-feira (20), o economista classificou como injustificada a decisão da administração americana de incluir o Pix na investigação comercial conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio, mecanismo utilizado para apurar supostas práticas comerciais desleais.
"De certa forma, o governo Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma democracia de fato. Diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil processou seu ex-presidente, Jair Bolsonaro, por tentar incitar uma insurreição após sua derrota na última eleição", afirmou.
Segundo o Nobel, a postura da Casa Branca revela uma tentativa de pressionar um país que adotou medidas institucionais após uma tentativa de ruptura democrática.
O economista lembra que o Pix foi lançado pelo Banco Central há quase seis anos e rapidamente se consolidou como um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais bem-sucedidos do mundo. Krugman recorda que, há um ano, publicou um artigo elogiando o serviço brasileiro e defendendo que ele poderia representar "o futuro do dinheiro". Agora, diz ele, o governo Trump pretende punir justamente esse sucesso.
"Trump tentará punir o Brasil por esse sucesso", escreveu. Em seguida, questiona a lógica da investigação americana: "Por que seria desleal um país oferecer aos seus próprios cidadãos uma forma melhor de fazer compras e pagar contas?".
Para Krugman, oferecer um sistema público mais eficiente não configura uma prática comercial desleal, mas sim um avanço tecnológico capaz de ampliar a concorrência e reduzir custos para consumidores e empresas.
Críticas à influência de interesses privados
Ao longo do artigo, Krugman argumenta que a verdadeira motivação da ofensiva americana é proteger interesses econômicos de grandes empresas e grupos que apoiam Trump. Segundo ele, o Pix reduziu a dependência dos brasileiros de meios tradicionais de pagamento, afetando empresas como Visa e Mastercard. No entanto, o economista afirma que essa perda de mercado decorre da concorrência entre tecnologias, e não de qualquer vantagem indevida concedida pelo governo brasileiro.
"Desde quando é uma prática comercial desleal uma empresa perder clientes para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?", questiona. Para reforçar o argumento, ele compara a obrigatoriedade de os bancos brasileiros oferecerem o Pix à obrigação dos bancos americanos de aceitar depósitos em dólar e disponibilizar dinheiro em espécie aos clientes. "Poucas pessoas considerariam isso injusto", afirma.
O economista ainda compara o sucesso do Pix ao fracasso da experiência de El Salvador com o Bitcoin. Enquanto o Brasil consolidou um sistema público amplamente utilizado pela população, o governo salvadorenho gastou recursos para incentivar o uso da criptomoeda, que não conseguiu se tornar um meio de pagamento relevante e gerou prejuízos após a queda do valor do Bitcoin.
"Trump declarou guerra ao futuro"
Na avaliação de Krugman, a postura do governo americano em relação ao Pix é semelhante à política adotada por Trump para conter o avanço das energias renováveis. Em ambos os casos, afirma, interesses privados impedem a adoção de tecnologias mais eficientes.
"O governo Trump declarou guerra ao futuro", escreveu. Para ele, o discurso de defesa da inovação desaparece quando o progresso ameaça setores tradicionais, como as empresas de cartões, o mercado de criptomoedas e a indústria de combustíveis fósseis.
Apesar das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos, Krugman avalia que a estratégia dificilmente produzirá os efeitos esperados. Segundo o vencedor do Nobel de economia, a medida tende a fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e terá impacto econômico limitado.
"Agora, usar tarifas para punir o Brasil por suas conquistas monetárias não terá sucesso. Politicamente, a medida só fortalecerá o presidente Lula. Economicamente, o alcance das tarifas será limitado pelos temores do governo Trump de que os preços do café, suco de laranja, carne bovina e outros produtos subam ainda mais."
Para Krugman, o redirecionamento do comércio global permitiu ao Brasil ampliar sua participação nas exportações para a China, especialmente no mercado de soja. Ainda assim, ele conclui que a "insensatez" das novas tarifas não impedirá sua implementação. "Uma coisa que sabemos sobre Trump é que ele nunca admite quando suas guerras de escolha fracassam", finaliza.