Secretária de Cultura de Natal ironiza decisão da Justiça sobre violência na UFRN

SAIBA MAIS - A secretária municipal de Cultura de Natal, Iracy Azevedo, publicou comentários irônicos sobre uma decisão da Justiça Eleitoral que determinou o afastamento de equipamentos de som de manifestações político-eleitorais em relação a instituições de ensino. As manifestações foram feitas em uma publicação do vereador Daniel Valença (PT), que divulgou a determinação judicial envolvendo os deputados General Girão (PL-RN) e Camila Araújo (PL).
Em um dos comentários, Iracy escreveu: “Somos Brasil. Somos 22. Somos família. Higiene, limpeza.” Em outra mensagem, a secretária reagiu à decisão com a frase: “Kkkkkkk. Oh justiça justa! Lá só pode entrar quem é do ‘amodinho’”.

Os comentários aparecem na publicação em que Daniel Valença compartilha uma decisão do desembargador eleitoral Paulo Pinheiro. Conforme o conteúdo divulgado pelo vereador, a determinação estabelece que os deputados General Girão e Camila Araújo mantenham equipamentos de som a pelo menos 200 metros de instituições de ensino durante manifestações político-eleitorais das quais participem ou às quais deem apoio. O descumprimento pode resultar em multa individual de R$ 15 mil.

Vários perfis questionam e rebatem a fala da secretária de Cultura de Paulinho Freire, que apoia as candidaturas de Flávio Bolsonaro e Allyson Bezerra. O principal questionamentos que fazem é sobre o que a secretária quer dizer com “higiene e limpeza”. Iracy, até o fechamente deste texto, não havia respondido aos questionamentos, nem explicado o texto.
A manifestação da secretária ocorre no contexto da repercussão dos episódios registrados na segunda-feira (19), quando um ato de apoiadores do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), realizado no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, terminou em agressões e danos ao patrimônio público.
Intitulada “Vire à direita: UFRN anti-Lula”, a mobilização contou com a participação do deputado federal General Girão, da vereadora Camila Araújo, ambos do PL, e do presidente estadual do Novo, Renato Cunha Lima.
MPF investiga violência e intimidação em universidades do RN
Na terça-feira (20), o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação sobre suspeitas de intimidação, censura e ameaças à liberdade de expressão e de reunião da comunidade acadêmica durante o período eleitoral no Rio Grande do Norte. A apuração abrange episódios em Natal, Mossoró e Apodi, incluindo relatos de tentativas de impedir manifestações, retirada de cartazes e faixas, incitação à violência e uso indevido de prerrogativas de autoridade.
Conduzido pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), o procedimento já solicitou informações à UFRN, à Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e ao campus de Apodi do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). As instituições deverão detalhar as ocorrências e informar quais medidas de proteção foram adotadas.
Os episódios de violência e danos ao patrimônio registrados na UFRN também foram encaminhados à Procuradoria Regional Eleitoral e ao Núcleo Criminal da Procuradoria da República no Rio Grande do Norte, para análise das medidas cabíveis.
Na UFRN, a universidade informou que o ato ocorreu sem autorização institucional, com equipamentos de som e fogos de artifício. Em nota, relatou ameaças à integridade física e moral de integrantes da comunidade acadêmica, danos ao patrimônio e interrupção de aulas e atividades administrativas.
Entre os feridos está o estudante de Jornalismo Henrique Neiva, que registrou boletim de ocorrência após relatar ter sido atingido por socos, chutes e golpes com um capacete. Conforme apuração da Saiba Mais, ele sofreu hematomas e um trauma que provocou o deslocamento de um dente.
A publicação também acumula 11,8 mil curtidas e 2,4 mil comentários no momento em que as imagens foram registradas. Entre as respostas direcionadas à secretária, houve questionamentos sobre o sentido das expressões utilizadas e críticas à posição dela. “Secretária, o que a sra quer dizer com higiene e limpeza?”, perguntou um usuário. Outra pessoa questionou como uma secretária de Cultura poderia votar em um candidato que, segundo ela, menosprezava a classe cultural e poderia extinguir o Ministério da Cultura caso fosse eleito.
O reitor José Daniel Diniz Melo anunciou a abertura de um processo administrativo e informou que encaminhará documentos ao MPF, à Procuradoria Federal junto à universidade e ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN).
Após o confronto, General Girão acusou estudantes de vender drogas e atribuiu omissão e possível conivência à segurança do campus. Conforme mostrou a Saiba Mais, o parlamentar não apresentou provas para sustentar as acusações. Ele negou ter organizado a manifestação, afirmou que havia sido convidado por estudantes e alegou que integrantes de sua equipe também foram agredidos.
Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) informou que acionou o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar para apurar a conduta de Girão durante o ato e uma possível quebra de decoro. “Mandato parlamentar não é licença para abuso de autoridade”, escreveu.