• Redação
  • 02/07/2026

Samanda sobrepujará Rafael Motta colando nele; não o contrário

A disputa interna pelo espaço no campo governista pode estar levando Samanda Alves a cometer um erro estratégico. Em vez de concentrar esforços na construção de sua própria candidatura, a insistência em travar uma disputa pública com Rafael Motta acaba produzindo um efeito inverso ao pretendido: amplia a visibilidade de um adversário que, naturalmente, já possui maior nível de conhecimento do eleitor por sua trajetória eleitoral recente. Hoje, as pesquisas não sinalizam a força de Rafael, mas apenas o seu recall. Em política, muitas vezes o maior presente que se pode dar a um concorrente é tratá-lo como o principal obstáculo antes mesmo de a campanha começar.

A realidade política favorece Samanda no médio prazo. Ela é filiada ao PT, representa o partido na chapa majoritária, conta com a militância mais organizada da esquerda e tende a ser a candidata naturalmente identificada com o eleitorado lulista. Rafael Motta, por sua vez, chega à aliança carregando um histórico de posições que dificultam sua consolidação junto ao eleitor de esquerda, incluindo o apoio ao impeachment de Dilma Rousseff, críticas ao PT, embates com lideranças petistas, como contra Natália em 2024, e a participação na gestão de Álvaro Dias. Essas diferenças tendem a reaparecer naturalmente durante a campanha, sem que Samanda precise transformá-las em uma guerra permanente nos bastidores.

Nesse contexto, o episódio da agenda do presidente Lula no Rio Grande do Norte ilustra como uma disputa mal conduzida pode produzir efeitos indesejados. A repercussão em torno da presença de Rafael Motta no palanque acabou oferecendo a ele um discurso político de prestígio e pertencimento à coalizão governista. Se houve ou não qualquer tentativa de restringir seu espaço, a percepção pública acabou deslocando o foco da agenda presidencial para uma controvérsia interna, beneficiando justamente quem deveria perder protagonismo.

A estratégia mais eficiente para Samanda talvez seja exatamente a oposta: deixar Rafael dividir o mesmo espaço político enquanto fortalece sua própria identidade como representante legítima do PT e do projeto liderado por Lula no Rio Grande do Norte. Se conseguir consolidar essa imagem, com o efeito do recall de Rafael passando - e vai passar -, a comparação entre os dois tende a favorecer sua candidatura de forma gradual. Em vez de alimentar um conflito que dá oxigênio ao aliado-adversário, pode ser mais inteligente permitir que as diferenças políticas falem por si quando a campanha realmente começar.

PESQUISA MEXE COM PSICOLÓGICO DE CANDIDATO

 As pesquisas eleitorais parecem exercer um impacto muito maior sobre o psicológico dos candidatos do que sobre o comportamento do eleitor. A literatura sobre comportamento eleitoral mostra que, especialmente quando a campanha ainda está distante, levantamentos de intenção de voto tendem a ter efeito pífio na decisão final do eleitor, que costuma ser influenciada por fatores mais amplos, como identidade partidária, avaliação de governos, campanhas e acontecimentos políticos ao longo da disputa. A ideia de que pesquisa é fundamental só serve a quem vende pesquisa. Ainda assim, é comum ver pré-candidatos tratando cada pesquisa como um veredito definitivo, permitindo que oscilações naturais alterem estratégias e provoquem ansiedade desnecessária. Em um cenário em que a eleição ainda está em construção, deixar que números preliminares ditem o rumo da campanha pode ser um erro maior do que a própria posição ocupada nas pesquisas.