Prefeitura de SP bancou R$ 3,5 milhões para evento de produtora de Dark Horse
Metrópoles - A prefeitura de São Paulo gastou R$ 3,5 milhões para cobrir despesas da Connect Faith 2025, uma feira gospel de inovação realizada em julho do ano passado por Karina Gama. Ela também é produtora executiva de Dark Horse, a cinebiografia ficcional de Jair Bolsonaro (PL).
O valor saiu da Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR), então comandada pelo pastor e deputado estadual Rui Alves (Republicanos) e foi executado pela SPTuris sob gestão de Gustavo Pires, que foi exonerado depois de denúncias desta coluna.
Trata-se de um modelo de contratação em que secretarias repassam dinheiro para a SPTuris bancar serviços para eventos escolhidos sem transparência e sem necessidade de solicitação formal. Os organizadores são beneficiados à medida que deixam de precisar pagar uma extensa lista de despesas, aumentando a margem de lucro de eventos privados. A Connect Faith 2025 cobrou ingressos para shows e palestras e vendeu cotas para patrocinadores e expositores.
Os gastos da prefeitura com a feira não constam no Diário Oficial e, até recentemente, só poderiam ser descobertos em pastas zipadas dentro do portal de processos da prefeitura, o que impedia que fossem localizados em buscas por palavras-chave.
A coluna teve acesso, contudo, a uma planilha que segue escondida em pastas zipadas, de “custo final” da The Connect Faith 2025 (veja clicando aqui). Ela mostra que a gestão Ricardo Nunes (MDB) pagou todo tipo de despesa da feira, seja de pessoal (seguranças, limpeza, produtores), infraestrutura (palco, som, paineis de LED), material (camisetas, café, lanche, água mineral), e até locação de ônibus e vans.

Só a MM Quarter, pivô do escândalo na SPTuris, recebeu R$ 183,5 mil para fornecer produtores, recepcionistas e carregadores por seis diárias, ainda que o evento tenha durado quatro, de 12 a 15 de junho, no Expo Center Norte.
O evento foi realizado pela Academia Nacional de Cultura (ANC), presidida por Karina Gama, que também se anuncia “presidente” da Connect Faith. Ela assina Dark Horse como produtora executiva e comanda também a ONG Instituto Conhecer Brasil, que firmou contrato de R$ 108 milhões para instalar pontos de wi-fi na cidade que vem sendo investigado pela polícia civil.
O apoio da prefeitura de São Paulo à Connect Faith nunca foi tornado público e inexiste qualquer documentação que demonstre quem (e como) solicitou o dinheiro, qual o critério para atendimento ou como foi definido quais itens seriam pagos pela prefeitura, em qual quantidade.
Em tese, o “apoio” deveria estar em um degrau abaixo do “patrocínio”, com menos burocracia para resolver solicitações simples, como cessão de palco, som e iluminação para festas de bairro e eventos da própria prefeitura. Nos últimos anos, passou a movimentar muito mais dinheiro do que os patrocínios da gestão municipal, sem cumprir os mesmos requisitos de transparência e controle.
Um patrocínio demanda solicitação formal do organizador do evento, envio de documentação, demonstração de como a verba será gasta, do impacto para o município, oferecimento de contrapartidas e prestação de contas. Ao ser publicizado, o patrocínio passa por escrutínio público. O “apoio”, não. Também não há registro de quem o solicitou e quem o aprovou, diferente de uma emenda.
Só no mês passado, após o Tribunal de Contas do Município (TCM) e o Ministério Público (MP) abrirem investigações sobre os contratos da SPTuris, a SMTUR deu transparência aos “solicitantes” de alguns eventos. No caso do show da Connect Faith, é citada a “Academia Nacional de Cultura”.
A planilha, que não foi integralmente preenchida. Não há qualquer explicação sobre quem solicitou que a prefeitura pagasse mais de R$ 5 milhões em despesas dos eventos “10º Aniversário do TDZ” e “TDZSP”, que vêm a ser edições do Tardezinha, do pagodeiro Thiaguinho.
Também não há solicitante para o evento “J&M – 20 ANOS”, que custou R$ 3,2 milhões aos cofres públicos. As imagens juntadas à ordem de serviço escondida em pastas zipadas mostram tratar-se do show da dupla Jorge & Matheus realizado na Mercado Livre Arena Pacaembu em dezembro.
Nos três casos, a prefeitura pagou palco, iluminação, som, segurança, produção e até as tendas que cobriam os bares dos shows, fechados e com cobrança de ingressos. A documentação não tem justificativa para os gastos.
A coluna perguntou à prefeitura sobre como foi definido o valor do apoio à Connect Faith, como a solicitação chegou à prefeitura, por que o apoio não consta em Diário Oficial e quais os critérios para a escolha da feira para ser apoiada.
A prefeitura enviou a seguinte nota: “A Secretaria Municipal de Turismo informa que as contratações mencionadas respeitaram todos os trâmites previstos na legislação. O apoio do Município ao The Connect Faith foi concedido com base no Decreto Municipal nº 61.244/2022 e destinado à infraestrutura do evento, que teve público estimado em 60 mil pessoas entre os dias 12 e 15 de junho de 2025. Por fim, a administração repudia qualquer tentativa da imprensa de criar relações entre iniciativas do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A Prefeitura de São Paulo reitera que a obra não recebeu recursos municipais.”