• Redação
  • 23/09/2026

Pisa: 20 estados e o DF vão pior em matemática do que o esperado para seus níveis socioeconômicos; veja ranking

G1 - Mesmo considerando a realidade de cada região, como dificuldade de acesso à internet ou baixa escolarização dos pais dos alunos, 20 estados e o Distrito Federal tiveram notas de matemática no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) abaixo das esperadas para seus níveis socioeconômicos. Veja os rankings mais abaixo.

  • ✏️O que é Pisa? É uma avaliação de matemática, de leitura e de ciências, organizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e focada em jovens de 15 anos, de escolas públicas e particulares. Participaram da edição mais recente 91 países. Esse detalhamento do desempenho dos estados brasileiros não era informado desde 2015.

Pesquisadores do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), a pedido do g1, adaptaram os resultados estaduais tanto de matemática quanto de leitura e de ciências, considerando, em uma escala padronizada, os seguintes aspectos dos alunos:

  • escolaridade dos pais;
  • status profissional mais alto da família;
  • recursos e bens em casa (como acesso a livros e à internet).

O patamar é sempre calculado considerando que o “zero” é o perfil dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Leia os critérios detalhados mais abaixo.

“O problema da matemática no Brasil começa muito antes dos 15 anos, porque é uma disciplina progressiva e cumulativa. Se um estudante não compreende bem frações ou proporções, por exemplo, terá dificuldade quando chegar à álgebra e a outros conceitos mais complexos”, explica Katia Smole, diretora do Instituto Reúna.

Nesta reportagem, você verá:

  • um resumo com os pontos principais do levantamento;
  • uma explicação dos motivos pelos quais o contexto social deve ser considerado;
  • o desempenho de cada estado em matemática, em leitura e em ciências, levando em conta o nível socioeconômico;
  • os destaques negativos e positivos nas três disciplinas.

Pontos principais

➡️O Paraná foi líder nos rankings gerais do Brasil no Pisa, divulgados em 8 de setembro. E esse destaque mantém-se mesmo quando o nível socioeconômico é considerado: é o único estado que tem desempenho acima do esperado nas três disciplinas avaliadas.

➡️Roraima aparece entre os piores desempenhos relativos nas três áreas.

➡️Estados nordestinos como Ceará e Piauí superam consistentemente as expectativas, inclusive em matemática. O Ceará obteve 363,3 pontos nesta disciplina — pontuação baixa, quando analisada de modo isolado, mas a segunda melhor do Brasil se o nível socioeconômico for considerado (ficou 10,5 pontos acima da expectativa).

➡️É um contraponto a estados mais ricos, como Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, que ficaram muito abaixo do previsto.

“O Rio de Janeiro tem o segundo PIB do país e está neste patamar horroroso. Não avançou nos programas de escola em tempo integral, por exemplo — algo que Pernambuco, Paraíba e Ceará conseguiram fazer”, afirma Claudia Costin, especialista em Educação e ex-Diretora Global de Educação do Banco Mundial.

“Para avançar em matemática, é preciso ensinar a pensar. Com 4 horas de aula por dia, não dá tempo de ir além da memorização de fórmulas.”

Procurada pelo g1 para comentar os resultados do Pisa, a Secretaria de Educação do RJ não havia respondido até a mais recente atualização da reportagem. Veja o que outros estados disseram.

➡️Em números absolutos, São Paulo realmente se destaca — notas de 403,8 em matemática, 433,7 em leitura e 442,6 em ciências — e sustenta o discurso de "segundo lugar" nos rankings brutos. Mas, quando entra o recorte socioeconômico, perde o título de “vice”.

Em matemática, a diferença para o que era esperado é mínima: apenas +2,3 pontos — a menor margem positiva entre os cinco estados que superaram a expectativa. Na prática, São Paulo está fazendo quase exatamente o que se esperaria dado seu contexto, nem mais, nem menos.

➡️Minas Gerais e Ceará tiveram destaque em leitura — ficaram 52,9 e 59 pontos, respectivamente, acima do esperado para seus perfis socioeconômicos.

“Quando um estado apresenta desempenho melhor que o projetado, isso pode indicar que sua política educacional está conseguindo reduzir parte do peso das desigualdades. Quando fica abaixo do patamar esperado, o resultado sugere que as condições e capacidades existentes não estão sendo convertidas em aprendizagem”, afirma Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.

Mas por que ajustar os números?

Comparar o desempenho na educação de um estado rico com o de um mais pobre só faz sentido se levarmos em conta a realidade socioeconômica de cada um.

É mais comum encontrar em São Paulo do que em Roraima, por exemplo, alunos cujas famílias tenham grau de escolaridade elevado e recursos em casa que favoreçam os estudos (internet de qualidade, livros, espaço confortável).

Outro exemplo: no Distrito Federal, 15,6% dos jovens de 15 anos têm pais/mães que estudaram só até o 9º ano. No Piauí, o índice dobra: 30,5%.

“A situação ocupacional dos responsáveis também importa, não apenas pela renda, mas porque ocupações mais estáveis podem significar maior previsibilidade na rotina da família e menor necessidade de que uma criança ou adolescente tenha que assumir trabalho ou responsabilidades domésticas”, diz Smole. “ Há tempo e condições para estudar.”

Tendo esses contextos individuais em vista, como cada estado (contando também o DF) se saiu no Pisa?

Veja abaixo.

Matemática

Pisa de cada estado, considerando nível socioeconômico, em levantamento do Iede — Foto: Arte/g1

  • Ao todo, 21 estados ficaram abaixo do esperado em matemática — a disciplina com o maior número de estados no "vermelho" entre as três avaliadas.
  • O Paraná é o estado que mais superou as expectativas para seu nível socioeconômico, com 15 pontos acima do previsto — o maior destaque positivo do país.
  • Ceará, Minas Gerais e Piauí também tiveram desempenho acima do esperado, considerando seus indicadores socioeconômicos mais baixos do que a média nacional.
  • Roraima apresenta o pior resultado relativo do país: 50,2 pontos abaixo da expectativa.
  • Estados do Norte concentram os piores desempenhos relativos: Roraima, Tocantins, Amapá e Amazonas estão entre as cinco maiores diferenças negativas.

Leitura

Pisa de cada estado em Leitura, considerando nível socioeconômico, em levantamento do Iede — Foto: Arte/g1

  • Paraná lidera com folga: 59 pontos acima do esperado, a maior diferença positiva entre as três disciplinas e estados avaliados.
  • Minas Gerais (+52,9) e Ceará (+49,7) também se destacam bastante acima do previsto para seu contexto socioeconômico.
  • Leitura foi a disciplina com o melhor desempenho relativo do Brasil: a maioria dos estados (24 de 27) superou a expectativa para sua realidade socioeconômica.
  • Apenas três estados ficaram abaixo do esperado: Roraima, Tocantins e Mato Grosso — e com diferenças bem menores do que as observadas em matemática e ciências.
  • Mato Grosso teve a menor diferença negativa entre todas as disciplinas: apenas -1,0 ponto, praticamente dentro do esperado.

Ricardo Henriques, da Fundação Unibanco, afirma que é “fundamental garantir a alfabetização na idade adequada e manter, ao longo de toda a educação básica, o trabalho com interpretação, argumentação e produção de textos”.

“A leitura não é responsabilidade exclusiva da disciplina de Língua Portuguesa: ela é indispensável para compreender um problema matemático, interpretar um experimento científico ou analisar um gráfico.”

Ciências

Pisa de cada estado em Ciências, considerando nível socioeconômico, em levantamento do Iede — Foto: Arte/g1

  • Paraná volta a liderar: 39,8 pontos acima do esperado, seguido por Minas Gerais (+29,6) e São Paulo (+27,3).
  • Roraima tem, mais uma vez, o pior resultado relativo: 40,4 pontos abaixo do esperado.
  • O Distrito Federal, apesar da nota alta em termos absolutos, ficou levemente abaixo do esperado (-0,5).
  • Rio de Janeiro ficou abaixo do esperado em duas das três disciplinas avaliadas, indicando desempenho aquém do que seu perfil socioeconômico sugeriria.
  • Estados do Norte (Roraima, Tocantins, Amapá, Mato Grosso, Amazonas) dominam as piores posições relativas, repetindo o padrão observado em matemática.

O que compõe o indicador socioeconômico?

Como afirmado no início da reportagem, o índice resume três dimensões principais da família do aluno em uma única escala padronizada:

  • Escolaridade dos pais: o maior nível educacional alcançado pelo pai ou pela mãe, convertido em anos estimados de estudo;
  • Status ocupacional: A posição profissional mais alta entre os responsáveis, medida pela escala internacional de status socioeconômico de ocupações (ISEI);
  • Recursos e bens em casa: Uma medida aproximada para a riqueza familiar, que inclui a posse de itens como livros educacionais, espaço próprio para estudar e computadores, além da disponibilidade de acesso à internet.

Comparação em uma década: quais os avanços?

Observando apenas as médias de 2015 e 2025, seria possível afirmar que houve grandes avanços em diversos estados brasileiros.

Mas a conclusão pode ser enganosa: como as amostras de alunos que fazem a prova do Pisa são pequenas, as “margens de erro”, informadas pela OCDE no levantamento, são mais significativas.

“Quando se incorporam os erros-padrão das planilhas oficiais, os intervalos de confiança de 2015 e de 2025 se sobrepõem na grande maioria das comparações apresentadas”, afirma Ernesto Martins, diretor-fundador do Iede e doutor em Educação pela Universidade de Coimbra.

“Isso impede a confirmação estatística de muitas variações que, à primeira vista, parecem expressivas.”

O que é possível concluir sobre avanços e retrocessos dos estados ao longo de uma década, mesmo diante da margem de erro significativa?

O Paraná alcançou 462 pontos em ciências e 458 em leitura. Na pior hipótese, caso os números estejam no patamar mais baixo do intervalo de confiança, o estado conseguiu ultrapassar a faixa dos 450 pontos. É a primeira vez que um estado brasileiro ultrapassa essa marca.

São Paulo ficou acima do esperado no desempenho de 2025, mesmo considerando o nível socioeconômico mais elevado dos estudantes em relação ao resto do país. Mas só é possível constatar que houve uma evolução no intervalo de 10 anos em ciências.

As notas de matemática de 2015 e de 2025, assim como as de leitura, se sobrepõem ao levar em conta a margem de erro. Estatisticamente, pode ter havido melhora, estagnação ou piora nessas duas disciplinas. Não há como saber.

➡️Esse problema estatístico é ainda maior quando se pretende comparar o desempenho da rede privada e da rede pública de um estado. Quando há poucas escolas particulares selecionadas para fazer a prova, “os erros-padrão das médias podem ser extremamente elevados, o que torna a construção de um ranking um problema”, alertam os pesquisadores do Iede.