O risco de brincar de polícia para ganhar votos
O combate ao crime organizado é uma das funções mais importantes do Estado e deve ser exercido por instituições permanentes, submetidas a protocolos, planejamento, inteligência e controle. Por isso, é preocupante quando candidatos oriundos das forças de segurança utilizam a simbologia policial, falam em operações, exibem armas ou apresentam ações de enfrentamento ao crime como parte de sua estratégia de promoção política. O problema não está em defender políticas públicas para a segurança, mas em transformar a imagem da polícia em instrumento eleitoral. Nesse cenário, órgãos de controle internos e externos precisam estar atentos para impedir a confusão entre atividade policial e campanha política.
Casos recentes no Rio Grande do Norte ilustram essa preocupação. O coronel Brilhante, por exemplo, tem construído parte de sua comunicação política associando sua imagem ao enfrentamento direto das facções criminosas. O discurso pode gerar repercussão eleitoral, mas pouco contribui para o combate efetivo ao crime, que depende de instituições estruturadas e não da atuação individual de candidatos. Quando a lógica da segurança pública passa a se confundir com a lógica da disputa eleitoral, abre-se espaço para ruídos institucionais que enfraquecem tanto a política quanto a própria polícia.
A discussão torna-se ainda mais relevante diante da tragédia envolvendo o vereador Cabo Deyvison. Embora policial de formação, ele atua atualmente como vereador e não possui a incumbência operacional, o planejamento institucional nem a estrutura de proteção das forças de segurança para realizar ações de enfrentamento ao crime. Quando agentes políticos afastados das funções policiais passam a desempenhar, na prática, atividades que se aproximam de operações de segurança, sem a cobertura institucional adequada, criam-se riscos para si próprios e para terceiros. O atentado que vitimou seu assessor demonstra que essa fronteira precisa ser melhor delimitada. Segurança pública deve ser feita pela polícia; política deve ser feita nas instituições democráticas. Misturar as duas coisas é um erro que pode custar caro para todos.