O quebra-cabeça Fátima-Zenaide só faz sentido quando se olha para 2024
O atual distanciamento político entre a governadora Fátima Bezerra e a senadora Zenaide Maia não surgiu de uma divergência repentina em 2026. Na verdade, trata-se de um processo político que começou a ganhar forma ainda antes das eleições municipais de 2024, quando diferentes grupos passaram a fazer apostas distintas sobre como seria o cenário eleitoral potiguar dois anos depois.
Naquele momento, o PT concentrou seus esforços na construção de uma ampla aliança envolvendo MDB e PSDB. O objetivo não era apenas ampliar o número de prefeitos aliados no estado, mas também estruturar antecipadamente uma chapa competitiva para 2026. A lógica era clara: Walter Alves assumiria protagonismo na disputa pelo Governo do Estado, enquanto Fátima Bezerra e Ezequiel Ferreira ocupariam as vagas ao Senado. Dentro dessa engenharia política, não havia espaço para a reeleição de Zenaide Maia, algo que foi percebido pela própria senadora desde então.
Diante desse cenário, o PSD adotou uma estratégia própria. Sem integrar o núcleo central da aliança construída pelo PT, o partido passou a investir no fortalecimento de sua estrutura municipal. A meta era ampliar o número de prefeitos, fortalecer a legenda e criar as condições necessárias para sustentar a candidatura de Zenaide à reeleição em 2026. Foi uma aposta baseada na autonomia política e na construção de um caminho alternativo ao desenho que estava sendo elaborado pelo grupo governista que impediria a manutenção do mandato de Zenaide.
Os primeiros sinais concretos desse afastamento puderam ser observados em São Gonçalo do Amarante. Sem perspectiva de um acordo que garantisse apoio futuro à reeleição de Zenaide, os grupos começaram a se distanciar. O então prefeito Eraldo Paiva promoveu mudanças administrativas que atingiram diretamente o grupo do ex-prefeito Jaime Calado, principal liderança do PSD no município. A partir dali, as pontes políticas ficaram cada vez mais frágeis e o PSD passou a caminhar de forma independente.
Ocorre que a realidade política não seguiu exatamente o roteiro imaginado pelos articuladores de 2024. Max Weber nos ensinou que as ações, por mais arquitetadas, sempre geram consequências impremeditadas. O PT não conseguiu ampliar sua presença municipal na dimensão esperada. O MDB, que era peça fundamental do projeto para 2026, rompeu posteriormente com o governo. Já o PSDB passou a adotar uma postura mais autônoma, abandonando o alinhamento automático que marcou parte dos anos anteriores. Tanto que, atualmente, o apoio tucano ao projeto governista para 2026 ainda não é garantido.
Enquanto isso, Zenaide já construía alternativas. A senadora iniciou uma aproximação gradual com o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, que despontava como uma das principais forças emergentes da política potiguar. A relação foi fortalecida por meio de investimentos e emendas parlamentares destinadas ao município, contribuindo para obras e equipamentos públicos que ampliaram a conexão política entre ambos. Quando 2026 chegou, essa parceria já estava consolidada, tornando Zenaide a principal opção ao Senado dentro do campo liderado por Allyson. Existiu, é verdade, quem quisesse diálogo entre o PT e Allyson, mas a especulação não avançou.
Foi nesse contexto que o PT voltou seus olhos para a senadora. Com a saída do MDB do bloco governista e a desistência de Ezequiel Ferreira de disputar o Senado, Zenaide voltou a ser vista como uma alternativa importante para compor a chapa majoritária ao lado de Fátima Bezerra. Mas, naquele momento, a conjuntura já era outra. O movimento que começou em 2024 havia amadurecido, novos compromissos haviam sido assumidos e novas alianças já estavam estabelecidas.
Por isso, talvez seja equivocado interpretar esse processo sob a lógica da traição ou da ruptura pessoal. O que ocorreu foi um desencontro de expectativas políticas. Cada grupo avaliou de maneira distinta qual seria sua posição de força em 2026 e tomou decisões estratégicas a partir dessa leitura. O PT acreditou que conseguiria construir uma ampla frente capaz de definir antecipadamente a sucessão estadual com o MDB e o PSDB. Tanto que, cabe lembrar, que este grupo comemorou os mais de 100 prefeitos eleitos em 2024. Zenaide, por sua vez, apostou na construção de uma alternativa própria e buscou consolidar sua viabilidade eleitoral fora daquele arranjo.
No final das contas, não há necessariamente culpados nessa história. Há apenas a dinâmica própria da política, em que alianças são construídas com base em expectativas futuras e onde diferentes atores fazem cálculos distintos sobre o caminho mais seguro para alcançar seus objetivos. O afastamento entre Fátima Bezerra e Zenaide Maia é menos resultado de um rompimento e mais consequência de escolhas estratégicas feitas por ambas as partes quando o tabuleiro de 2026 ainda estava sendo montado.