• Redação
  • 04/06/2026

O Efeito Bumerangue: Como a inabilidade de Trump virou o melhor jingle de Lula

Por Ricardo Valentim 

Professor Titular da UFRN 

Diz a velha máxima da geopolítica que os Estados Unidos não têm amigos, têm interesses. Mas o que Donald Trump parece não ter calculado ao disparar seu novo "tarifaço" de 25% e mirar seus canhões regulatórios contra o Pix é que, na política latino-americana, o inimigo externo é o melhor cabo eleitoral que um líder popular pode desejar. Ao tentar enquadrar o Brasil com táticas atabalhoadas, Washington acabou de redigir, de graça, o primeiro capítulo do roteiro de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

A ironia é fina e quase literária, mas reflete o desespero de um líder americano encurralado. Trump vem de uma derrota acachapante no Irã. O conflito militar que ele inflamou no Oriente Médio não trouxe a vitória rápida prometida; trouxe, sim, mísseis iranianos, o fechamento de rotas energéticas e um rastro de destruição econômica global.

O preço dessa inabilidade política estourou diretamente no bolso do eleitor americano.

A inflação nos Estados Unidos bateu o teto, puxada pelo preço abusivo dos alimentos e pela explosão na bomba de combustíveis. Com a popularidade em queda livre e o próprio Congresso americano — inclusive com parlamentares do seu próprio partido — votando para limitar seus poderes de guerra, Trump precisava desviar o foco de seu fiasco doméstico.

Do Irã ao Pix: Sem saída na crise que ele mesmo criou no Oriente Médio, Trump recorreu ao velho manual do valentão isolacionista: tentar emparedar parceiros comerciais históricos para fingir força interna.

Foi nesse cenário de fragilidade que a Casa Branca decidiu aplicar a Seção 301 para retalhar produtos brasileiros e assinar um relatório acusando o Banco Central de "discriminação" por proteger a gratuidade do Pix. Para Trump, era uma tentativa de acenar ao lobby das operadoras de cartão americanas. Para Lula, o erro de cálculo de Trump foi um banquete político entregue de bandeja, embrulhado em fita verde e amarela.

O contra-ataque de Brasília não demorou 24 horas. Na reunião ministerial, a frase "O PIX é do Brasil" estampava o telão como um escudo soberano. Ali, Lula não era apenas o presidente lidando com burocracia aduaneira; era o guardião do maior instrumento de inclusão bancária da história recente do país contra o estrebuchar de uma potência ferida e inflacionária. Quer palanque melhor para quem sabe navegar nas águas do nacionalismo do que defender a ferramenta que o cidadão usa todo santo dia contra a interferência de um governo estrangeiro que perdeu o controle da própria economia?

Ao personificar a ameaça na agressividade tarifária de uma Casa Branca desgastada, a oposição brasileira ficou encurralada em uma armadilha retórica perversa. Como criticar a reação de Lula sem parecer que está defendendo o interesse de um Trump enfraquecido, que quer repassar o custo de suas trapalhadas no Irã para o mercado brasileiro?

Trump jogou xadrez com as regras do boxe e errou o soco. O nacionalismo, quando provocado de fora por quem demonstra fraqueza dentro de casa, funciona como um cimento social poderoso. Se a economia brasileira vinha tateando caminhos difíceis por conta dos respingos daquela mesma crise do petróleo, Trump ofereceu a Lula a narrativa perfeita: o culpado pela turbulência é o erro de cálculo americano, e a solução é a resistência soberana. O presidente norte-americano queria impor uma punição para salvar a própria pele, mas acabou entregando a Lula a bandeira, o mote e o combustível exato para marchar rumo às urnas.