• Redação
  • 30/07/2026

O que foi a Guerra do Paraguai e por que a fala de Lula tocou em trauma do conflito mais sangrento da América do Sul

G1 - O governo paraguaio convocou o embaixador do Brasil em Assunção nesta quinta-feira (30) para entregar uma nota relacionada às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança — conflito que dizimou cerca de 70% da população do Paraguai.

Na última sexta-feira (24), Lula fez um discurso em Jacareí (SP) defendendo investimentos para a defesa nacional. Ele afirmou que o Brasil gosta de paz, mas que não poderia se esquecer da Guerra do Paraguai, no século 19.

"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", afirmou.

🔎 A convocação de um embaixador é um instrumento diplomático usado por governos para manifestar formalmente insatisfação ou pedir esclarecimentos sobre declarações e ações de outro país.

O conflito citado é considerado um dos episódios mais sangrentos da história da América do Sul.

O presidente Lula durante cerimônia em Brasília, em 22 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Adriano Machado

O que foi a Guerra do Paraguai?

A Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, foi o maior conflito armado da história da América do Sul. Travada entre 1864 e 1870, ela colocou o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.

O conflito começou em meio a disputas políticas na região do Rio da Prata. Em 1864, o governo brasileiro interveio militarmente no Uruguai durante uma guerra civil no país vizinho. O então ditador paraguaio, Francisco Solano López, considerou a ação uma ameaça ao equilíbrio regional e reagiu apreendendo um navio brasileiro e declarando guerra ao Brasil.

Meses depois, tropas paraguaias invadiram territórios que reividicavam que hoje fazem parte de Mato Grosso do Sul e avançaram também sobre áreas da Argentina. Em resposta, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram, em maio de 1865, o Tratado da Tríplice Aliança, comprometendo-se a combater o Paraguai até a derrota de López.

A guerra se estendeu por quase seis anos e teve algumas das batalhas mais sangrentas da história do continente, como Tuiuti, em 1866. Apesar de sucessos militares iniciais, os paraguaios passaram a sofrer sucessivas derrotas à medida que o conflito avançava.

Em janeiro de 1869, tropas brasileiras ocuparam Assunção, a capital paraguaia. Mesmo assim, Solano López continuou a resistência no interior do país até ser morto em Cerro Corá, em 1º de março de 1870, episódio que marcou o fim da guerra.

As consequências foram especialmente severas para o Paraguai. Além da destruição de boa parte da infraestrutura do país e da perda de territórios, o conflito provocou uma grave crise demográfica.

Corpos de paraguaios mortos durante a guerra empilhados no campo, em imagem de 1866 — Foto: Fundação Biblioteca Nacional

A estimativa de de mortos foi de:

  • Uruguai: 3120 mortos;
  • Argentina: 18 mil mortos;
  • Brasil: 50 mil mortos.

No caso do Paraguai, não há um concenso do saldo de mortos, no entanto, acredita-se que cerca de 150 mil paraguaios foram mortos no conflito — equivalente de 60% a 70% da população do país.

Crise diplomática

Após as declarações de Lula, o chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, afirmou que o governo defenderá a "dignidade" e os interesses nacionais diante das falas do presidente brasileiro. Segundo ele, o tema também foi discutido em uma conversa por telefone entre o presidente do Paraguai, Santiago Peña, e o chefe de Estado brasileiro.

Em entrevista coletiva, Ramírez Lezcano afirmou que o governo compartilha o sentimento da população paraguaia diante de um episódio "tão sensível" da história do país.

"A dignidade do Paraguai não é negociável. Quero que saibam que, sob a liderança do Presidente Santiago Peña, abordamos esta questão ao mais alto nível desde o início", afirmou.

O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, durante coletiva de imprensa — Foto: Governo do Paraguai

Na quarta-feira (29), a Câmara dos Deputados do Paraguai emitiu uma declaração oficial para repudiar a fala de Lula. Segundo o documento, as declarações do presidente "distorcem e minimizam" a dimensão histórica do conflito.

Em nota, o órgão afirma que o presidente "desconhece a complexidade dos antecedentes do conflito, o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio" e as consequências geradas pela guerra.

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