O Gigante que Teima em Respirar
Ricardo Valentim
Professor titular da UFRN e cofundador do LAIS
Dizem que o Brasil é o país do futuro, uma promessa eterna que insiste em não vencer o prazo de validade. Olhar para os indicadores econômicos por aqui é quase como assistir a um drama de TV em horário nobre: há vilões claros, falsos heróis e reviravoltas que deixam os especialistas de cabelo em pé.
Nos dias atuais, o debate econômico ferve, mas nós ousamos olhar um pouco mais além. Em nossa previsão, projetamos uma taxa Selic alcançando os 13,25% até dezembro de 2026. Para os arautos do caos, os eternos apostadores do "quanto pior, melhor", esse horizonte desenha um cenário em que o tiro sairá pela culatra. Quem aposta no colapso total vai errar. O Brasil teima em não quebrar.
Mas que ninguém na Esplanada dos Ministérios ouse inflar o peito para reivindicar os louros. Se a inflação finalmente dá sinais de desaceleração, o mérito passa longe das canetadas de quem governa. O recuo dos preços não é troféu de política pública; é o resultado de fatores macroeconômicos globais e da dinâmica implacável de um mercado que opera à revelia dos discursos oficiais. O governo, na verdade, assiste a tudo do banco do passageiro, enquanto tenta colar seu adesivo no painel.
Desenhar uma taxa de juros na casa dos 13,25% para o futuro é o equivalente a prever que a febre do paciente vai baixar, mas ele continuará na UTI. Juro alto ainda queima, machuca o crédito, freia o microempresário e pune quem tenta produzir. O Banco Central é obrigado a manter o pé no freio de mão exatamente porque o apetite gastador do governo e a irresponsabilidade fiscal não dão trégua. Enquanto Brasília gasta o que não tem, o cidadão comum equilibra-se na corda bamba para fechar as contas do mês.
O verdadeiro drama do Brasil é político e cultural. Somos um gigante territorial, rico e com uma capacidade de produção invejável, mas terrivelmente mau cuidado.
Quem nos governa — seja qual for o lado do tabuleiro — e quem se senta nas cadeiras estofadas do Congresso parecem empenhados em uma tarefa cruel: impor ao povo uma crônica baixa estima. Legisla-se olhando para o próprio bolso. Discute-se o orçamento público como quem divide um espólio entre amigos, deixando a conta fiscal para os pagadores de impostos. A política brasileira vira as costas para a grandeza do país para se lambuzar no varejo das pequenas vantagens, das emendas paroquiais e do fisiologismo puro.
Fatores macroeconômicos e a força bruta de quem trabalha insistem em determinar o destino do Brasil, salvando-o de si mesmo. Apostar contra o país é errar porque a engrenagem real é movida por quem acorda cedo para produzir, ignorando o ruído e a incompetência que emanam da capital.
O gigante continua caminhando. Um pouco manco, cansado da autossabotagem de seus líderes, mas firme. Que venha o fim de 2026. Entre as nossas projeções e os políticos pequenos, o Brasil segue insistindo em dar certo — por puro milagre e teimosia.