O Espelho Partido: Um filme sobre Bolsonaro é a biografia do homem ou a autópsia do bolsonarismo?
Por Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN e cofundador do LAIS
Existe uma velha máxima que diz que o cinema é uma máquina de empatia. Vamos à sala escura para nos projetarmos no outro, para buscar inspiração, beleza ou uma lição edificante que nos faça sair do teatro flutuando alguns centímetros acima do asfalto. Se pensarmos a sétima arte apenas por essa fresta, a ideia de um filme sobre Jair Bolsonaro parece um deserto completo. Afinal, o que haveria ali de cultural, de educativo ou de minimamente inspirador?
Olhando friamente para o roteiro da realidade, a resposta imediata seria: nada.
Uma cinebiografia tradicional exigiria a clássica "jornada do herói", mas aqui o que temos é a crônica do baixo clero. Como filmar a mediocridade de um deputado que passou quase três décadas na sombra do poder, cujo projeto mais ruidoso não foi uma lei de impacto social, mas a confissão escancarada de que usava o auxílio-moradia para "comer gente" — como ele mesmo disparou, sem pudores, em uma célebre entrevista à [Folha de S.Paulo] em 2018? Esse abuso é o anticlímax da política.
Saltando para os anos de Alvorada, o roteiro ganharia tintas de filme de terror ou de um drama distópico. Como traduzir em película o isolamento de um pária internacional? Como encenar o negacionismo que transformou a maior crise sanitária do século em um cemitério a céu aberto, travando uma guerra quixotesca (e cruel) contra a ciência, as vacinas e a imprensa livre? O que há de pedagógico em filmar os ataques repetidos à democracia, as tentativas de sufocar as instituições e o flerte constante com o autoritarismo?
Para quem busca a luz, esse filme seria a mais pura escuridão. Seria, talvez, o retrato do maior estelionato religioso da história recente do país, onde o nome de Deus foi arrastado para o lamaçal da intolerância e do armamentismo, subvertendo qualquer noção de transcendência em nome de um projeto de poder terreno e brutal.
E, no entanto, é precisamente por isso que esse filme precisa existir. Mas não da forma como muitos imaginam.
> O cinema não é apenas uma fábrica de sonhos, de ideias e de inspiração; ele é, fundamentalmente, o espelho da nossa história. Quando olhamos para obras-primas como A Queda (sobre os últimos dias de Hitler), O Ditador (sobre Idi Amin) ou Vice (sobre as engrenagens cinzentas de Dick Cheney), não vamos para o cinema esperando sair inspirado pelo protagonista — não mesmo. Entramos para entender como o impensável se tornou realidade.
Um filme sobre esse período não deveria ser sobre o homem em si — cuja biografia se esgota na própria pequenez —, mas sobre o bolsonarismo. O verdadeiro protagonista de uma obra dessas seria o Brasil. O filme não seria uma biografia; seria uma autópsia social.
Ele nos forçaria a olhar para a tela e perguntar: Como nós, como sociedade, permitimos isso? Que fraturas históricas, que ressentimentos guardados e que ilusões coletivas nos fizeram abraçar o absurdo?* Bolsonaro não nasceu no vácuo; ele foi o sintoma de um mal-estar reprimido que encontrou voz e eco no ecossistema das redes sociais e da desinformação estruturada.
O valor cultural e educativo de uma obra assim não reside no exemplo do personagem, mas no antídoto da memória. Em tempos de esquecimento rápido, algoritmos viciantes e pós-verdade, a arte tem o dever moral de documentar o colapso. Ela serve para que o horror não vire folclore e para que o retrocesso não seja romantizado pela poeira do tempo.
Portanto, o que resta para o cinema no rastro do absurdo? Resta o desconforto da verdade. Não nos traria inspiração, mas nos traria algo muito mais urgente e vital para a sobrevivência de uma nação: o choque de realidade necessário para que o espelho nunca mais volte a quebrar daquele mesmo jeito.