• Redação
  • 17/05/2026

Escândalo do Master reforça o que rachadinhas já mostravam: corrupção não afasta eleitor bolsonarista de Flávio Bolsonaro

ESCÂNDALO DO MASTER NO CORAÇÃO DO BOLSONARISMO

O caso envolvendo o Banco Master começa a desenhar, de forma cada vez mais explícita, uma verdade política que já havia aparecido no episódio das rachadinhas: o núcleo duro do bolsonarismo não se move pela pauta da corrupção. O escândalo atingiu diretamente figuras centrais da direita brasileira. Flávio Bolsonaro aparece associado a pedidos de recursos em condições profundamente problemáticas, enquanto o entorno político ligado ao bolsonarismo e ao Centrão surge conectado ao ambiente político e financeiro que cercava o Master. Ao mesmo tempo, governadores e prefeitos ligados à direita ou ao Centrão colocaram recursos de previdências públicas no banco. Paralelamente, setores da direita pressionavam o Banco Central para liberar a operação envolvendo a venda do Master para o BRB justamente quando surgiam investigações e questionamentos sobre o caso.

As digitais políticas ficaram espalhadas por toda parte. O escândalo deixou de ser uma narrativa abstrata para se transformar num episódio que alcança diretamente o coração do bolsonarismo. E ainda assim, nada indica ruptura interna relevante. Pelo contrário. A tendência é que Flávio Bolsonaro continue preservado dentro do eleitorado bolsonarista mais fiel, exatamente como ocorreu no caso das rachadinhas. Isso porque o eleitorado ideológico do bolsonarismo não organiza sua identidade política em torno do combate à corrupção. O eixo central da mobilização bolsonarista sempre foi outro: guerra cultural, ressentimento social e enfrentamento identitário.

NUNCA FOI SOBRE CORRUPÇÃO

O que mantém coesa a base bolsonarista não é uma agenda ética, mas a sensação de pertencimento a uma cruzada cultural contra feminismo, universidades, imprensa, políticas de cotas, direitos LGBT e mecanismos de ascensão social dos setores mais pobres. Há também uma defesa recorrente de modelos sociais conservadores e hierarquizados, além de um forte discurso antipolítica tradicional que paradoxalmente convive sem maiores traumas com práticas típicas do velho sistema político quando elas envolvem aliados do grupo. Por isso, denúncias financeiras, suspeitas de favorecimento ou escândalos bancários produzem menos erosão do que analistas tradicionais imaginam.

JAIR BOLSONARO MANTERÁ ESPÓLIO DA DIREITA

O caso Master ajuda justamente a evidenciar isso. Mesmo atingido politicamente, Flávio Bolsonaro continua funcional para Jair Bolsonaro. O ex-presidente precisa manter o controle do espólio político da extrema direita e impedir o surgimento de uma liderança autônoma que substitua o seu núcleo familiar. Ainda que desgastado, Flávio mantém viabilidade eleitoral suficiente para disputar espaço competitivo e eventualmente chegar a um segundo turno ancorado na força identitária do bolsonarismo. Dentro desse arranjo, ele se torna praticamente insubstituível.

É exatamente aí que o episódio ganha importância histórica. O escândalo do Master pode acabar consolidando definitivamente uma percepção que já vinha sendo construída desde as rachadinhas: para o núcleo duro bolsonarista, corrupção não é um critério decisivo de ruptura política. O pertencimento ideológico e a guerra cultural pesam mais do que qualquer denúncia financeira. E isso explica por que, mesmo cercado por suspeitas e desgastes, Flávio Bolsonaro dificilmente perderá o apoio estrutural da base mais radicalizada do bolsonarismo.