• Redação
  • 03/05/2026

Messias rejeitado: erro institucional ou demonstração de força?

A rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo não é um fato isolado. É um sinal claro de que o eixo de poder no Brasil mudou e mudou de forma profunda.


Ao classificar a decisão como “grave equívoco institucional”, Celso de Mello expressa uma visão que parte de uma lógica mais tradicional, onde critérios técnicos deveriam prevalecer. O problema é que a política brasileira já não opera apenas nesse campo. Hoje, o que está em jogo é força, e quem a exerce.


O Congresso Nacional deixou de ser coadjuvante. Com o avanço das emendas impositivas, passou a controlar orçamento, território e, principalmente, autonomia. Isso muda o comportamento. Parlamentares já não dependem exclusivamente do Executivo e, por isso, passaram a impor condições, inclusive em decisões que antes eram quase protocolares, como indicações ao STF.


O caso Messias, nesse contexto, não é ruptura. É consequência.


Mas há um elemento novo, e preocupante nesse cenário: a aparente contradição entre discurso e prática. Setores da extrema direita, que historicamente se posicionam contra determinados arranjos políticos, têm, na prática, se adaptado ao jogo das negociações quando isso interessa. Episódios recentes envolvendo disputas econômicas e institucionais, como o caso do Banco Master, revelam que, no fim, a lógica do poder tende a se sobrepor à retórica.


E isso nos leva a um ponto ainda mais sensível.


Quando o controle político avança sobre instituições-chave, como o Supremo, abre-se espaço para um risco maior: o uso de instrumentos extremos, como o impeachment, não como resposta institucional legítima, mas como ferramenta de pressão ou domínio. A história mostra que, quando há tentativa de captura total das cortes por interesses políticos, o sistema entra em zona de instabilidade.


Não se trata de um cenário hipotético distante. Trata-se de um limite real.


O Brasil vive hoje uma transição silenciosa para um modelo onde o Legislativo concentra poder orçamentário, capacidade de veto e influência institucional. Isso, por si só, não é um problema. O problema surge quando esse poder passa a ser exercido sem freios claros, orientado mais por conveniência política do que por responsabilidade institucional.


A rejeição de Messias é apenas o sintoma mais visível.


A questão central é outra:

até onde esse novo arranjo de poder está disposto a ir?


Porque, quando a política deixa de reconhecer limites institucionais, o risco não é apenas de conflito entre Poderes, é de erosão do próprio equilíbrio


Thiago Medeiros é sociólogo