'Grupo de Moraes' abre 4 frentes contra Mendonça
SBT - A reação de autoridades alinhadas a Alexandre de Moraes contra André Mendonça envolve uma série de articulações de bastidores, mas já acumula quatro atos formais nos últimos dias, capitaneados pelo próprio Moraes, pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e pelo decano do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes.
As iniciativas se sucederam após Mendonça determinar à Polícia Federal a identificação de interlocutores do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e tornar público um relatório da Polícia Federal de 218 páginas que revelou uma relação entre Vorcaro e Moraes mais ampla do que a conhecida até então.
A primeira ofensiva direta de Moraes ocorreu quando ele usou o inquérito das Fake News, aberto em 2019 e relatado por ele, para encaminhar ao presidente do STF, Edson Fachin, acusações de que Mendonça teria cometido improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade.
Moraes se baseou em relatório de inteligência da PF que não é assinado, não tem peso probatório e que inclui uma série de conjecturas classificadas pela própria PF como de grau de confiabilidade alta, moderada e baixa.
Com base nesse documento –que é uma análise de cenário de consumo interno da PF–, Moares adotou uma atitude atípica e embasou sua decisão contra o colega, o acusando de ter, em tese, usurpado a prerrogativa investigativa da PF e selecionado alvos, entre eles o próprio Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Fachin retirou a decisão e seus anexos do inquérito das Fake News e os transferiu para uma petição autônoma, sob sua relatoria.
A segunda e terceira frentes foram abertas pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, que é alinhado a Moraes e que também figura nas mensagens de Vorcaro relevadas por Mendonça.
Em parecer assinado na noite de terça-feira (1º), Gonet pediu a nulidade do relatório de 218 páginas e a extinção da PET aberta por Mendonça para tratar dos elementos encontrados pela PF.
O procurador-geral afirmou que Mendonça já sabia que Moraes era o suposto destinatário das mensagens de Vorcaro e que impôs uma investigação sobre o colega sem iniciativa da PF ou do Ministério Público e sem prévia autorização do plenário do STF.
“Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”, escreveu, dizendo ainda que o magistrado não pode usar a polícia judiciária como sua “longa manus”.
Nesta sexta-feira (4), Gonet comunicou a Fachin que instaurou um Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial para examinar como a PF produziu o relatório solicitado por Mendonça.
Segundo a comunicação, a PGR quer esclarecer se houve “ordem ou interferência externa” na elaboração do documento.
Formalmente, nem Mendonça nem policiais são investigados, mas nos bastidores o ato foi visto como uma forma de construção de um documento probatório mais sólido contra Mendonça, diante da evidente fragilidade do relatório de inteligência da PF usado por Moraes.
Neste sábado (5) foi a vez de Gilmar Mendes, decano do STF e também próximo a Moraes, apresentar proposta formal de alteração do Regimento Interno do STF para proibir militares e integrantes das carreiras policiais de exercer cargo ou função nos gabinetes dos ministros. A exceção seria apenas para atividades de segurança.
O texto proíbe expressamente a participação desses servidores na instrução de inquéritos e processos e em atividades de assessoramento jurídico.
Também determina que Fachin providencie o “imediato retorno aos órgãos de origem” dos servidores que hoje estiverem em desacordo com a regra.
A proposta vale para todos os gabinetes, mas o objetivo é atingir especialmente a equipe de Mendonça.
Há dois delegados cedidos pela PF assessorando diretamente Mendonça no STF, Thiago Marcantonio Ferreira e Graziela Machado da Costa e Silva.
Thiago foi nomeado assessor do ministro em outubro de 2025. Antes disso, ele já havia trabalhado com Mendonça no Ministério da Justiça em 2020.
Graziela é delegada da PF e foi cedida ao STF em abril de 2022. Dias depois, foi nomeada assessora de ministro no gabinete de Mendonça.
Mendonça relata hoje as principais investigações com potencial de impacto nas eleições: além do caso Master, as suspeitas em torno do filme Dark Horse, as fraudes no INSS e dois inquéritos que miram suposto tráfico de influência envolvendo o filho mais velho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
A regra sobre policiais federais em gabinetes de ministros também atingiria Moraes. Ele tem em seu gabinete o delegado Fábio Shor, que trabalhou nas investigações da trama golpista e do 8 de Janeiro e foi nomeado assessor de seu gabinete em março deste ano a pedido do próprio ministro.

Presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, na sessão de encerramento do primeiro semestre de 2026 | Divulgação/Rosinei Coutinho/STF