Flávio citou Lula 16 vezes na Globo; presidente não mencionou o rival
As duas sabatinas dos principais candidatos à presidência da República na TV Globo revelaram estratégias distintas na forma de tratar o adversário. Enquanto Flávio Bolsonaro (PL) mencionou Lula nominalmente 16 vezes durante sua entrevista de sexta-feira (28), o presidente não citou o nome do concorrente nenhuma vez na sabatina de quinta-feira (27).
O levantamento do Congresso em Foco considera apenas as falas dos próprios candidatos durante as entrevistas, sem contabilizar menções feitas pelos jornalistas. Na sabatina de Lula, "Flávio Bolsonaro" aparece uma vez, mas na apresentação feita pela Globo para informar quem seria o entrevistado do dia seguinte. O petista não pronunciou o nome de Flávio durante suas respostas.
Na entrevista do candidato do PL, as 16 referências a Lula partiram do próprio Flávio e apareceram em diferentes momentos dos 40 minutos de sabatina. O presidente foi citado em discussões sobre o Banco Master, o julgamento de Jair Bolsonaro, as urnas eletrônicas, o tarifaço dos Estados Unidos e a situação das contas públicas.
Flávio cita Lula 16 vezes na Globo; presidente não menciona rival.TV Globo
Resposta sobre o Master
A primeira sequência de menções ocorreu quando Flávio era pressionado a explicar sua relação com Daniel Vorcaro e os recursos destinados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
Ao defender a criação de uma CPMI para investigar o Banco Master, Flávio tentou deslocar o foco de sua relação com o banqueiro para os contatos de Vorcaro com integrantes do atual governo.
"Agora, qual é a sua relação com o Lula? Qual é a sua relação com o Jaques Wagner? Qual é a sua relação com o Galípolo?", disse, ao simular as perguntas que gostaria que fossem feitas ao banqueiro.
Na mesma resposta, voltou a mencionar Lula ao falar de uma reunião envolvendo Vorcaro e integrantes do governo e ao citar a troca no comando do Banco Central.
O caso Master foi justamente um dos assuntos centrais das duas entrevistas. No dia anterior, Lula havia sido questionado sobre Jaques Wagner e defendido o aliado, afirmando que não havia prova de seu envolvimento em irregularidades. Mesmo ao tratar do tema, porém, não fez qualquer referência a Flávio Bolsonaro.
STF e condenação de Bolsonaro
Lula voltou a aparecer nas respostas de Flávio quando a sabatina passou à condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado.
O candidato do PL contestou a imparcialidade do julgamento do pai e associou ao presidente ministros que participaram da condenação.
Ao falar de Flávio Dino, destacou que o ministro foi "indicado pelo Lula". Na sequência, fez o mesmo com Cristiano Zanin, lembrando que ele foi advogado do petista antes de chegar ao Supremo.
"Você acha que isso foi um julgamento justo?", questionou.
Flávio voltou a citar o presidente ao contestar o depoimento de um dos antigos comandantes das Forças Armadas, dizendo que o militar "hoje está pedindo voto por Lula".
Em outra resposta, ao defender a possibilidade de anistia para condenados pelos atos contra o Estado Democrático de Direito, mencionou Lula ao recorrer às discussões da Assembleia Constituinte de 1987 e 1988.
Tarifaço concentra ataques
Foi durante as perguntas sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos que a comparação com o atual presidente ganhou maior espaço.
Questionado sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e sobre o fato de o irmão ter comemorado inicialmente as medidas de Donald Trump, Flávio tentou atribuir a Lula parte da responsabilidade pelo tarifaço.
"As empresas brasileiras, que já são as mais tarifadas do mundo pelo próprio governo Lula", afirmou.
Em seguida, tornou o ataque mais direto. "Essa sobretaxa foi o Lula que cavou com força. O Lula procurou muito essa tarifa. Ele xingou, ele ameaçou, ele conseguiu. Parabéns, Lula, você conseguiu tarifar as empresas brasileiras."
Flávio também criticou a atuação diplomática do governo e afirmou que ele próprio havia ido aos Estados Unidos defender empresas nacionais.
"O governo Lula não mandou umzinho para fazer a defesa no momento adequado", disse.
Na mesma sequência, voltou a mencionar o adversário ao relatar os argumentos que teria apresentado às autoridades americanas para pedir a retirada das tarifas. Segundo Flávio, Lula estaria "provocando" os Estados Unidos e tentando extrair vantagem eleitoral do conflito.
Economia também vira comparação
O nome do presidente voltou à entrevista quando a Globo questionou Flávio sobre como pretende estabilizar e reduzir a dívida pública caso seja eleito.
O candidato atribuiu o cenário fiscal ao governo atual e acusou o petista de ampliar despesas.
"Hoje o Lula aumentou a dívida primária do Brasil em mais de R$ 330 bilhões", afirmou, antes de classificar o cenário como uma "gastança sem precedentes".
Além das referências nominais, Flávio utilizou diversas vezes expressões como "atual governo", "governo Lula" e referências indiretas ao presidente para apresentar suas propostas em oposição à atual administração.
Lula preferiu Bolsonaro, sem Flávio
Na noite anterior, a estratégia de Lula foi diferente. Embora tenha sido pressionado sobre investigações envolvendo o próprio filho, aliados e integrantes de seu governo, o presidente não transformou Flávio em personagem de suas respostas.
Isso não significa que Lula tenha evitado completamente o campo bolsonarista.
Ao discutir a economia, por exemplo, referiu-se ao governo anterior e mencionou ter convivido nos primeiros anos de seu terceiro mandato com o presidente do Banco Central escolhido durante o governo de Jair Bolsonaro. Em outros momentos, criticou a administração que o antecedeu sem necessariamente citar o ex-presidente nominalmente.
Mas Flávio Bolsonaro, seu concorrente direto na eleição, não foi mencionado uma única vez pelo presidente durante as respostas.
Lula concentrou boa parte da entrevista em defender sua própria administração e responder às perguntas sobre Fábio Luís Lula da Silva, o escândalo do INSS, o Banco Master, Jaques Wagner, dívida pública, Correios, educação e segurança.
Também recorreu repetidamente à Lava Jato para explicar por que, segundo ele, pessoas investigadas não devem ser consideradas culpadas antes do fim dos processos. Nesse contexto, atacou Sergio Moro e Deltan Dallagnol e chegou a entrar em confronto com os entrevistadores ao acusar a imprensa de ter "comprado" e "vendido" mentiras contra ele.
Duas estratégias para a disputa
A diferença na quantidade de citações oferece um retrato das estratégias adotadas nas duas sabatinas.
Lula utilizou seu tempo principalmente para defender o histórico dos próprios governos, rebater acusações e apresentar propostas para um quarto mandato. Mesmo diante de oportunidades para comparar sua candidatura diretamente à de Flávio, evitou citar nominalmente o adversário.
Flávio seguiu caminho oposto. O candidato do PL transformou Lula em referência recorrente para explicar problemas do país e defender sua própria candidatura. O petista apareceu tanto nas respostas relacionadas às controvérsias envolvendo o próprio Flávio e Jair Bolsonaro quanto nas discussões sobre política externa e economia.
A diferença ficou ainda mais explícita nas considerações finais. Sem mencionar Lula pelo nome, Flávio pediu que o eleitor avaliasse se a vida melhorou nos últimos quatro anos e apresentou a eleição como uma escolha pela mudança.
"Você pode não concordar com muita coisa que eu falo, você pode ter alguma desconfiança com relação ao que eu vou fazer no meu governo, mas do lado de lá você sabe e tem 100% de certeza que vai dar errado", afirmou.
Lula, um dia antes, encerrou a entrevista falando de seu próprio legado e do que pretende fazer caso conquiste um quarto mandato, com destaque para educação, tecnologia e produção de conhecimento. Flávio, novamente, ficou fora do discurso.