Fábio Faria, "o cara do Vorcaro"
Revista Piauí
Por Breno Pires e João Batista Jr
Em outubro de 2023, menos de um ano depois de deixar o governo de Jair Bolsonaro, o ex-ministro Fábio Faria, que ocupou a pasta das Comunicações, fez uma viagem a Paris que teve largas consequências. Na capital francesa, ele participou de um evento do Esfera Brasil, instituto criado pelo lobista João Camargo, com o objetivo de reunir empresários, juristas, advogados, políticos e quem mais oferecesse condições para bons negócios. Entre os convidados, havia um banqueiro que já despertava desconfianças severas no meio financeiro em razão da ousadia duvidosa de seus negócios: Daniel Vorcaro, do Banco Master. Foi naquele encontro que o ex-ministro e o banqueiro se conheceram, segundo Faria.
Na memória de Faria, que foi por quatro mandatos deputado federal pelo Rio Grande do Norte, tratou-se de um encontro como outro qualquer. Em janeiro passado, o ex-ministro rememorou a ocasião e contou à piauí que a apresentação entre os dois não resultou numa relação especialmente profícua. “Eu tenho zero de relação com Master. Nunca vendi nada para o Master. Tenho nada com o Master”, disse, durante uma conversa num escritório na região da Avenida Faria Lima, centro financeiro do país. No entanto, a piauí apurou que o encontro teve efeitos milionários e deu início a laços que, até agora, estavam abaixo do radar do noticiário – mas não das investigações da Polícia Federal. E isso aconteceu de forma rápida.
Menos de duas semanas depois de conhecer Vorcaro em Paris, Faria já buscava coordenar a aproximação do banqueiro com autoridades em Brasília. Em conversas no WhatsApp reveladas pelo site Fatos Online, informou a Vorcaro que convidou o ministro do STF Dias Toffoli, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e seu antecessor — e hoje sucessor — Davi Alcolumbre para um encontro "na terça", acrescentando que "Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir". Diz ainda que "ia chamar o Arthur Lira, mas não pode ser junto com Pacheco", mas que "na próxima chamamos ele pq ele gosta muito". No dia seguinte, Vorcaro pergunta: "quem tá confirmado", e Faria responde: "Davi e Pacheco". A piauí procurou a assessoria de imprensa de Alcolumbre, que não respondeu sobre o encontro. Pacheco, por sua vez, negou ter participado de qualquer reunião com Vorcaro e disse que, na data mencionada nas conversas, estava em Brasília presidindo a sessão do Senado. (As mensagens obtidas pela piauí não deixam claro em que cidade aconteceria o encontro, nem se seria no mesmo horário da sessão do Senado.)
No mesmo fio de conversa em que mobiliza encontros com algumas das principais autoridades da República, Faria também diz a Vorcaro que "na segunda" irá pessoalmente ao Banco Master "com meus sócios do escritório". Enquanto aproximava Vorcaro da cúpula política de Brasília, Faria aproximava seus próprios negócios do Banco Master.
Já em fevereiro de 2024, apenas quatro meses depois de se conhecerem, Faria e Vorcaro fizeram um negócio da China – para o ex-ministro. Ele conseguiu vender ao banqueiro um projeto de energia eólica de 240 MW por 67,5 milhões de reais, como revelou o UOL, seguindo uma apuração iniciada pelo site Poder360. A transação surpreendeu o mercado. O valuation total foi 75 milhões, mas Faria ficou com 10%, o que, aliás, o torna sócio do projeto, o nirvana de todo desenvolvedor. Segundo três especialistas do setor ouvidos pela piauí – que preferem não mencionar os nomes, por trabalharem no ramo e temer relatiações – a usina valia, numa perspectiva otimista, em torno de 13 milhões de reais.
Também chamou a atenção o fato de que, depois de sacramentar a compra, o neófito do setor de energia não moveu uma palha para tirá-lo do papel e viabilizar o negócio. Investiu alto em uma expectativa futura de vento, mas até hoje o projeto continua no mesmo estágio de quase dois anos e meio atrás.
"Era um ativo que valia, tá? E vale hoje. Realmente é muito dinheiro, é sim, mas é o que vale", diz Faria, defendendo a venda. Segundo ele, o projeto ainda prevê a incorporação de uma usina solar e poderia praticamente dobrar de valor, passando de algo entre 60 milhões e 72 milhões de reais para até 140 milhões de reais. “Isso é um baita ativo", afirma. O projeto da usina eólica, localizada em Galinhos, no litoral do Rio Grande do Norte, e batizada como Fazenda São Pedro Geradora de Energia, estava – e ainda está – no estágio mais embrionário, aquele que os especialistas do ramo chamam de greenfield, como um campo ainda intocado. (O estágio mais avançado é o ready to build, ou seja, pronto para construir.) O megawatt de uma usina em estágio greenfield costuma variar de 20 mil a 40 mil reais. No caso de ready to build, o preço do megawatt sobe para algo em torno de 80 mil a 150 mil reais. No projeto de Faria, o negócio foi tão auspicioso que o banqueiro concordou em pagar com o valuation de 312 mil reais por megawatt (75 milhões de reais por 240 megawatt), mais do que o dobro do preço mais alto.
Ouvido pela piauí, o ex-ministro contestou essa avaliação. Disse que a definição do preço baseou-se num estudo realizado pela KPMG, uma consultoria que, entre outros serviços profissionais, é mais conhecida pelas auditorias. A KPMG, no entanto, tem outra versão para o caso. A assessoria da empresa, em nota, disse que apenas participou de “discussões teóricas” sobre o mercado de energia eólica com o pessoal do ex-ministro e “não executou trabalhos de assessoria financeira para a avaliação do projeto de construção do complexo eólico Fazenda São Pedro”. Trocando em miúdos, os 67,5 milhões saíram de algum outro lugar que não as planilhas da consultoria.
Além de estar em estágio inicial, o projeto tinha outros problemas, a começar por sua localização, segundo os especialistas entrevistados pela piauí. Um exemplo: o número de quarenta aerogeradores é visto como excessivo. O ideal seriam vinte, no máximo. A área reservada para a usina fica espremida entre dois parques e a proximidade das turbinas provoca a redução de vento recebido e o aumento de turbulência, no chamado efeito esteira.
Por essas e outras, Faria estava com dificuldade de encontrar alguém que quisesse comprar seu projeto eólico. Ofereceu para Carlos Sanchez, fundador da drogaria EMS, que tem uma empresa do setor de eólicas. Sanchez não quis. A piauí perguntou por quê. “Foi designada uma pessoa do nosso time para entender o projeto, o qual foi apresentado de maneira preliminar em comitê interno, mas por se tratar de um projeto robusto e não termos interesse em novos investimentos nessa área, o negócio foi descartado sem aprofundar a análise”, respondeu seu sobrinho e vice-presidente institucional da EMS, Marcus Sanchez. Faria ofereceu o projeto para Emival Caiado Filho, primo do presidenciável Ronaldo Caiado, que tem empresa do setor. Ele também não quis. “Para nós, no modelo e momento em que estamos, não seria conveniente”, disse à piauí. Ofereceu ao banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, que é acionista da empresa de energia Eneva e foi o primeiro empregador de Faria após deixar o Ministério das Comunicações. Esteves também recusou. Ofereceu aos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS e da Âmbar, empresa de energia. Tampouco deu certo. Faria diz que, a certa altura, Vorcaro soube do projeto recusado por todos e apresentou-se espontaneamente como candidato a comprador.
Com o exorbitante preço final, a transação resultou num negócio de pai para filho em favor do ex-ministro. Mas Faria não ganharia apenas no preço. Vorcaro fez o pagamento em um formato curioso. Primeiro: comprou o projeto por meio da Super Empreendimentos e Participações, empresa que, segundo uma investigação da Polícia Federal, era usada pelo banqueiro para “formalizar contratos fictícios” e “viabilizar operações patrimoniais potencialmente simuladas destinadas a ocultar a origem de recursos”— era, por exemplo, o CNPJ usado para pagar 1 milhão de reais mensalmente ao hoje falecido Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", apontado pela Polícia Federal como líder da chamada "Turma", a milícia privada montada por Vorcaro para defender seus interesses.
Segundo: Vorcaro, em vez de passar o dinheiro diretamente a Faria, como acontece nos negócios comuns, resolveu comprar um apartamento de 800 m2 no Jardim América, em São Paulo, e repassou o imóvel para o ex-ministro pelo valor de 50 milhões de reais. Faria não chegou a ocupar o imóvel, pois disse que sua mulher, a apresentadora Patricia Abravanel, não pensava em deixar de viver em condomínio de casas, e em questão de semanas revendeu-o para João Camargo, o dono do Esfera Brasil, por 54 milhões. Assim, Faria faturou mais 4 milhões em alguns dias. Ele diz que cobrou mais porque financiou parte do imóvel ao novo comprador.
O restante do valor devido por Vorcaro, 17,5 milhões, foi pago diretamente ao ex-ministro. No final, dos 67,5 milhões, Faria ficou com metade, porque a outra parte foi dividida entre seu pai, Robinson Faria, e seu tio, Ricardo Faria, que eram os herdeiros originais do terreno e primeiros idealizadores do projeto. Essa foi a maior operação patrimonial conhecida da vida privada do ex-ministro do governo Bolsonaro. Em 2018, a última vez em que se candidatou a deputado, seu patrimônio declarado era de 6,5 milhões de reais, valor que representa 19% do obtido por Fábio Faria sozinho no negócio eólico.
Não se sabe por que Daniel Vorcaro pagou tanto dinheiro por um projeto incipiente, mas o fato é que o banqueiro não ficou de mãos abanando. De lá para cá, ele conquistou o coração de Fábio Faria, que tinha bom trânsito entre políticos e ministros do Supremo Tribunal Federal e que logo inauguraria um braço de mídia, o SBT News, canal que pertence aos herdeiros do sogro, Silvio Santos, que morreu em agosto de 2024.
A despeito da má fama de Vorcaro, que já corria no mercado financeiro, Faria tornou-se um dos seus interlocutores mais próximos, como demonstram as mensagens trocadas por eles, agora em posse da Polícia Federal. O ex-ministro fez viagens internacionais custeadas pelo banqueiro e passou a frequentar seu ambiente doméstico, enquanto intermediava sua aproximação com autoridades e empresários.
Em 23 de abril de 2024, pouco depois do negócio envolvendo o projeto eólico, Faria já gozavade proximidade com o banqueiro. Nessa data, segundo levantou a PF, o ex-ministro apareceu na lista de passageiros de um voo organizado por Vorcaro. A data marca exatamente a partida da comitiva para Londres, onde seria realizado o fórum político Brasil de Ideias, organizado pelo Grupo Voto e financiado pelo Banco Master. A anotação era clara: “DV + Fábio + Hugo + Ciro Nogueira”. Ela foi enviada a Vorcaro por Leo Serrano, representante da SL Consulting, empresa do setor de turismo e eventos, que organizou alguns dos eventos do banqueiro. A polícia entende que “DV” era Daniel Vorcaro, “Fábio” é Fábio Faria, “Hugo” é Hugo Motta, atual presidente da Câmara, e “Ciro Nogueira” é o indefectível Ciro Nogueira. Em seguida à mensagem que recebeu com a lista dos passageiros, Vorcaro respondeu: “Preciso de um avião para as kengas.” Nos dias seguintes, até 28 de abril, Vorcaro gastou cifras irrazoáveis na capital inglesa, fechando o Peninsula London Hotel e bancando uma degustação de uísque Macallan de 640 mil dólares para as autoridades.
No mês seguinte, em maio, Faria aparece em outra lista de passageiros em uma viagem para Nova York, no Gulfstream de matrícula PR-PSE, um jato de 51 milhões de reais do banqueiro. Com os nomes “PSE / Ciro Nogueira / Daniel / Fábio Faria / Bruno Ferrari”, a lista foi encaminhada pelo próprio Vorcaro ao administrador de suas aeronaves. A viagem era para a chamada Brazilian Week em Nova York, que conta com diversos eventos, incluindo o Lide Brazil Investment Forum, do ex-governador paulista João Doria. Para essa viagem, Vorcaro pediu a Leo Serrano que providenciasse hospedagem para os ex-ministros bolsonaristas Ciro Nogueira e Fábio Faria em Nova York, segundo documentos também obtidos pela polícia. O senador e o ex-ministro deveriam ficar no Park Hyatt – ou, se não houvesse vaga, no Aman New York – enquanto durasse a Brazilian Week, evento do qual o Esfera Brasil, ele de novo, participou promovendo em paralelo um encontro chamado Conectando oportunidades, construindo o futuro. O evento teve patrocínio do Banco Master.
Faria contou que ele próprio pagou por essa viagem. Mas não é o que os papéis indicam. A fatura do hotel Hyatt, obtida pela piauí, registra um crédito transferido da conta de Vorcaro para a conta do quarto ocupado por Faria, comprovando que a despesa ficou sob responsabilidade do banqueiro. Foram cinco diárias, ao custo total de 27,5 mil dólares, coisa de 140 mil reais. Quando a revista voltou ao ex-ministro com os documentos do pagamento, Faria não respondeu.
Não foi seu único lapso. Em junho de 2024, durante o Gilmarpalooza, o evento anual promovido pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, na capital portuguesa, Faria não foi visto nas discussões – e disse à piauí que nem estava em Lisboa. No entanto, seu nome está em todas: na lista de passageiros da caravana de Vorcaro para Lisboa e na lista da divisão dos hotéis para a turma toda. O agente de viagens e eventos do banqueiro escreveu numa mensagem: “No Four Seasons, Ciro e Hugo, cada um tem uma JR. suíte”, disse. “E, no Bairro Alto, Fábio tem um quarto melhorzinho (29 m2) e o Pato tem um quarto clássico (25 m2).” A segunda era referência ao ex-jogador de futebol Alexandre Pato, casado com Rebeca Abravanel, irmã de Patricia, e também apresentadora do SBT. Outra aparição de Faria: seu nome também está na lista restrita de autorizados a entrar na noitada exclusiva que Vorcaro bancou no JNcQUOI Club, com três atrações internacionais como DJs e um público predominantemente feminino.
A piauí localizou uma mulher que esteve naquela festa, no JNcQUOI, na noite de 24 de junho de 2024, e que, sob reserva, confirmou ter visto e reconhecido ao menos dois desses nomes: Hugo Motta e Alexandre Pato.
Mas o dado definitivo sobre a presença de Faria em Lisboa durante o Gilmarpalooza é outro. A polícia encontrou no celular de Vorcaro uma conversa de 24 de junho, na qual o ex-banqueiro informa à sua namorada que estava almoçando com Ciro Nogueira e Fábio Faria em Lisboa. O almoço ocorreu no Solar dos Presuntos, um tradicional restaurante lisboeta. Fora a mensagem, um dos participantes do fórum jurídico que estava presente no restaurante naquela ocasião confirmou à piauí que o ex-ministro dividia uma mesa com o banqueiro e o senador. A piauí voltou a Faria para entender se ele havia se equivocado ao negar sua presença em Lisboa. O ex-ministro não respondeu. A assessoria do SBT negou que Alexandre Pato, que na Copa do Mundo atuou como comentarista esportivo na emissora, estivesse em Lisboa. Já o atleta, procurado por WhatsApp, não respondeu às duas mensagens enviadas pela reportagem.
As festas de Vorcaro, que também são objeto de apuração da PF, envolviam fartura de comida, bebida e mulheres. Em agosto de 2025, a noiva Martha Graeff lhe escreveu no WhatsApp: “Te peço, em respeito ao nosso relacionamento, pra dar uma limpada nas putas que você ainda segue.” Enquanto se defendia, Vorcaro disse: “Vai ficar assim por conta de kenga que nem sabia que tava seguindo?” Graeff respondeu: “Nunca vi tanta puta junto 🤢.” Vorcaro em seguida disse: “Mas eu não fiquei c essas mulheres. (...) Fazia parte do meu business. Nunca te escondi o que fiz e pq fiz. (...) Fiz festa com 300 desse tipo.”
O método de Vorcaro para cultivar sua rede de influência - com auxílio de Faria - era extremamente eficaz e baseado em um estilo de vida luxuoso. Um conhecido lobista afirma à piauí, sob condição de anonimato: "Se houvesse festas simultâneas nas casas de André Esteves, Joesley Batista e Daniel Vorcaro, a deste último seria a mais concorrida." O motivo era sua habilidade de prover exatamente o que seus convidados desejavam. "Vorcaro sabia o que você gostaria de beber, comer, o tipo de mulher que você quer, então ele dava tudo isso pros caras."
A piauí perguntou para a assessoria de Faria se ele atuava como lobista, mas não obteve resposta. Ele até poderia ser. Afinal, fazer lobby – às claras, claro – não é crime. No entanto, por alguma razão, o ex-ministro tende a evitar a exposição de suas relações com o banqueiro – como no caso de sua presença em Lisboa e da hospedagem em Nova York. Um político familiarizado com o mercado financeiro contou à piauí, sob a condição de manter seu nome sob anonimato para não minar suas relações, que Faria tornou-se “o cara mais importante do Vorcaro”, abrindo portas dos políticos do Centrão e, sobretudo, dos ministros do STF para os interesses do banqueiro.
Faria se empenhava inclusive em prestar serviço a Vorcaro no que se referia às suas relações com a imprensa. Em abril de 2024, por exemplo, o ex-ministro procurou o site Poder360 para reclamar sobre uma matéria cujo título dizia que o Banco Master “escondeu” um patrocínio de um evento do Grupo Voto em Londres, realizado no luxuoso hotel The Peninsula. Em resposta, o jornalista Fernando Rodrigues, dono do site, escreveu ao ex-ministro dizendo que havia corrigido a imprecisão do título e reclamou que uma assessora do Master havia procurado a redação insinuando que o veículo não seria contemplado com uma futura campanha publicitária do banco em razão da matéria – o que o jornalista considerou um despautério. Uma mensagem recuperada pela polícia no celular de Vorcaro mostra que o ex-ministro, exercendo o papel de assessor informal, tirou um print da resposta do jornalista e levou para análise do banqueiro. O episódio não foi uma exceção: Faria, depois de ingressar no entourage de Vorcaro, procurou outros veículos de imprensa para reclamar de reportagens negativas sobre o banqueiro, segundo quatro jornalistas ouvidos reservadamente pela piauí.
As conversas entre Faria e Vorcaro no WhatsApp, apreendidas pela PF, continuam sob segredo, mas parte delas foi disponibilizada numa sala sigilosa da CPI do INSS a um grupo restrito de pessoas. Entre essas conversas está aquela em que Faria encaminhou o print do jornalista Fernando Rodrigues. A piauí teve acesso a algumas mensagens trocadas no Instagram. Uma delas, de um ano atrás, mostra o grau de intimidade entre os dois. Faria escreve a Vorcaro: “Feliz dia dos pais, irmão!” Além disso, Faria é figurinha carimbada no conjunto de diálogos entre Vorcaro e Martha Graeff, em que o banqueiro relata que viajara com o ex-ministro ao casamento de uma das filhas de Ciro Nogueira, em Angra dos Reis, em agosto de 2024. Outra mostra que foram juntos à igreja, em São Paulo – ambos são evangélicos. Em outra conversa, fica claro que os dois casais – Vorcaro e sua namorada, mais Faria e Patricia Abravanel – haviam marcado um jantar, mas houve um imprevisto. “Fabio disse que não vai hj, acredita? Que ele e Patricia brigaram de separar”, escreveu Vorcaro. “Ai, amor, cancela então”, respondeu a namorada.
As mensagens entre Faria e Vorcaro vêm aparecendo aos poucos, a conta-gotas — não em uma investigação específica sobre o ex-ministro, mas nas apurações abertas pela Polícia Federal sobre outros personagens centrais da rede de relações do banqueiro. Faria já havia surgido no relatório entregue pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, sobre as ligações entre Vorcaro e o ministro Dias Toffoli, episódio que provocou forte mal-estar na Corte e levou Toffoli a deixar a relatoria do caso Master. Depois, voltou a aparecer na investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o senador Ciro Nogueira. Agora, no fim de julho, seu nome ressurge em uma terceira frente investigativa, dessa vez na representação sobre o senador Jaques Wagner.
No diálogo mais recente, datado de 22 de maio de 2024 e revelado pela Veja, o banqueiro informa ao ex-ministro que ACM Neto havia ido à sua casa e manifestado "apoio total". Faria responde que o ex-prefeito de Salvador era "tranquilo" e, em seguida, traça o passo seguinte da articulação: "Agora eh aproximar o PT da Bahia." Acrescenta que isso "não será problema", que "o ideal eh sair bem" e conclui: "Vai dar tudo certo. Se tiver algo solto a gente fecha em 24h." Na representação encaminhada ao STF, a Polícia Federal afirma que o diálogo mostra Faria manifestando, "em síntese, que a aproximação com o PT Bahia não representaria dificuldade, sugerindo acesso na construção de canais de interlocução".
Fábio Faria tem fama de boa-praça, é jeitoso no trato e hábil na conversa. É conhecido por seu espírito contemporizador e tem facilidade para construir pontes. Quando era ministro de Bolsonaro, ficou responsável por fazer a interlocução do governo com o STF, tarefa especialmente sensível naqueles tempos. Na sua missão, Faria estreitou relações com os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Três fontes ouvidas pela piauí entre Brasília e São Paulo informam que, até ocorrer o encontro entre Faria e Vorcaro em Paris, o ministro Alexandre de Moraes não conhecia o banqueiro. Eles foram apresentados, segundo as três fontes, por Faria. Os dados extraídos do celular de Vorcaro pela Polícia Federal mostram que o banqueiro adicionou o contato do ministro do STF em 26 de dezembro de 2023 – dois meses depois de ter conhecido Faria. O ministro do STF já disse a interlocutores que foi apresentado a Vorcaro por Faria. Questionado se foi o responsável por apresentar Moraes a Vorcaro, a assessoria do ex-ministro enviou o link de uma reportagem do site Diário do Poder, segundo a qual Moraes, Toffoli e Vorcaro estiveram juntos em um jantar ocorrido em novembro de 2022, em Nova York, realizado pelo Lide, empresa de lobby de João Doria, com patrocínio do Banco Master. A piauí também perguntou à assessoria de Moraes se foi Faria quem o apresentou a Vorcaro, mas ele não quis responder.
O banqueiro contratou a advogada Viviane Barci, mulher de Moraes, por 129 milhões de reais, no dia 15 de janeiro de 2024. “O escritório da mulher do Moraes já havia prestado consultoria jurídica ao SBT em ao menos um caso”, diz um ex-funcionário do canal de notícias, informando que a relação entre Faria e Moraes antecede o contrato de 129 milhões. O SBT nega que Viviane Barci tenha prestado qualquer serviço jurídico à emissora. (Ciro Nogueira entrou na lista de contatos do banqueiro apenas três dias depois do encontro entre Faria e Vorcaro em Paris.) Indagado pela reportagem, o escritório de Barci não respondeu se teve alguma relação comercial com o SBT.
Em razão de sua conversa melíflua e seu leque de influência, Faria, assim que se encerrou o governo Bolsonaro, não ficou desempregado. Logo no início de 2023, foi contratado pelo banqueiro André Esteves, do BTG. O banco havia se tornado um dos principais investidores da V.tal, empresa criada a partir da infraestrutura de fibra óptica da Oi — um setor em que Faria acumulava experiência e contatos. No BTG, o ex-ministro trabalhava em conjunto com Bruno Bianco, advogado-geral da União de Bolsonaro, que também se empregou no BTG. Foi Faria quem convidou Bianco para se juntar ao banco, quando o ex-AGU já tinha fechado de assumir a Secretaria de Justiça e Cidadania no governo de Tarcísio de Freitas. Procurado pela piauí, Bianco disse ter mudado de ideia por questões de remuneração. Era uma dupla importante. Um trazia a experiência institucional acumulada na Câmara dos Deputados e no Ministério das Comunicações. O outro havia passado quase vinte anos na AGU e participado de várias discussões sobre um tema de interesse de André Esteves: precatórios.
O acerto com o BTG durou pouco mais de um ano. Depois de vender seu projeto eólico para Vorcaro, em fevereiro de 2024, Faria deixou de ser empregado do BTG e passou a operar apenas como consultor. Bruno Bianco foi junto. Àquela altura, Faria tinha uma consultoria, a F2, cujo nome indicava as duas iniciais do seu nome. Bianco juntou-se à sociedade, que adotou o nome F2B2, agora indicando também as iniciais de Bruno Bianco. Desde então, a consultoria passou a atuar no mercado de compra e venda de direitos creditórios, precatórios e outros ativos considerados estressados.
Na prática, o mercado entendeu que o ex-ministro passou a trabalhar para o banqueiro do Master. “O Faria só não foi trabalhar interno dentro do Master porque poderia pegar mal, tendo saído do BTG. Então essa consultoria foi a forma de chamar menos atenção”, diz um executivo do próprio BTG que teve bastante relação com Faria. “Além disso, o Vorcaro pagava melhor pelos ativos que o Fábio intermediava. No BTG ele recebia 1% ou 2%, mas no Master levava o dobro disso”, disse essa fonte. (Já um especialista no mercado de precatórios, ouvido sob reserva pela piauí, disse que o Vorcaro era ainda mais generoso e pagava até 10% dos precatórios, o que ninguém mais fazia.) Em razão disso, Faria fez uma discreta transição do BTG para o Master, mas continuou operando entre os dois.
Em um negócio, o ex-ministro tentou vender para o BTG uma carteira do Master que continha papéis do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. A carteira era formada por créditos judiciais e precatórios. A dupla Faria e Bianco também atuou para concretizar a venda de imóveis e ações em empresas listadas em bolsa que integravam o catálogo de investimentos de Vorcaro. O BTG levou o pacote por 1,6 bilhão de reais. O modelo adotado por Vorcaro para prospectar precatórios e outros direitos creditórios apresentava falhas relevantes de diligência. Nos bastidores do mercado de precatórios, Bianco era percebido como um intermediário: buscava oportunidades junto a escritórios de advocacia e outros agentes do mercado e apresentava a Vorcaro uma avaliação predominantemente jurídica dos casos. A expressão usada no mercado seria broker: na prática, um corretor remunerado por um percentual sobre o valor pago pelo ativo. Faria, por sua vez, exercia um papel aparentemente mais passivo, acompanhando as tratativas sem demonstrar domínio do mercado de precatórios ou participação substantiva nas negociações – a ele cabia, no máximo, uma “taxa de ouvinte”, expressão usada no setor.
Como construtor de pontes, Faria ampliou seu leque de atuação. Fisgou um contrato para ser consultor no Brasil da Starlink, a empresa de internet por satélite de Elon Musk. Além disso, criou junto com Alberto Leite, empresário das telecomunicações, uma nova empresa, a Skylink, a fim de atuar como representante e distribuidora oficial dos serviços de internet via satélite da Starlink no país, mas o negócio acabou não decolando. Entrou formalmente no ramo da aviação executiva, ao constituir uma empresa que comprou um Cessna Citation Sovereign, mas logo a empresa alterou seu contrato social para poder atuar também no velho ramo – o de direitos creditórios, inclusive precatórios.
Faria também propôs ao empresário Alberto Leite, dono da holding FS Consult, que comprasse 15% do Tayayá, o famoso resort do qual a família do ministro Dias Toffoli era sócia, bem como o próprio Banco Master. Durante a transação, que acabou concretizada, Faria apresentou Alberto Leite a Vorcaro, segundo um interlocutor entrevistado pela piauí. (Questionado pela reportagem, Leite negou a informação.) Não era uma exceção. Faria aproximava de Vorcaro empresários interessados em oportunidades de negócios. Indagado especificamente se intermediou a compra de 15% do Tayayá por Alberto Leite, Faria também não respondeu.
Um dos agentes federais envolvidos na investigação sobre as relações de Vorcaro disse à piauí que Faria está no radar da polícia sob uma suspeita específica: está sendo analisado se ele auxiliou Vorcaro na corrupção de agentes públicos, esclarecendo que não se trata, pelo menos até agora, de uma investigação formal. Até este momento, não apareceu nenhuma indicação de crime, em que pese os sinais de que o ex-ministro atuava como se fosse um lobista sem apresentar-se como tal. Um dos melhores amigos de Faria, que também pediu anonimato, define assim o trabalho do ex-ministro: “O Fábio pegou o empresário pelo braço.” Outro interlocutor que conhece os meandros do lobby em Brasília e São Paulo afirma: “Vorcaro abriu uma banca para comprar almas. Fábio se tornou um dos corretores dela.”
Em 15 de dezembro de 2025, Fábio Faria realizou um feito: colocou no ar um canal de televisão, o SBT News. E percorreu o mercado em busca de patrocínios. Um de seus êxitos veio após uma reunião presencial com Joesley Batista, cujo grupo J&F se tornou um dos principais anunciantes do novo canal. Na inauguração, fez um discurso de 11 minutos, em que destacou o fato de estarem presentes ali figuras de polos políticos opostos. Estavam diante dele o presidente Lula, a primeira-dama Janja, o vice-presidente Geraldo Alckmin, e também os bolsonaristas Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e o prefeito Ricardo Nunes, de São Paulo. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, o ministro Gilmar Mendes, do STF, e o banqueiro André Esteves também compareceram. Moraes foi convidado diretamente por Faria, enquanto os outros políticos foram acionados por integrantes da cúpula do SBT. Flávio Bolsonaro chegou a ser convidado, mas pouco depois Faria o desconvidou. O motivo, segundo uma pessoa ligada ao governo: o presidente Lula mandou avisar que não iria à inauguração do canal se o filho de Jair estivesse lá.
Em 19 de junho passado, seis meses depois do desconvite, Flávio Bolsonaro visitou o SBT para um almoço, com visita aos estúdios da emissora. Ele foi recebido por Faria, pela presidente da emissora, Daniela Beyruti, e pelo diretor nacional de jornalismo do SBT e do SBT News, Leandro Cipoloni, e recebeu um convite para aproveitar a ocasião e dar uma entrevista ao vivo no programa Central de Notícias. Flávio topou. Os jornalistas Amanda Klein, Nathalia Fruet e Eduardo Gayer fizeram perguntas sobre os assuntos do momento, inclusive o escândalo do Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro generosamente financiada por Vorcaro (tema que motivou, posteriormente, abertura de investigação contra o senador no STF). A entrevista enfureceu o assessor do presidenciável, Fábio Portela, que esperava uma abordagem suave. De dentro do estúdio, depois da terceira pergunta sobre Dark Horse, Portela reclamou que só estavam “dando paulada” e pediu, mais de uma vez, pelo fim da entrevista. Procurado por WhatsApp, Portela não respondeu à mensagem enviada pela reportagem.
Faria não estava na redação nem no estúdio. O diretor Cipoloni endossou o pedido de encerramento, com o argumento de que o combinado era uma entrevista curta. Apesar da intervenção, a conversa transcorreu até o minuto 21, mas o tema Vorcaro não retornou à pauta. No meio tempo, Portela ainda perguntou se o conteúdo iria circular nas redes sociais e pediu cuidado com a edição dos trechos que poderiam ser destacados. Depois disso, a entrevista não foi reaproveitada na programação do SBT News, tampouco ganhou chamadas, reportagens próprias ou cortes para as redes sociais. Para assistir a uma rara entrevista em que Flávio Bolsonaro respondeu três perguntas sobre o escândalo que abala sua candidatura, é preciso localizar no YouTube a íntegra do Central de Notícias exibido em 19 de junho de 2026 (vídeo abaixo).
Faria fez muito para colocar o SBT News de pé. Ainda que não tenha cargo definido na empresa, coube a ele procurar patrocinadores e coordenar a estruturação da operação. Não há indício de que Vorcaro tenha financiado o projeto. Sabe-se apenas que Thiago Miranda, lobista da área de comunicações, convocou o banqueiro para uma conversa junto com “Flávio”. O que vem em seguida na mensagem em poder da PF indica que “Flávio” era Flávio Bolsonaro, porque o assunto urgente era “do filme do presidente e do SBT $$”. A presença dos dois cifrões sugere que o assunto era dinheiro. “Flavio, bolso querem sentar com vc. Tem 40 minutos pra matarmos isso na quarta? Em seguida falamos do SBT”, acrescentou Miranda, na mensagem de 8 de dezembro de 2024.
O SBT, no entanto, é outra coisa. À piauí, Faria disse que o Banco Master tinha “zero” patrocínio na emissora, mas, mais uma vez, o ex-ministro equivocou-se. A documentação reunida pela revista mostra que, ao longo de 2024 e parte de 2025, o Credcesta – o programa mais lucrativo do Master – patrocinou o quadro Túnel dos Sonhos, no Programa do Ratinho. O patrocínio dava-se por meio de ações de merchandising em que o apresentador promovia o Credcesta durante a atração. O SBT não foi um ponto fora da curva. Foi apenas mais uma arena em que Faria colocou a serviço de um bilionário o ativo que acumulou ao longo da carreira: acesso. Em poucos anos, transitou pelo universo de alguns dos homens mais ricos do planeta. Tornou-se genro de Silvio Santos, ajudou, como ministro das Comunicações, a abrir o mercado brasileiro para Elon Musk e, ao deixar o governo, foi trabalhar para André Esteves no BTG Pactual. Mas, se os bilionários exercem certa força gravitacional sobre Fábio Faria, nenhum deles o atraiu tanto quanto o banqueiro Daniel Vorcaro — hoje preso na Papudinha.