Engorda de Ponta Negra: obra eleitoreira vira crise urbana e expõe versões falsas; Prefeitura precisa reconhecer erros e adotar avaliação independente
O PLANEJAMENTO TÉCNICO SE RENDEU ÀS ELEIÇÕES
A engorda da Praia de Ponta Negra, vendida como uma solução estruturante para a orla de Natal, tornou-se um caso emblemático de como decisões aceleradas, sob forte influência política, podem comprometer uma obra pública necessária e de grande porte. Alertas existiram e foram ignorados. O IDEMA já apontava a necessidade de uma drenagem adequada como condição essencial para a sustentabilidade da intervenção. Especialistas da UFRN também levantaram preocupações técnicas em manifestações na mídia que não se rendeu ao oba-oba. Ainda assim, a obra foi tocada em ritmo acelerado, com licença obtida judicialmente e execução marcada por retirada de areia de área não licenciada. O objetivo político, entregar a obra em tempo eleitoral para ajudar Paulinho e atrapalhar Natália, que sempre foi a favor da obra mas contrária a execução sem planejamento e debate adequados, acabou se sobrepondo à cautela técnica que uma intervenção dessa magnitude exigia.
MENTIRAS NÃO SE SUSTENTARAM
O resultado, agora visível a olho nu, expõe o custo dessa escolha. A engorda não resistiu a chuvas relativamente simples: alagamentos recorrentes, mau cheiro, redução da visitação relatada por comerciantes e o surgimento de voçorocas cada vez maiores transformaram o que deveria ser um cartão-postal ampliado em um espaço problemático. A promessa de uma faixa de areia estável, com métricas amplamente divulgadas pelo então prefeito Álvaro Dias, o secretário Thiago Mesquita e comunicados da prefeitura de 50 metros de faixa de areia na maré alta com chuvas e 100 metros na maré baixa, não se sustenta na prática. Pior: a formação dessas voçorocas chegou a ser atribuída pelo secretário Thiago Mesquita à ação de pessoas “com as mãos”, uma explicação que, diante do agravamento contínuo do problema, perdeu completamente qualquer plausibilidade e passou a ser vista como um símbolo do desencontro entre discurso oficial e realidade.
VERSÕES VENCIDAS PELOS FATOS
A sucessão de versões da Prefeitura de Natal reforça essa perda de credibilidade. Primeiro, a obra foi anunciada como concluída; depois, admitiu-se a necessidade de drenagem; em seguida, declarou-se essa drenagem como finalizada; agora, volta-se a falar em uma nova intervenção. Paralelamente, alagamentos com odor desagradável passaram a ser tratados como “espelhos d’água”, numa tentativa de requalificar semanticamente um problema evidente, comparação que desafia o bom senso ao ignorar a diferença entre fenômenos naturais e falhas de engenharia urbana.
SEM NENHUMA CREDIBILIDADE E ANÁLISE INDEPENDENTE
Diante desse cenário, a Prefeitura parece ter perdido a capacidade de conduzir tecnicamente o debate sobre a própria obra. A situação exige um reposicionamento: transparência, revisão técnica independente e, sobretudo, a disposição de reconhecer erros. A parceria com instituições como a própria UFRN poderia ser um caminho para reconstruir soluções com base científica. Caso contrário, a tendência é de agravamento: a cada chuva, sedimentos são levados, reforçando a possibilidade de novas intervenções futuras, possivelmente uma nova engorda, com custos ainda maiores. O que era uma obra necessária acabou se convertendo, pela forma como foi conduzida, em um problema de grandes proporções e de prejuízo potencialmente incalculável para a cidade.