EDITORIAL - POR QUE NÃO VALE A PENA MAIS FAZER REPORTAGEM INVESTIGATIVA NO RN
Está difícil fazer qualquer tipo de investigação jornalística no RN. Eu perdi noites e fins de semana fazendo o cruzamento de emendas genéricas, sem objeto definido, com as manifestações de vereadores de Natal nas redes sociais. Aprendi esse método observando o trabalho de Breno Pires, da revista Piauí. Assim, identifiquei o real emprego de recursos públicos.
Quando apontei um possível conflito de interesses na aplicação de uma emenda, em parceria com Bruno Barreto, uma vereadora fatiou uma de nossas reportagens, retirou da petição o principal elemento probatório da matéria (um vídeo) e pediu sua censura à Justiça. O pedido foi acatado por liminar em menos de 24 horas. Os demais jornalistas, por questões pessoais e políticas mesquinhas, apoiaram.
Cabe aqui um pequeno parêntese para contextualizar. No RN, é comum que jornalistas confundam seus interesses profissionais com o lado ideológico ao qual se vinculam. Não raro, o jornalista se acha amigo, um igual, como se fizesse parte da roda do poder. Com isso, receber convite para casamento ou aniversário de empresário ou de político passa a ser visto como sinônimo de sucesso na carreira.
Voltando ao caso. O juiz tirou a matéria do ar primeiro e perguntou depois. No decorrer do processo, ficou claro que a liminar foi concedida sem a análise integral da reportagem. Ao final, ela foi restabelecida por meio de mandado de segurança, e o próprio juiz da primeira instância reconsiderou sua decisão.
A audiência de conciliação e instrução foi constrangedora porque ficou evidente que os envolvidos não haviam assistido ao vídeo mencionado na reportagem e ocultado na petição. Nele, a própria vereadora afirmava que havia destinado uma emenda à associação presidida pelo próprio marido, sob a justificativa de financiar a realização de uma corrida.
Detalhe: ela anunciava a destinação dos recursos públicos usando uma camisa de Bolsonaro, justamente no período em que acusava a vereadora Brisa de politizar a aplicação de uma emenda parlamentar.
No final, a vereadora não gastou um centavo para atacar. Seus advogados, que apresentaram uma versão editada da reportagem para fazê-la parecer uma ilação sem provas, nada sofreram. Nós tivemos de arcar com os custos da defesa e ainda fomos expostos injustamente.
Os jornalistas que nos acusaram de divulgar fake news até hoje não concederam direito de resposta, apesar da ampla repercussão do caso e de alguns pedidos feitos por mim.
Não critico mais quem se limita a publicar releases, notinhas amenas, fazer insinuações sem afirmar categoricamente nada ou adotar qualquer outro expediente para evitar riscos. No RN, não vale a pena ir além disso.
É, senador Styvenson. Você, que abriu diversos processos contra jornalistas, comunicadores e blogueiros, venceu.