• Redação
  • 04/11/2026

Crise bancária no Paraguai derruba chefe do BC e gera protestos contra Peña; entenda

Uma crise envolvendo o banco digital Ueno, que possui cerca de 3 milhões de clientes no Paraguai, provocou a renúncia do presidente do Banco Central do país, Carlos Carvallo, nesta terça-feira (3). O episódio também desencadeou manifestações contra o presidente Santiago Peña, que manteve vínculos empresariais com o grupo controlador da instituição.

O Ueno, maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, enfrenta investigações sobre suas operações e problemas financeiros. Após ajustes em seus balanços, seu índice de solvência, que mede a capacidade de uma instituição de cumprir suas obrigações, caiu para menos da metade do mínimo exigido.

Diante da situação, o Banco Central interveio no banco e suspendeu seus serviços para organizar a devolução dos depósitos e tentar evitar impactos sobre o sistema financeiro. A Justiça também determinou a prisão de oito dirigentes da instituição, incluindo seu presidente, Miguel Vázquez, que se entregou à polícia.

A crise ganhou dimensão política porque o Ueno administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo investimentos de fundos previdenciários.

O que aconteceu com o banco Ueno?

Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o Ueno passou por uma rápida expansão nos últimos anos, deixando de ser uma pequena instituição financeira para se tornar um banco de médio porte.

A instituição já vinha sendo fiscalizada por suspeitas envolvendo operações com empresas ligadas ao próprio grupo controlador. Entre os questionamentos estão possíveis empréstimos excessivos a companhias relacionadas aos proprietários do banco.

O Ueno contestou anteriormente irregularidades em suas operações. As responsabilidades pelos problemas financeiros ainda estão sob investigação.

Com a deterioração de seus indicadores, o Banco Central determinou a intervenção para avaliar os ativos da instituição e proteger os depositantes.

Presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi alvo de protestos por dezenas de manifestantes reunidos no centro de Assunção (Foto: AFP)

Por que houve protestos contra Santiago Peña?

Na tarde de terça-feira (3), dezenas de manifestantes se reuniram no centro de Assunção para protestar contra a crise bancária e exigir a saída do presidente paraguaio.

Segundo a agência AFP, os participantes carregavam cartazes com a mensagem “Impeachment de Santi Peña”, em meio à indignação de clientes que tiveram o acesso às suas economias bloqueado.

A intervenção também provocou longas filas em frente às agências do Ueno. O sistema bancário eletrônico já apresentava falhas desde segunda-feira (2), e pequenos poupadores relataram dificuldades para movimentar seus recursos.

Entre os manifestantes estava Marcelino Vergara, de 68 anos, que afirmou à AFP ter perdido o acesso às economias acumuladas ao longo da vida e restar-lhe apenas 8 mil guaranis, cerca de R$ 7,35.

A oposição também anunciou a elaboração de uma acusação para tentar viabilizar o impeachment de Peña.

O senador oposicionista Rafael Filizzola afirmou à AFP que o prejuízo relacionado ao caso ultrapassaria US$ 3 bilhões, aproximadamente R$ 16,47 bilhões. O valor é uma estimativa apresentada pelo parlamentar, não uma perda confirmada pelas autoridades.

Filizzola acusa o presidente de ter participação nas decisões que favoreceram o banco, incluindo o direcionamento de recursos públicos à instituição. As acusações ainda dependem de apuração.

Após o agravamento da crise, Peña cancelou uma viagem prevista a Madri, onde participaria da 30ª Cúpula Ibero-Americana.

Por que o presidente do Banco Central renunciou?

Carlos Carvallo deixou o comando do Banco Central após ser alvo de críticas sobre a fiscalização do Ueno.

O dirigente havia presidido a financeira Ueno antes de assumir a autoridade monetária, em 2023. Essa ligação anterior levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.

Parlamentares já haviam criticado a atuação dos órgãos reguladores e considerado insuficientes as explicações apresentadas sobre a situação do banco.

Carvallo inicialmente afirmou que permaneceria no cargo durante as investigações. Entretanto, horas depois, formalizou sua renúncia junto ao Poder Executivo, após Peña solicitar publicamente sua saída.

Qual é a ligação de Santiago Peña com o banco?

A crise também atinge o presidente paraguaio porque ele foi acionista do grupo empresarial controlador do Ueno até 2025.

Embora essa relação não comprove participação em irregularidades, o histórico empresarial de Peña e a passagem de Carvallo pelo banco ampliaram os questionamentos sobre a independência da fiscalização financeira.

O presidente afirmou que eventuais responsáveis por irregularidades deverão responder à Justiça, sem privilégios.

O dinheiro dos clientes está em risco?

A intervenção deixou correntistas temporariamente sem acesso aos depósitos. Na terça-feira, clientes encontraram agências fechadas e enfrentaram dificuldades para retirar dinheiro.

Segundo a AFP, o Banco Central anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 9.200, aos clientes com recursos bloqueados.

O Fundo de Garantia de Depósitos também prevê cobertura de até aproximadamente US$ 38 mil por depositante, suficiente para proteger integralmente cerca de 97% dos clientes, conforme estimativas preliminares.

A existência da garantia, entretanto, não significa que todos os valores já tenham sido devolvidos. Para quantias superiores ao limite, a recuperação dependerá do processo de resolução da instituição.

Por que a crise preocupa os aposentados?

O Ueno administra recursos de instituições públicas, incluindo aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS).

Além disso, cerca de 32 mil aposentados recebiam seus benefícios por meio do banco.

O IPS informou que os pagamentos previdenciários serão mantidos por outras instituições financeiras e que adotará medidas para recuperar os recursos investidos no Ueno.

A situação ampliou a cobrança por esclarecimentos sobre a fiscalização de recursos públicos e a exposição de fundos previdenciários aos problemas da instituição.

A crise pode atingir outros bancos?

O Banco Central do Paraguai afirma que os problemas do Ueno são isolados e não representam uma crise generalizada do sistema financeiro.

Apesar disso, a intervenção provocou repercussões no mercado, com pressão sobre títulos emitidos pelo banco e papéis da dívida paraguaia.

O episódio também preocupa investidores estrangeiros, incluindo brasileiros, diante das dúvidas sobre a fiscalização financeira e a segurança dos recursos mantidos no país.