• Redação
  • 01/11/2026

Cadu entendeu o recado das urnas: ajuste fiscal no primeiro ano pode definir o futuro de seu governo

A entrevista concedida pelo governador eleito Cadu Xavier à Tribuna do Norte foi muito boa e demonstra que ele está atento ao verdadeiro recado das urnas. Sua vitória ocorreu em uma circunstância eleitoral ímpar, na qual a expressiva vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro e a ampliação histórica dos votos válidos, com a redução de brancos, nulos e abstenções, foram decisivas para o resultado. Cadu venceu, mas precisa compreender que o eleitorado potiguar não lhe entregou um cheque em branco. A população quer obras e investimentos. Isto ficou claro no decorrer de toda a campanha. Para atender a essas expectativas, o Rio Grande do Norte precisa recuperar sua capacidade de investimento, o que passa necessariamente por um ajuste fiscal consistente.

CONDIÇÕES EXCEPCIONAIS

O levantamento publicado pelo O Potiguar, com base na análise das 8.115 seções eleitorais do RN por meio de inferência ecológica, ajuda a dimensionar a excepcionalidade dessa vitória. Entre os dois turnos, o comparecimento cresceu 61.796 votos, enquanto os brancos diminuíram 40.651 e os nulos, 22.157. A votação de Lula aumentou 175.633 votos. As associações estatísticas encontradas indicam que a expansão de Lula e a redução de brancos e nulos favoreceram territorialmente o crescimento de Cadu, enquanto a votação de Álvaro Dias esteve fortemente associada à de Allyson. A análise sustenta a hipótese de que, sem essa mobilização extraordinária, Allyson poderia ter vencido. Foi uma vitória construída em condições excepcionais, que não devem ser confundidas com uma aprovação automática do modelo de gestão estadual. 

AJUSTE FISCAL E HEGEMONIA DE PODER

Aos poucos, Cadu dá sinais de que compreendeu essa realidade. Na entrevista, defendeu o controle do crescimento das despesas, o equilíbrio das contas e a ampliação das receitas sem aumentar impostos. O caminho é promissor, mas precisa sair do discurso. O momento ideal para implementar um ajuste fiscal é o primeiro ano de governo, quando o governante ainda dispõe da força política conferida pelas urnas. Se conseguir reorganizar as finanças agora, poderá recuperar a capacidade de investimento e colher os resultados nos anos seguintes. As experiências de Camilo Santana, no Ceará, e Rafael Fonteles, no Piauí, oferecem referências importantes de como gestão fiscal, investimentos e articulação política podem contribuir para consolidar projetos duradouros de poder. 

O DESAFIO

O desafio, entretanto, será político. Ajuste fiscal exige escolhas difíceis, enfrentamento de interesses organizados e capacidade de dizer não, inclusive a aliados. Cadu precisará de uma equipe coesa, respaldo político e disposição para não transformar cada pressão em uma exceção. Os setores contrariados não aceitarão passivamente as medidas e disputarão cada decisão, dentro e fora do governo. Será necessária muita articulação para sustentar as mudanças sem perder a capacidade de governar. Se aguentar o tranco, o desgaste inicial poderá ser compensado por investimentos, obras e serviços que entreguem à população aquilo que ela espera. A eleição foi vencida com a força de Lula e uma mobilização extraordinária do eleitorado. A consolidação do governo, porém, dependerá sobretudo dos resultados que Cadu conseguir produzir.