• Redação
  • 01/06/2026

Brasil não deve agir como vassalo dos EUA, diz Durigan

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ao SBT News nesta segunda-feira (1) que ainda não contatou formalmente a Casa Branca depois de o Departamento de Estado dos EUA anunciar na última semana que classificará as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas a partir de sexta (5).

A designação dá poderes legais à Casa Branca para sancionar instituições financeiras, empresas e outras organizações brasileiras que considera terem envolvimento em movimentações financeiras envolvendo as facções. No limite, também legitima ações mais incisivas dos EUA na América Latina, como operações militares contra rotas de narcotráfico e contrabando de armas.

Apesar de se mostrar aberto a manter o diálogo e dizer que contatará autoridades americanas "no seu tempo", Durigan defendeu que o país não deve estar em posição submissa nas negociações para tentar reverter a medida.

Por outro lado, o ministro admitiu que as facções causam "terror social" e não devem ter seu perigo minimizado. Um dos mecanismos de enforcement citados como exemplo de que o Brasil não é conivente com a atuação do crime organizado é a investigação das operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto, que apuram a existência de um esquema de falsificação de combustíveis e lavagem de dinheiro em postos de gasolina com atuação do Primeiro Comando da Capital.

Além da questão do CV e PCC, Brasil também está em contato com os EUA para evitar a aplicação de sanções financeiras na chamada seção 301 da Lei de Comércio, usada pela Casa Branca contra o que considera serem práticas desleais, incluindo o sistema de pagamentos do Pix.

"Não cabe ao Brasil estar em um lugar de vassalagem, de passar a mão no telefone toda hora e ficar implorando aos Estados Unidos. Nós vamos fazer as conversas internas com as instituições financeiras, com as autoridade brasileiras, recolher a informação e levar isso de maneira qualificada para as autoridades norte-americanas", disse Durigan.


Durigan concedeu entrevista à repórter Hariane Bittencourt | Washington Costa/Ministério da Fazenda

Impacto aos brasileiros

Como mostrou o SBT News, o governo brasileiro já espera que os EUA publiquem entre esta segunda e terça (2) recomendações com punições e novas tarifas contra o Brasil por práticas comerciais injustas.

A investigação foi instaurada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) em julho de 2025, sendo uma das medidas adotadas por Donald Trump em reação ao que foi chamado de "caça às bruxas" contra Jair Bolsonaro (PL). O prazo da apuração encerra oficialmente em 15 de julho, mas as recomendações antecedem uma decisão sobre sancionar o país, já que há 30 dias para uma resposta do governo brasileiro e consultas públicas.

Dario Durigan expressou preocupação com o impacto financeiro que a coerção americana trará aos consumidores brasileiros. No caso da designação do PCC e CV como terroristas, o ministro alertou para a sinalização ao sistema financeiro de que o Brasil não é um local seguro para se investir. A tendência de curto e médio prazo, em sua avaliação, é de que os bancos e fintechs repassem custos de margem aos clientes cobrem juros mais salgados.

O cenário mais pessimista é se o governo americano decidir aplicar uma sanção financeira direcionada a um banco brasileiro específico. Durigan afirmou que, nesse caso, a instituição pode ser impedida de oferecer o Pix aos clientes.

O ministro disse ter mostrado o Pix aos americanos como uma infraestrutura de pagamentos particular do Banco Central, e não um produto que ameace bandeiras de cartão de crédito como a Visa e a Mastercard. Em resposta, disse ter ouvido das próprias empresas americanas que o Pix ajudou a aumentar o volume de transações no país, e não o contrário. Ainda assim, a expectativa é de que o sistema acabe penalizado por decisão do presidente Donald Trump.