12 de abril de 2026

O que está puxando a avaliação de Lula para baixo - Breve crônica de um povo endividado

Autor: Daniel Menezes

Do ICL

Por Lindener Pareto Jr

Uma mentira bem orquestrada se desenrola sob o véu macabro do capitalismo contemporâneo: a farsa do crédito. Na entrevista concedida ao ICL Notícias no dia 8 de abril de 2026, o Presidente Lula lembrou, com a gravidade que o tema exige, da necessidade urgente de se pensar em estratégias para aliviar as dívidas que assolam as famílias e o povo brasileiro. O presidente foi categórico ao afirmar que o governo trabalha seriamente para encontrar uma solução, equiparando a crise do endividamento à urgência de conter o impacto do preço dos combustíveis na mesa do trabalhador. “A gente não vai permitir que a guerra […] aumente o preço do feijão, do arroz, da alface e da cebola que o povo brasileiro come”, disse ele, traçando um paralelo direto entre a macroeconomia e a sobrevivência diária.

Acontece que a guerra no Brasil é uma guerra de mais de 500 anos, com informalidade, precarização, escravidão e trabalho análogo à escravidão. Por que em toda parte ouvimos aqui, ali e acolá que ninguém consegue pagar as contas? Que o salário está mais sumido que a proteção trabalhista, escorrendo pelos dedos antes mesmo de chegar ao fim do mês? Os números, frios e implacáveis, contam uma história de terror financeiro. Em março de 2026, o percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4%, o maior nível de toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Estamos falando de mais de 81 milhões de brasileiros inadimplentes, um exército de despossuídos e desesperados que cresceu 38% em apenas dez anos. Ora, o povo não ganha pouco por acaso, a precarização é um projeto estrutural, e o endividamento é o seu sintoma mais cruel.

Certamente tem a ver com os tais juros, com o tal mercado financeiro e com uma vida que, no capitalismo avançado, só pode ser vivida e supostamente digna se você tiver crédito na praça. O problema é que ter crédito na praça num país que reiterada e historicamente precariza seu povo é uma grande ilusão. O Brasil ostenta um dos maiores spreads (taxas) bancários do mundo, atingindo 32,5% em 2024, segundo dados do Banco Mundial. Enquanto a taxa básica de juros, a tal Selic, flertava com os 15% ao ano em 2025, os juros médios cobrados das famílias ultrapassavam os 60% ao ano. O pesadelo ganha contornos infernais no rotativo do cartão de crédito, cujas taxas médias orbitam os absurdos 436% ao ano! O cartão de plástico – agora mais digital e abstrato do que nunca – outrora símbolo de ascensão social, tornou-se a coleira moderna do trabalhador. Será que não há viva alma nesse mundo para proclamar que os juros são um grande roubo?

E quem lucra com essa agonia coletiva? A resposta está nos balanços trimestrais, sempre celebrados com taças erguidas nos andares mais altos da Avenida Faria Lima e nas sedes de bancos vampirescos. Em 2025, os quatro maiores bancos do país –  Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – acumularam um lucro estarrecedor de R$ 107,8 bilhões! Apenas os três grandes privados viram seus lucros saltarem 16%, somando R$ 87 bilhões, enquanto, cinicamente, o setor bancário fechava quase 9 mil postos de trabalho no mesmo período. É a engrenagem perfeita da acumulação por espoliação, como diria David Harvey: a riqueza não é gerada pela produção, mas pela pilhagem da renda do trabalhador através do mecanismo financeiro. O juro extorsivo não é uma falha do sistema, é o próprio sistema funcionando com precisão cirúrgica.

Contudo, a tragédia contemporânea ganhou um novo e devastador capítulo, um elemento que se infiltrou nos celulares e nas casas das famílias com a promessa enganosa do dinheiro fácil: as apostas online, ou “bets”. Um estudo recente da FIA Business School, em parceria com o Ibevar, revelou que as bets se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando até mesmo os juros e o acesso ao crédito. O coeficiente de impacto das apostas no endividamento (0,2255) é mais que o dobro da soma dos impactos dos juros e do crédito. Cerca de 39,5 milhões de brasileiros foram tragados por essa ilusão digital, e 17% deles deixaram de honrar despesas básicas para apostar. O presidente Lula, na mesma entrevista ao ICL, não hesitou em defender a proibição dessas plataformas, reconhecendo que a ilusão do ganho fácil está destruindo lares.

O trabalhador precarizado, adoecido e sem perspectivas, encontra no crédito caro e nas apostas uma falsa rota de fuga. A financeirização da vida transformou o direito básico à sobrevivência em um produto financeiro altamente rentável para poucos. Programas como o “Desenrola”, que renegociou R$ 53 bilhões em dívidas e beneficiou 15 milhões de pessoas, são vitais como medidas de alívio emergencial. Mas é preciso ir muito além. A cura definitiva exige enfrentar o cerne da questão: a desigualdade brutal e a exploração institucionalizada. Reconhecer essa necrofinanceirização da vida é o primeiro passo para rasgar o véu farsesco da lógica financeira e lutar por um país onde a dignidade não dependa de um limite no cartão de crédito, e onde o trabalho seja, de fato, fonte de emancipação e dignidade. E por falar em dignidade, nenhum partido de esquerda, ou no mínimo progressista, vai pautar uma revogação da reforma trabalhista de 2017? Ou acham que o golpe de 2016 foi apenas por uma birrinha do Temer? Sem um novo pacto trabalhista, sem uma proteção social minimamente digna, é só festa alucinada e orgíaca do Capital e suas sutilezas metafísicas. Vorcaro que o diga. O resto é pura balela. E a balela, ela vem de longe.

“O agiota e sua esposa.” Pintura do pintor flamengo Quentin Matsys (1466-1530). Óleo sobre painel de madeira, 74x68cm, 1514. Fonte: Conservado no Museu do Louvre, Paris, França. Na pintura vemos simetricamente posicionados um banqueiro ou cambista que pesa moedas de ouro e sua esposa, que observa seu trabalho, distraída de sua leitura sagrada. Este, na verdade, é o tema central da obra, moralista, que denuncia a avareza e as vaidades humanas.

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