10 de abril de 2026
Investigação descobre repasse de R$ 4 milhões do Master para ex-chefe de supervisão do Banco Central, revela jornal
Autor: Daniel Menezes
O Banco Central concluiu investigação interna que aponta o ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana como responsável pela simulação de dois contratos com a Varajo Consultoria, totalizando R$ 4 milhões em pagamentos. A empresa pertence a Leonardo Palhares, identificado pela Polícia Federal como operador de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O relatório sigiloso da comissão de sindicância patrimonial foi encerrado em 4 de março e divulgado em reportagem da Folha de São Paulo.
Em um dos contratos, Santana recebeu R$ 2 milhões pela entrega de um estudo de 50 páginas sobre educação financeira. O material era composto por resumos de oito artigos acadêmicos e entrevistas de terceiros, sem produção autoral relevante. Os procuradores do BC afirmaram ser “pouco crível” que alguém pagasse esse valor por um trabalho daquela natureza. Segundo eles, o conteúdo poderia ser produzido com inteligência artificial ou por estagiários a baixíssimo custo.
O segundo contrato previa a realização de um ciclo de palestras em um projeto chamado “Jovens Potentes”, voltado a conectar jovens de comunidades periféricas ao mercado financeiro. Como entregas concretas, Santana apresentou a criação de uma logomarca, perfis no LinkedIn e Instagram com cerca de 1.000 seguidores e um webinário com apenas 20 participantes. O conteúdo de melhor desempenho no Instagram somou 65 curtidas.
A comissão concluiu que os contratos foram “muito mal elaborados” e que os produtos entregues não tinham conexão com os compromissos firmados. A sindicância apontou que Santana sequer tinha domínio claro sobre o objeto dos contratos, o que foi classificado como forte indício de simulação. A investigação considerou os negócios como manobra para dar aparência legítima a pagamentos ilícitos.
A Varajo Consultoria tinha capital social de apenas R$ 10 mil e funcionava em um espaço de coworking em São Paulo, condições incompatíveis com contratos de R$ 4 milhões, segundo a sindicância. Palhares também comanda a Super Empreendimentos, investigada pela PF como canal de pagamentos do Master a agentes públicos. Ele ainda é diretor da Solar, organização que tem como embaixadora a filha de Daniel Vorcaro.
Santana atuou como chefe do Departamento de Supervisão Bancária entre 2019 e 2026, com acesso direto a informações sigilosas de instituições bancárias, incluindo o Banco Master. A comissão apontou conflito de interesses e ressaltou que ele não consultou a Comissão de Ética do BC, mesmo tendo sido membro do comitê por mais de três anos. Nesse período, irregularidades envolvendo o Master já haviam sido detectadas.
Com base nas conclusões, a comissão propôs a instauração de processo administrativo disciplinar contra Santana na CGU. Os indícios apontam para enriquecimento ilícito, recebimento de propina, corrupção e improbidade administrativa. A Polícia Federal já havia submetido Santana a medidas cautelares, incluindo suspensão de função pública e monitoramento eletrônico.
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