9 de março de 2026
EUA devem designar PCC e CV como ‘terroristas’ e Brasil ameaça virar alvo militar
Autor: Daniel Menezes
ICL - Jamil Chade - As equipes técnicas do governo dos EUA concluíram os trabalhos para designar os grupos criminosos PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras, abrindo o caminho para adotar sanções e mesmo medidas militares contra os criminosos. Ao classificar os grupos como terroristas, o governo dos EUA também transforma suas bases e operações em alvos legítimos de um ataque militar, mesmo em território estrangeiro.
O trabalho técnico já foi realizado nos EUA e, agora, resta apenas uma chancela política, o que deve vir nos próximos dias. Segundo diplomatas ouvidos pelo ICL Notícias, a decisão dificilmente será revertida.
A medida foi revelada com exclusividade no domingo pelo portal UOL. A reportagem do ICL Notícias confirmou que o Palácio do Planalto já havia sido alertado sobre o risco de tal decisão fosse adotada nos próximos dias e buscava caminhos para reabrir diálogo com os EUA.
Se confirmado, o PCC e o CV entrariam numa lista que já inclui mais de uma dezena de outras organizações criminosas da região. São elas:
México: Cartel de Sinaloa, Cartel Jalisco Nova Geração , Cartel do Golfo, Los Zetas.
Colômbia: Clã do Golfo.
Haiti: G9 e Família
Equador: Los Choneros.
A decisão ameaça ainda a suposta “boa química” que existiria entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O combate ao crime organizado seria um dos principais pontos da reunião entre os dois líderes, e que poderia ainda ocorrer entre março e abril.
Mas uma decisão dessa natureza ameaça descarrilhar o trabalho diplomático de aproximação. O governo brasileiro acreditava que havia neutralizado o risco ao propor um programa conjunto para lidar com o crime organizado.
Mas a pauta não se limitava ao crime. Entre diplomatas, o tema é também um instrumento político de pressão. A classificação como terroristas era uma reivindicação de bolsonaristas que, ao colocar o tema como centro da relação com o Brasil, buscam o envolvimento direto do governo Trump na agenda doméstica do país.
Flávio Bolsonaro chegou a sugerir a necessidade de uma ação americana em território brasileiro. Ele recebeu uma delegação americana ainda em 2025 para debater o tema e deu seu sinal favorável à medida. Um suposto dossiê ainda foi preparado pelo governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e mandado para a Casa Branca, com detalhes sobre os grupos criminosos.
Dentro do governo, existe ainda a suspeita de que informações possam ter sido passadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, e que hoje vive nos EUA.
Ao ICL Notícias, a chefia da Polícia Federal confirmou que sequer aceitou receber essa delegação do Departamento de Estado norte-americano, em 2025, que queria convencer o Brasil a também classificar os grupos como terroristas. A delegação acabou sendo recebida pelo Ministério da Justiça e pelo Itamaraty e, em ambos, ouviu que o Brasil não seguiria na mesma linha.
Em 2025, um informe do Departamento de Estado norte-americano obtido pela reportagem indicou que “a organização criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC) e cartéis do México e da Colômbia intensificaram suas atividades na Bolívia”. “Esses atores representam novos e significativos desafios para o controle do narcotráfico na Bolívia”, disse.
Num outro trecho, o informa aponta que “as organizações transnacionais de narcotráfico, especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC), representam a principal ameaça à segurança nacional do Brasil”. “Segundo a Polícia Federal (PF), o PCC opera em 22 dos 27 estados brasileiros e atua em pelo menos 16 países ao redor do mundo, incluindo os Estados Unidos”, apontou.
Alvo militar
Um dos temores das autoridades brasileiras é de que, com a designação, as operações do PCC e do CV se transformem em alvos legítimos de ataques militares dos EUA.
Semanas depois de designar grupos colombianos como terroristas, o governo Trump intensificou os ataques contra barcos na costa do país sul-americano.
Nas últimas semanas, o governo Trump lançou ofensivas contra o narcotráfico no México e no Equador. Em ambos, o discurso foi de que se tratou de uma operação conjunta. Mas, entre latino-americanos, a “cooperação” é apenas uma forma de os governos locais se justificarem diante de suas populações.
Neste fim de semana, Trump ainda sinalizou seu interesse em transformar o tema do narcotráfico num instrumento de controle da região. O americano, ao lado de uma dezena de países latino-americanos, anunciou a criação de uma “aliança” militar contra os grupos criminosos.
Seu discurso foi revelador. Num certo momento, ele explicou que fará com o narcotráfico o mesmo que os EUA fizeram com o Estado Islâmico. Ou seja, bombardear em territórios estrangeiros.
Em um tom de brincadeira, ele ainda avisou aos demais presidentes da região: “vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos”.
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