7 de fevereiro de 2026
Chefes dos fundos de previdência com maiores valores perdidos no Master têm conexões políticas com a direita
Autor: Daniel Menezes
(FOLHAPRESS) - Os chefes dos fundos de previdência estaduais com as maiores aplicações em letras financeiras do Banco Master são nomes com conexões ou trabalhos anteriores na área política, segundo a Folha apurou.
Trata-se dos casos do presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, alvo de operação da Polícia Federal nesta sexta-feira (6), e do ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes, preso em uma ação da PF na terça (3).
As duas instituições respondem pela gestão das aposentadorias e pensões dos servidores estaduais do Amapá e Rio de Janeiro, respectivamente.
Dados do Ministério da Previdência Social divulgados em novembro apontam que a Amprev direcionou R$ 400 milhões para letras financeiras do Master, atrás apenas do Rioprevidência, com R$ 970 milhões. O balanço considera o período entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
As letras financeiras não têm garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Ou seja, há risco de prejuízos para as instituições após a liquidação do Master, que está envolvido em suspeitas de um amplo esquema de irregularidades.
PROXIMIDADE DE ALCOLUMBRE NO AP
A Amprev anunciou a chegada de Jocildo Silva Lemos à presidência da entidade em janeiro de 2023. Ao receber um prêmio em um evento no ano seguinte, ele declarou que foi convidado para o cargo pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP).
O parlamentar voltou à presidência do Senado após ser eleito em fevereiro de 2025.
"E aqui eu faço um agradecimento especial ao governador Clécio Luis, que fez a nomeação, e sobretudo ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência", disse Jocildo em 2024 na premiação.
O presidente do Senado não está entre os alvos da operação da PF nesta sexta.
A Folha procurou a assessoria de Alcolumbre para comentar a declaração de Jocildo, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. As solicitações foram enviadas por email e mensagens de texto na quinta (5) e nesta sexta.
Jocildo já atuou como tesoureiro da campanha do senador e teria representado o parlamentar na entrega de obras no estado, conforme a imprensa local.
Em um perfil da Liesap (Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá) nas redes sociais, há postagens com fotos dos dois juntos e elogios ao trabalho de Alcolumbre. Jocildo é presidente da organização.
A Amprev tem ainda Alberto Alcolumbre, irmão do senador, como conselheiro fiscal. Ele não é alvo da operação da PF nesta sexta.
A Folha questionou a Amprev e o Governo do Amapá sobre o que influenciou a indicação de Jocildo. A administração estadual respondeu com uma nota na qual não menciona o nome do presidente.
O comunicado afirma que a Amprev se sente lesada pelo Banco Master e não abre mão de ser ressarcida. "Por isso, já ingressou com todas as medidas judiciais cabíveis, conseguindo, inclusive, o bloqueio de pagamentos ao banco", diz a nota.
Conforme o governo estadual, os investimentos realizados no Master foram validados pelo BC (Banco Central) e representam 4,7% da carteira da instituição.
"Sob esta administração, o patrimônio da Amprev evoluiu 41% de 2023 para 2025, garantindo o pagamento aos aposentados e pensionistas até o ano de 2059", disse.
EX-CHEFE TEVE CARGO NO GOVERNO DO RJ
Já o Rioprevidência foi presidido por Deivis Marcon Antunes no período de julho de 2023 a janeiro de 2026, quando o advogado pediu demissão e foi exonerado pelo governador Cláudio Castro (PL).
Pessoas ligadas à política fluminense disseram à reportagem que a indicação de Deivis e outros diretores teria saído do União Brasil partido da base da gestão Castro e mesma legenda de Alcolumbre no Amapá. A defesa do ex-presidente nega.
A Folha de S.Paulo apurou que Deivis, antes de migrar para o Rioprevidência, foi nomeado em janeiro de 2022 para um cargo em comissão de assessor-chefe na Secretaria de Estado de Transportes. A exoneração foi formalizada um ano depois, em janeiro de 2023. Os registros aparecem no Diário Oficial do Rio de Janeiro.
A passagem pela secretaria, contudo, não é citada no currículo de Deivis ainda disponível em uma versão antiga do site do Rioprevidência. O endereço atual já não contém mais as informações do ex-presidente.
No período da nomeação para o cargo em comissão, a pasta de Transportes do governo Castro era comandada pelo advogado André Nahass. Ele foi nomeado secretário em novembro de 2021 e exonerado em dezembro de 2022.
O advogado substituiu na secretaria estadual o atual deputado federal Juninho do Pneu (União-RJ), que havia sido indicado pelo antigo DEM, como apurou a Folha em junho de 2021. O DEM daria origem ao União Brasil na sequência, a partir de uma fusão com o PSL.
Em nota, o escritório de Nahass afirmou que Deivis foi convidado para participar da equipe da Secretaria de Transportes no período de novembro de 2021 a dezembro de 2022 por ser um advogado qualificado, com mestrado.
A defesa do ex-presidente negou em um comunicado que ele tenha sido indicado para o Rioprevidência por motivos políticos. Segundo o comunicado, Deivis era um quadro técnico.
A defesa citou o trabalho do advogado na Secretaria de Transportes e disse que ele já era conhecido por seu currículo com formação na área de RPPS (Regime Próprio de Previdência Social).
A nota ainda afirmou que Deivis atuou no setor jurídico da Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) e da Refer (Fundação Rede Ferroviária de Seguridade Social).
A Folha de S.Pulo pediu ao Governo do Rio de Janeiro um posicionamento sobre a indicação do ex-presidente para o Rioprevidência e o cargo anterior, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), deputados de oposição a Castro pedem a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar as nomeações de ex-diretores do fundo local e as operações com o Master.
Ao pedir demissão em janeiro, Deivis enviou uma carta para o governador na qual disse que promoveu um "ciclo virtuoso de gestão" no Rioprevidência. Também afirmou que nunca se eximiu de responsabilidades e que se colocava à disposição das autoridades.
"Por fim, enfatizo que repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Rioprevidência, pois, como disse, sempre agi com espírito público, correção e dentro dos mais elevados preceitos éticos, conduta essa que sempre pautou minha vida profissional nos locais onde trabalhei", acrescentou na carta.
[0] Comentários | Deixe seu comentário.