3 de fevereiro de 2026
O RN não vive uma crise — quem está em colapso é a narrativa do “Estado quebrado”
Autor: Daniel Menezes
No Rio Grande do Norte, a palavra “crise” ganhou um significado curioso: ela aparece justamente quando os números melhoram. A folha de pagamento deixa de crescer de forma descontrolada, os índices de violência caem de maneira consistente e os serviços públicos se expandem — mas, ainda assim, o discurso apocalíptico se instala. Para certos grupos políticos, governar com algum grau de previsibilidade fiscal e social não é sinal de normalidade administrativa, mas de catástrofe iminente.
O mais irônico é a autoria desse lamento permanente. O alarme de “Estado quebrado” costuma ser acionado por setores que estiveram no comando do RN em gestões anteriores, período marcado por desorganização financeira, explosão de despesas e incapacidade estrutural de entregar políticas públicas básicas. Quando a realidade começa a desmentir o roteiro do caos, o problema deixa de ser a crise em si e passa a ser a ausência dela.
A queda do custo da folha, por exemplo, que em qualquer manual mínimo de gestão pública seria tratada como correção de rota, vira “sintoma de colapso”. A redução da violência, construída com políticas integradas e planejamento, é relativizada como se fosse acaso estatístico. A ampliação de serviços públicos, antes cobrada como urgência, passa a ser descrita como irresponsabilidade fiscal. No fundo, o que incomoda não é o suposto rombo, mas o fato de o rombo não existir mais.
Assim, o RN vive uma crise peculiar: não a dos indicadores, mas a da narrativa. Uma crise de discurso, puxada por quem precisa que o Estado esteja sempre à beira do abismo para justificar o passado — e tentar recuperar o futuro. Quando os dados atrapalham, resta chamar de crise aquilo que, na prática, é funcionamento.
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