1 de fevereiro de 2026

A Justiça sob o Clarão das Aparências

Autor: Daniel Menezes

Por Ricardo Valentim

Professor Associado da UFRN

A Justiça nem sempre comporta a moral, especialmente quando esta se reduz a uma estética aplicada ao senso comum — um território árido onde o pensamento crítico costuma ser recebido com repulsa. Em ciclos de extremismo, a elevação de uma moralidade dogmática acima do Direito constitui um risco democrático latente, pois abdica-se da segurança das normas em favor da tirania das aparências e do julgamento sumário. 

Essa estética, frequentemente manipulada para influenciar um senso comum polarizado, não é um subproduto inocente, mas uma ferramenta desenhada para servir a interesses ocultos sob o manto da virtude.

O passado recente brasileiro, ilustrado pela Lava Jato, oferece um exemplo nítido dessa armadilha: uma narrativa anticorrupção esteticamente impecável e politicamente correta que, anos depois, revelou camadas de interesses que pouco tinham a ver com a pureza do Direito. Hoje, testemunhamos o desdobramento de um movimento similar, mas com alvos regenerados. 

O Judiciário brasileiro encontra-se sob ataques vis, onde o lawfare é instrumentalizado para institucionalizar uma estética polida pela imprensa e pulverizada pelo algoritmo das redes sociais.

O perigo reside na tentativa deliberada de confundir essa moralidade de ocasião com a própria Justiça. Quando o senso comum exige que o tribunal seja o carrasco de suas vontades, ele ignora que a democracia sobrevive justamente na distância segura entre o clamor das massas e o rigor da lei. 

Defender as instituições contra essa investida não é uma escolha ideológica, mas uma necessidade de sobrevivência civilizatória; afinal, quando a estética da indignação vence a técnica jurídica, o que resta não é a justiça, mas um espetáculo de conveniências que, cedo ou tarde, cobrará o seu preço de todos nós.

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