Uma carta aos meus parentes bolsonaristas
Antes de tudo, permitam-me contar um pouco da minha história. Sou resultado de políticas públicas. Sim, estudei e me esforcei muito, mas sem a UFRN, o CNPq e tantas outras políticas de educação e ciência, dificilmente teria chegado até aqui. É justamente por saber o que o Estado pode fazer pela vida de pessoas comuns que me dói ver vocês defendendo um projeto que, tantas vezes, trabalha contra os próprios interesses de vocês.
Também me entristece vê-los capturados pela tentativa de misturar religião e política. A história já mostrou inúmeras vezes que essa fusão costuma fazer mal às duas. Não, a família brasileira não está sob ataque. Esse pânico moral transforma medos em votos e pessoas religiosas em instrumentos de interesses que pouco têm a ver com sua vida concreta. Nossa própria família desmente essa fantasia: há separados, mães que criaram filhos sozinhas, casamentos construídos por escolha e relações que não deram certo. Família nunca coube em um único molde.
É difícil entender como vocês não percebem essa contradição olhando para a própria vida. E como esta mesma régua some quando os escrutinados são justamente aqueles que vocês defendem com unhas e dentes. Em nome de um combate às minorias que considero incompatível com o exemplo de Jesus, servidores públicos defendem o desmonte do Estado; moradores do Rio Grande do Norte apoiam políticas que podem reduzir investimentos no Nordeste; trabalhadores CLT celebram propostas de flexibilização de direitos como se necessariamente fossem beneficiá-los. A guerra cultural faz justamente isso: coloca questões imaginárias acima dos interesses materiais de quem trabalha e precisa de serviços públicos.
Desde 2018, confesso que minha admiração por vocês vem diminuindo. Não digo isso com prazer. Não sou dado a mentiras, principalmente com os meus, e me incomoda ver pessoas que reivindicam superioridade moral compartilhando absurdos (mamadeira de piroca, ataque às vacinas etc) para justificar escolhas políticas. Vejo até mulheres reproduzindo um discurso antifeminista depois de conhecerem, na própria pele ou de perto, a violência e o autoritarismo de homens. Há uma distância dolorosa entre aquilo que algumas pessoas viveram e aquilo que passaram a defender.
Vivemos numa democracia e cada um vota em quem quiser. Vocês não precisam votar na esquerda, nem pensar como eu. Existem inúmeras correntes democráticas à direita, ao centro e à esquerda. O problema é outro. Quando uma opção política vira fanatismo e passa a justificar intolerância, mentira, desprezo por minorias e ataques às instituições, ela inevitavelmente invade nossas relações pessoais. É isso que me entristece: ver pessoas que amo aderirem a um bolsonarismo que, para mim, não representa apenas uma escolha eleitoral, mas um projeto profundamente contrário à solidariedade, à convivência democrática e aos valores mínimos de uma sociedade civilizada.